Comissão do 11 de Setembro Nega Ligações Entre Saddam e a Al-Qaeda
Por JORGE ALMEIDA FERNANDES
Quinta-feira, 17 de Junho de 2004
A comissão independente de inquérito sobre os atentados do 11 de Setembro, nomeada pelo Congresso norte-americano, desmentiu ontem num relatório preliminar as teses da Administração Bush sobre as hipotéticas ligações entre o ditador iraquiano, Saddam Hussein, e a rede terrorista Al-Qaeda. "Não temos prova credível de que o Iraque tenha cooperado com a Al-Qaeda para perpetrar os ataques contra os Estados Unidos."
Segundo o texto, houve contactos entre Bin Laden e Bagdad. O fundador da Al-Qaeda terá encarado uma cooperação com o Iraque, quando vivia no Sudão, "a despeito da sua oposição ao regime secular de [Saddam] Hussein" e de ter inclusive ajudado opositores islamistas a Bagdad no Curdistão iraquiano.
"Um alto responsável dos serviços de informação iraquianos teria feito três visitas ao Sudão para se encontrar com Bin Laden, em 1994". Este teria desejaria treinar as suas tropas em território iraquiano, mas nunca recebeu resposta positiva. "Há também informações segundo as quais teria havido contactos entre o Iraque e a Al-Qaeda depois do regresso de Bin Laden ao Afeganistão, mas esses contactos nunca resultaram numa colaboração", prossegue o texto.
Em compensação, a comissão aponta o dedo ao Paquistão. "A capacidade dos taliban para fornecer um abrigo a Bin Laden, perante a pressão internacional e as sanções das Nações Unidas, foi consideravelmente facilitada pelo apoio do Paquistão". Após o 11 de Setembro, Islamabad passou a colaborar com os Estados Unidos e tornou-se um aliado fundamental para a guerra contra os taliban no Afeganistão.
O relatório alerta ainda para a ameaça que a Al-Qaeda continua a constituir e para o risco de lançar ataques maciços contra os EUA, inclusive com "armas químicas, biológicas, radiológicas e nucleares".
A comissão, formada por cinco democratas e cinco republicanos, foi nomeada pelo Congresso em fins de 2002 para fazer "um balanço integral e completo" dos ataques de 11 de Setembro de 2001 e apresentar recomendações para prevenir a sua repetição. Ouviu mais de mil pessoas, em dez países, designadamente peritos dos serviços de informações e responsáveis políticos das Administrações Clinton e Bush, inclusive o próprio Presidente. O relatório definitivo será apresentado em 28 de Julho.
O relatório coloca a Administração Bush em situação incómoda. A suposta ligação à Al-Qaeda foi um dos pretextos invocados para a invasão do Iraque e continua a ser um argumento recorrente nos discursos de George W. Bush e do vice-Presidente Dick Cheney. Ainda na segunda-feira, este afirmou que o ditador iraquiano tinha "laços estabelecidos há longo tempo com a Al-Qaeda".
Na terça-feira, na presença do Presidente afegão, Hamid Karzai, Bush voltou a denunciar os laços entre Saddam e o terrorismo, mas fez uma pequena inflexão, colocando a ênfase na colaboração entre a organização de Bin Laden e a resistência iraquiana.
http://jornal.publico.pt/2004/06/17/Mundo/I01.html
Antigos Diplomatas e Militares Pedem Derrota de Bush
Quinta-feira, 17 de Junho de 2004
Vinte e seis antigos diplomatas e chefes militares americanos, democratas e republicanos, criticam, numa carta ontem publicada, a política da Administração Bush, que se lançou numa guerra mal preparada e conduziu ao isolamento dos EUA no mundo, apelando à derrota do Presidente nas próximas eleições.
"Desde início, o Presidente George W. Bush adoptou uma abordagem autoritária do papel dos Estados Unidos no mundo. Apostou no poderio militar. Mostrou-se insensível aos interesses dos amigos e dos aliados tradicionais do país e manifestou desdém pelas Nações Unidas."
Recusou uma campanha comum contra as causas do terrorismo, o que "conduziu os Estados Unidos a uma guerra custosa e mal preparada, cujo desfecho é incerto. (...) Justificou a invasão do Iraque por manipulações de informações duvidosas sobre as armas de destruição maciça e por uma campanha cínica visando persuadir a opinião de que Saddam Hussein estava ligado à Al-Qaeda e aos atentados do 11 de Setembro." Bush conduziu ao isolamento dos EUA no mundo e "enfraqueceu a nossa segurança".
A carta, já referida na imprensa americana, foi ontem publicada na íntegra pelo diário francês "Le Monde" e segue-se a outro documento do mês passado em que 53 antigos diplomatas criticaram a posição de Wshington no conflito israelo-palestiniano.
