Óscar
17-06-2004, 20:11
Iraque: General americana diz ter recebido ordens para tratar presos "como cães"
PÚBLICO
A general norte-americana Janis Karpinski, antiga responsável por 16 centros de detenção no Iraque, acusou ontem o seu superior hierárquico, general Geoffrey Miller, de ordenar que os prisioneiros iraquianos fossem tratados "como cães". O debate não cessa de alastrar nos Estados Unidos, onde a imprensa revela documentos em que a Administração procurou contornar as Covenções de Genebra e a proibição de tortura.
Em entrevista à BBC rádio, Karpinski, que foi suspensa das suas funções por um período ilimitado, afirmou que o general Miller, responsável supremo pelos centros de detenção no Iraque, disse-lhe que os prisioneiros "são como cães e se os deixam acreditar a qualquer momento que são algo mais, então perdem o seu controlo". O general Miller disse à AP que "a declaração da general Karpinski aos 'media' é absolutamente falsa". Antes de ser colocado no Iraque, Miller comandou o campo Delta em Guantanamo, onde estão cerca de 600 prisioneiros detidos no quadro da guerra antiterrorista.
"Sou um bode expiatório cómodo", prosseguiu Karpinski, que nega responsabilidade pessoal nas sevícias de Abu Ghraib. "O centro onde eram interrogados funcionava sob um comando separado, e eu não tinha nenhuma razão para me dirigir aos blocos de células 1A e 1B ou de visitar o centro, pois não estavam sob minha direcção."
Põe em causa também o general Ricardo Sanchez, o comandante militar americano no Iraque, "a quem devem ser feitas sérias perguntas sobre o que ele sabia sobre os abusos". Sanchez assumiu a responsabilidade por Abu Ghraib mas negou ter permitido a tortura nos interrogatórios.
No sábado, o "Washington Post", citando documentos oficiais, acusou Sanchez de ter autorizado, em Setembro de 2003, os oficiais superiores de Abu Ghraib "a utilizar cães militares, temperaturas extremas, privações sensoriais, mudanças do ritmo do sono e regimes a pão e água". O general ter-se-ia inspirado nas técnicas de Guantanamo. Para "permitir um inquérito completo e transparente", Sanchez pediu para ser libertado das suas responsabilidades.
Rumsfeld nega
O secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, reafirmou na segunda-feira à noite que a tortura é proibida nos Estados Unidos e que estes continuam a respeitar as Convenções de Genebra. E que não havia qualquer reserva mental quanto à definição de tortura. "Não há margem de manobra, nem no espírito do Presidente [Bush] nem no meu espírito, sobre a tortura."
Rumsfeld estava aludir à recente divulgação de relatórios de 2002 e 2003, resumidos na última "Time", em que especialistas da Administração tentam justificar a autorização da tortura na luta antiterrorista, em nome da segurança nacional.
O 11 de Setembro conduziu à tentação de combater o terrorismo "por todos os meios". Em Janeiro de 2002, um relatório do Departamento da Justiça explicava que as Convenções de Genebra não se aplicavam no Afeganistão e que os americanos não podiam ser acusados de crimes de guerra no interrogatório de membros da Al-Qaeda ou dos taliban, que "não usam uniforme (...) e violam sistematicamente as leis da guerra". Um outro relatório da Justiça para a CIA, de Agosto de 2002, tenta circunscrever a definição de tortura a práticas excessivamente violentas. Um outro, do Pentágono, de Março de 2003, considera que o Presidente não está amarrado pelas leis contra a tortura.
Aguarda-se para a semana a publicação de um primeiro relatório da inspecção militar norte-americana sobre a extensão e as responsabilidades dos abusos na prisão de Abu Ghraib.
