Karl Marx
25-06-2004, 15:50
“A pátria é uma casualidade sem importância na vida”, escreveu Mário Vargas Llosa querendo, talvez, vincar a importância da universalidade, digo eu…
Lembrei-me dessa afirmação polémica ao matutar, no auge do rescaldo da sufucante vitória perante a Inglaterra, sobre a súbita explosão de nacionalismo lusitano que estamos a presenciar há umas escassa semanas, sob o signo da participação da nossa selecção de futebol no “nosso” Euro. Se bem percebi, a proliferação dos símbolos nacionais foi despoletada por um apelo do seleccionador (brasileiro) com uma frase já histórica: “uma bandeira em cada janela”. E foi um rastilho que ardeu célere: por todo o País, aqui nas ilhas, igualmente, foi uma corrida desenfreada às bandeiras nacionais e a uma miríade de outros objectos que sugerissem, minimamente, esse fervor patriótico súbito.
Banalizou-se, num ápice, o símbolo máximo da identidade de um povo: a sua bandeira. Vi mulheres, homens e crianças envoltas nela, vi alguns exemplares com a palavra “Portugal” inscrita no verde-rubro, quando se sabe que à bandeira nacional nada pode ser apenso a não ser o que está descrito na lei que a aprovou, vi jovens bonitas e outras nem tanto envergando blusas feitas com bandeiras nacionais, vi bandeiras em varandas, balcões, janelas, postes de madeira ou alumínio, pregadas em carros, em cafés, numa casa de banho de um café… (Ou)vi ontem uma filarmónica tocar durante uma hora peças interessantes perante a indiferença de uns poucos milhares de pessoas que circulavam na zona das tascas do Bailão das nossas Sanjoaninas, para receber uma explosão de aplausos quando encerrou o concerto executando o hino nacional, cantado a plenos pulmões pela assistência.
Lembrei-me da banalização de que a bandeira dos Estados Unidos é alvo, sobretudo desde o 11 de Setembro, como me lembrei do que senti, há um mês e tal, quando da Califórnia a Boston vi milhares de estandartes americanos, alguns nos sítios e situações mais inverosímeis, como é o caso de dois tractores que lavravam o fértil solo do Vale de San Joaquim, ostentando, por cima das rotativas, bandeiras de dimensões gigantes. Banalização perigosa, pensei então, uma vez que qualquer acto de banalização tem como consequência lógica o desinteresse.
Mas o caso americano ainda tem uma explicação: o medo e o desígnio nacional de não vergar (pelo menos simbolicamente) perante o terrorismo, depois da humilhação suprema que foi o “nine-eleven”. Por cá, até nem é a primeira vez que vamos a fases finais de torneios europeus ou mundiais de futebol! Porquê isto? Porquê até o Primeiro-Ministro envergar por cima do fato, em pleno Verão, um cachecol?, Porque raio é que não há um programa de televisão que não seja, por estes dias, feito de cantigas, imagens, entrevistas e sei-lá-mais-o-quê a propagandear a nossa excelência absoluta e patriótica no futebol?
Está a correr-nos de feição o Euro 2004. Depois da Inglaterra, venham todos que até os comemos vivos. Vamos ser campeões da Europa. O nosso ego colectivo vai dar um salto do caraças!
E depois, vem o dia 3 e as férias e a… realidade. Que vamos fazer às nossas bandeiras? Em que outro acto patriótico colectivo as vamos usar em igual escala, pelo menos durante dois penosos anos de mau viver e de sustos no apuramento para o Mundial de 2006? Corrijo, em Agosto ainda vamos ter outra oportunidade: os Olímpicos de Atenas, onde vão estar uns rapazes e raparigas a correr e a saltar… mais o Cristiano Ronaldo!
Em suma: Portugal é a selecção de futebol. Patrioticamente.
Lá se vai a casualidade do Vargas Llosa.
PS – A minha filha também quis uma bandeira. Tentei comprar-lhe uma, mesmo que fosse daquelas chinesas com chinesices no lugar dos castelos, mas já não apanhei. Mas comprei-lhe um cachecol (made in China) e um boné (um “cap” de basebol americano, também feito na China), aquele formato tornado universal que até os nosso polícias já usam… Têxteis chineses com símbolos do País dos têxteis. E também tremi, nervoso, durante todo o jogo com a Inglaterra, tal como saltei da cadeira a gritar golo, duas vezes, já que quando o Ricardo Coração de Leão acabou com a brincadeira, me limitei a suspirar de alívio e a parar de tremer.