A Administração Bush é incapaz de entender os desafios do século XXI, do terrorismo à sida, da proliferação das armas de destruição maciça aos conflitos étnicos e religiosos. E concluem: "Chegou o tempo da mudança."
Os signatários invocam ter participado na definição da política externa e de defesa em todas as administrações desde Harry Truman.
Em entrevista à BBC, um deles, o almirante William Crowe, antigo chefe do estado-maior interarmas, pediu o "fortalecimento das alianças tradicionais". Phyllis Oakley, colaboradora da Administração Reagan, considerou que era uma "perigosa postura" para os EUA "agir como superpotência solitária e unilateral". Um outro, o embaixador William Harrop, confirmou que "a declaração é um apelo à derrota da Administração".
Um partidário de Bush, Cliff May, presidente da conservadora Fundação para Defesa das Democracias, desvalorizou o manifesto dizendo que os seus autores são responsáveis pelas políticas "que fracassaram espectacularmente no 11 de Setembro".
http://jornal.publico.pt/2004/06/17/Mundo/I01CX01.html
Depois de a comissão independente ter negado a cooperação
Bush insiste na existência de ligações entre Saddam e a Al-Qaeda
Reuters, PUBLICO.PT
O Presidente norte-americano, George W. Bush, insistiu hoje na existência de ligações entre o regime iraquiano de Saddam Hussein e a rede Al-Qaeda, negadas ontem por um relatório preliminar da comissão independente que investiga os atentados do 11 de Setembro.
"A razão por que insisto na existência de relações entre o Iraque de Saddam e a Al-Qaeda é porque existiam relações entre o Iraque e a Al-Qaeda", afirmou Bush em conferência de imprensa.
"Esta Administração nunca disse que os ataques do 11 de Setembro foram orquestrados entre Saddam e a Al-Qaeda. O que dissemos é que ocorreram vários contactos entre Saddam Hussein e a Al-Qaeda", sublinhou.
"Existiram vários contactos entre os dois", insistiu, citando informações de encontros entre Osama bin Laden e agentes dos serviços secretos iraquianos no Sudão.
A comissão de inquérito do Congresso norte-americano aos atentados em Nova Iorque e Washington divulgou ontem um relatório preliminar em que concluiu não existirem provas credíveis de que o Iraque tenha cooperado com a rede terrorista de Osama bin Laden.
O documento admite a existência de contactos entre a rede terrorista e responsáveis iraquianos, mas sustenta que não há "nenhuma prova credível de que o Iraque tenha cooperado com a Al-Qaeda a fim de serem perpetrados os ataques" do 11 de Setembro.
O relatório admite ainda que o chefe da Al-Qaeda terá pedido ao Iraque - quando ainda estava no Sudão - uma autorização para treinar os seus homens em solo iraquiano, mas nunca recebeu uma resposta da parte do regime de Saddam Hussein
Por outro lado, apesar de haver informações que dão conta de contactos entre o Iraque e a Al-Qaeda após o regresso de Bin Laden ao Afeganistão, esses contactos - explica a comissão - nunca chegaram a transformar-se numa cooperação efectiva.
Estas conclusões representam um sério revés para a Administração americana, já que a Casa Branca alegou desde o início que a guerra contra o Iraque se integrava na guerra contra o terrorismo desencadeada em 2001, sustentando que o regime de Saddam Hussein, além de possuir armas de destruição maciça, colaborava com grupos terroristas internacionais.
Reagindo a este relatório, o influente diário "The New York Times" afirma que George W. Bush deveria "pedir desculpas" aos americanos por tê-los feito acreditar em algo que não era verdade.
O diário sustenta que, "de todas as formas usadas por Bush para convencer os americanos a apoiar a invasão do Iraque", "a mais desonesta" foi a de ligar a guerra com a luta contra o terrorismo internacional. "Se é possível que Bush e os seus colaboradores acreditassem realmente na existência de armas químicas, biológicas e nucleares no Iraque, sabiam durante todo esse tempo que não existiam ligações entre o Iraque e a Al-Qaeda", sustenta o jornal.
http://ultimahora.publico.pt/shownews.asp?id=1196875&idCanal=15
Por ter alegado ligações entre Saddam e a Al-Qaeda
11 de Setembro: "The New York Times" exige pedido de desculpas de George W. Bush
PUBLICO.PT
O diário norte-americano "The New York Times" defende hoje, em editorial, que o Presidente George W. Bush deveria "pedir desculpas" por ter justificado a guerra contra o Iraque com base na alegada ligação entre o regime de Saddam Hussein e a rede terrorista Al-Qaeda — desmentida ontem pela comissão independente que investiga os atentados do 11 de Setembro.
Sustentando que a comissão foi "o mais clara possível", ao afirmar que "nunca houve provas da existência de ligações entre o Iraque e a Al-Qaeda, entre Saddam Hussein e o 11 de Setembro", o influente diário nova-iorquino afirma que "o Presidente Bush deve agora pedir desculpas ao povo americano, que foi levado a acreditar numa coisa diferente".