Disse à "Time" o senador republicano John McCain: "É incrível. Por que é que qualquer qualquer nação do mundo tem agora luz verde para fazer tudo o que pensa necessário para combater uma 'ameaça terrorista'?"
http://ultimahora.publico.pt/shownews.asp?id=1196736
PÚBLICO
A general norte-americana Janis Karpinski, antiga responsável por 16 centros de detenção no Iraque, acusou ontem o seu superior hierárquico, general Geoffrey Miller, de ordenar que os prisioneiros iraquianos fossem tratados "como cães". O debate não cessa de alastrar nos Estados Unidos, onde a imprensa revela documentos em que a Administração procurou contornar as Covenções de Genebra e a proibição de tortura.
Em entrevista à BBC rádio, Karpinski, que foi suspensa das suas funções por um período ilimitado, afirmou que o general Miller, responsável supremo pelos centros de detenção no Iraque, disse-lhe que os prisioneiros "são como cães e se os deixam acreditar a qualquer momento que são algo mais, então perdem o seu controlo". O general Miller disse à AP que "a declaração da general Karpinski aos 'media' é absolutamente falsa". Antes de ser colocado no Iraque, Miller comandou o campo Delta em Guantanamo, onde estão cerca de 600 prisioneiros detidos no quadro da guerra antiterrorista.
"Sou um bode expiatório cómodo", prosseguiu Karpinski, que nega responsabilidade pessoal nas sevícias de Abu Ghraib. "O centro onde eram interrogados funcionava sob um comando separado, e eu não tinha nenhuma razão para me dirigir aos blocos de células 1A e 1B ou de visitar o centro, pois não estavam sob minha direcção."
Põe em causa também o general Ricardo Sanchez, o comandante militar americano no Iraque, "a quem devem ser feitas sérias perguntas sobre o que ele sabia sobre os abusos". Sanchez assumiu a responsabilidade por Abu Ghraib mas negou ter permitido a tortura nos interrogatórios.
No sábado, o "Washington Post", citando documentos oficiais, acusou Sanchez de ter autorizado, em Setembro de 2003, os oficiais superiores de Abu Ghraib "a utilizar cães militares, temperaturas extremas, privações sensoriais, mudanças do ritmo do sono e regimes a pão e água". O general ter-se-ia inspirado nas técnicas de Guantanamo. Para "permitir um inquérito completo e transparente", Sanchez pediu para ser libertado das suas responsabilidades.
Rumsfeld nega
O secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, reafirmou na segunda-feira à noite que a tortura é proibida nos Estados Unidos e que estes continuam a respeitar as Convenções de Genebra. E que não havia qualquer reserva mental quanto à definição de tortura. "Não há margem de manobra, nem no espírito do Presidente [Bush] nem no meu espírito, sobre a tortura."
Rumsfeld estava aludir à recente divulgação de relatórios de 2002 e 2003, resumidos na última "Time", em que especialistas da Administração tentam justificar a autorização da tortura na luta antiterrorista, em nome da segurança nacional.
O 11 de Setembro conduziu à tentação de combater o terrorismo "por todos os meios". Em Janeiro de 2002, um relatório do Departamento da Justiça explicava que as Convenções de Genebra não se aplicavam no Afeganistão e que os americanos não podiam ser acusados de crimes de guerra no interrogatório de membros da Al-Qaeda ou dos taliban, que "não usam uniforme (...) e violam sistematicamente as leis da guerra". Um outro relatório da Justiça para a CIA, de Agosto de 2002, tenta circunscrever a definição de tortura a práticas excessivamente violentas. Um outro, do Pentágono, de Março de 2003, considera que o Presidente não está amarrado pelas leis contra a tortura.
Aguarda-se para a semana a publicação de um primeiro relatório da inspecção militar norte-americana sobre a extensão e as responsabilidades dos abusos na prisão de Abu Ghraib.
Disse à "Time" o senador republicano John McCain: "É incrível. Por que é que qualquer qualquer nação do mundo tem agora luz verde para fazer tudo o que pensa necessário para combater uma 'ameaça terrorista'?"
http://ultimahora.publico.pt/shownews.asp?id=1196736