Lembrei-me dessa afirmação polémica ao matutar, no auge do rescaldo da sufucante vitória perante a Inglaterra, sobre a súbita explosão de nacionalismo lusitano que estamos a presenciar há umas escassa semanas, sob o signo da participação da nossa selecção de futebol no “nosso” Euro. Se bem percebi, a proliferação dos símbolos nacionais foi despoletada por um apelo do seleccionador (brasileiro) com uma frase já histórica: “uma bandeira em cada janela”. E foi um rastilho que ardeu célere: por todo o País, aqui nas ilhas, igualmente, foi uma corrida desenfreada às bandeiras nacionais e a uma miríade de outros objectos que sugerissem, minimamente, esse fervor patriótico súbito.
Banalizou-se, num ápice, o símbolo máximo da identidade de um povo: a sua bandeira. Vi mulheres, homens e crianças envoltas nela, vi alguns exemplares com a palavra “Portugal” inscrita no verde-rubro, quando se sabe que à bandeira nacional nada pode ser apenso a não ser o que está descrito na lei que a aprovou, vi jovens bonitas e outras nem tanto envergando blusas feitas com bandeiras nacionais, vi bandeiras em varandas, balcões, janelas, postes de madeira ou alumínio, pregadas em carros, em cafés, numa casa de banho de um café… (Ou)vi ontem uma filarmónica tocar durante uma hora peças interessantes perante a indiferença de uns poucos milhares de pessoas que circulavam na zona das tascas do Bailão das nossas Sanjoaninas, para receber uma explosão de aplausos quando encerrou o concerto executando o hino nacional, cantado a plenos pulmões pela assistência.
Lembrei-me da banalização de que a bandeira dos Estados Unidos é alvo, sobretudo desde o 11 de Setembro, como me lembrei do que senti, há um mês e tal, quando da Califórnia a Boston vi milhares de estandartes americanos, alguns nos sítios e situações mais inverosímeis, como é o caso de dois tractores que lavravam o fértil solo do Vale de San Joaquim, ostentando, por cima das rotativas, bandeiras de dimensões gigantes. Banalização perigosa, pensei então, uma vez que qualquer acto de banalização tem como consequência lógica o desinteresse.
Mas o caso americano ainda tem uma explicação: o medo e o desígnio nacional de não vergar (pelo menos simbolicamente) perante o terrorismo, depois da humilhação suprema que foi o “nine-eleven”. Por cá, até nem é a primeira vez que vamos a fases finais de torneios europeus ou mundiais de futebol! Porquê isto? Porquê até o Primeiro-Ministro envergar por cima do fato, em pleno Verão, um cachecol?, Porque raio é que não há um programa de televisão que não seja, por estes dias, feito de cantigas, imagens, entrevistas e sei-lá-mais-o-quê a propagandear a nossa excelência absoluta e patriótica no futebol?
Está a correr-nos de feição o Euro 2004. Depois da Inglaterra, venham todos que até os comemos vivos. Vamos ser campeões da Europa. O nosso ego colectivo vai dar um salto do caraças!
E depois, vem o dia 3 e as férias e a… realidade. Que vamos fazer às nossas bandeiras? Em que outro acto patriótico colectivo as vamos usar em igual escala, pelo menos durante dois penosos anos de mau viver e de sustos no apuramento para o Mundial de 2006? Corrijo, em Agosto ainda vamos ter outra oportunidade: os Olímpicos de Atenas, onde vão estar uns rapazes e raparigas a correr e a saltar… mais o Cristiano Ronaldo!
Em suma: Portugal é a selecção de futebol. Patrioticamente.
Lá se vai a casualidade do Vargas Llosa.
PS – A minha filha também quis uma bandeira. Tentei comprar-lhe uma, mesmo que fosse daquelas chinesas com chinesices no lugar dos castelos, mas já não apanhei. Mas comprei-lhe um cachecol (made in China) e um boné (um “cap” de basebol americano, também feito na China), aquele formato tornado universal que até os nosso polícias já usam… Têxteis chineses com símbolos do País dos têxteis. E também tremi, nervoso, durante todo o jogo com a Inglaterra, tal como saltei da cadeira a gritar golo, duas vezes, já que quando o Ricardo Coração de Leão acabou com a brincadeira, me limitei a suspirar de alívio e a parar de tremer.