O diário sustenta que, "de todas as formas usadas por Bush para convencer os americanos a apoiar a invasão do Iraque", "a mais desonesta" foi a de ligar a guerra com a luta contra o terrorismo internacional. "Se é possível que Bush e os seus colaboradores acreditassem realmente na existência de armas químicas, biológicas e nucleares no Iraque, sabiam durante todo esse tempo que não existiam ligações entre o Iraque e a Al-Qaeda", sustenta o jornal.
"Nenhum perito sério acreditava que essa ligação existisse", lê-se no editorial, recordando que Richard Clarke, antigo conselheiro do Presidente para as questões do contraterrorismo, afirmou publicamente que Bush tinha sido informado disso.
"Mesmo assim, a Administração Bush convenceu uma maioria significativa de americanos, antes da guerra, de que Saddam Hussein estava, de alguma forma, ligado ao 11 de Setembro", critica o jornal, lamentando que ainda esta semana, o vice-presidente, Dick Cheney, tenha afirmado que o ex-Presidente iraquiano "tinha laços estabelecidos há longo tempo com a Al-Qaeda".
Para o diário nova-iorquino, não se trata apenas de "uma questão de diminuição da credibilidade do Presidente, por mais perturbante que isso seja". O jornal vai mais longe e afirma que "a guerra contra o terrorismo foi prejudicada, na medida em que o conflito no Iraque desviou recursos militares e estratégicos de locais como o Afeganistão, onde realmente podem estar as forças da Al-Qaeda".
http://ultimahora.publico.pt/shownews.asp?id=1196850
$Desculpas e Fé
Por NUNO PACHECO
Domingo, 20 de Junho de 2004
Agora que o governo provisório do Iraque admite recorrer à lei marcial para reduzir o impacto dos atentados que têm vindo, ininterruptamente, a abalar o país (ainda ontem um civil português morreu na sequência de mais um, em Bassorá), voltam à ribalta as razões (ou a falta delas) que levaram ao desencadear da guerra. Não se discutindo se Saddam Hussein era um ditador, porque todos sabiam que era, incluindo ele próprio, discute-se sim o que levou George W. Bush a empreender a sua cruzada "purificadora" em terras do Médio Oriente, com argumentos que ainda estão bem presentes da mente de todos: o perigo que Saddam representava para ao mundo, as ameaças de atentados com armas químicas, o eventual (e desejável) efeito de dominó que faria a democracia alastrar, como indomável benção, por toda a região. A verdade é que, já depois de Bagdad ter sido tomada de assalto pelas tropas aliadas, o argumento das armas químicas ficou pelo caminho. O próprio Colin Powell veio admitir que, inadvertidamente, dera informações erradas à América e ao mundo sobre o assunto, depois de ter sido enganado por terceiros. Agora é a vez das alegadas ligações de Saddam à Al-Qaeda, a rede terrorista de Osama Bin Laden. A comissão independente que investiga os atentados do 11 de Setembro concluiu, num relatório preliminar, não ter "qualquer prova credível de que o Iraque tenha cooperado com a Al-Qaeda para perpetrar os ataques contra os Estados Unidos." Terá havido contactos entre Bin Laden e Bagdad, é certo, mas sem nenhuma consequência em termos de colaboração e se algum país serviu de abrigo a Bin Laden, adiantam os investigadores, esse país terá sido o Paquistão, aliado de Bush.
O relatório definitivo só será apresentado a 28 de Julho mas, perante tais afirmações preliminares, o diário norte-americano "The New York Times" já veio defender, em editorial, que Bush deveria "pedir desculpas" à América, adiantando que "de todas as formas usadas por Bush para convencer os americanos a apoiar a invasão" do Iraque, "a mais desonesta" terá sido misturar a guerra e a luta contra o terrorismo internacional. O jornal vai mesmo mais longe e afirma que "a guerra contra o terrorismo foi prejudicada, na medida em que o conflito no Iraque desviou recursos militares e estratégicos de locais como o Afeganistão, onde realmente podem estar as forças da Al-Qaeda".
O Presidente norte-americano, porém, parece tudo menos inclinado a pedir desculpas. Apesar do flagelo criado, onde pelos vistos ninguém consegue intervir de forma eficaz e duradoura, George W. Bush veio, pelo contrário, reafirmar a sua tese. "A razão por que insisto na existência de relações entre o Iraque de Saddam e a Al-Qaeda é porque existiam relações entre o Iraque e a Al-Qaeda", disse à imprensa. Mais uma vez, a fé parece substituir, na Casa Branca, o necessário discernimento para corrigir erros e dar passos seguros na segurança mundial. É assim que vão aumentando os não-crentes.
http://jornal.publico.pt/2004/06/20/EspacoPublico/OEDIT.html
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