Ventor
13-07-2004, 15:01
Não? E do nosso Adalberto?
Encontrei-o nas minhas Catacumbas da Net.
Recordemos, então!
Capítulo V
O dia estava chuvoso, e a ventania fazia sentir a sua força na vidraça da janela, e Adalberto deitado no seu berço, um pouco sonolento, tentava espreitar por debaixo da mantinha que lhe tapava quase toda a cabeça. Ele tentava puxar a manta para baixo, e esta submetida a uma força de tracção originada por uma dobra, tinha tendência a voltar à mesma posição, e Adalberto continuava a fazer tentativas, mais tentativas, umas atrás das outras até que, num puxão de raiva, lá conseguiu os seus intentos – libertou-se do fardo da manta que lhe não permitia ver o que se passava para além da vidraça.
Tentou soerguer-se no seu berço, para melhor olhar a vidraça, mas apenas, entre a cortina meio aberta e a ombreira da janela, via qualquer coisa que se mexia no exterior, e até chegou a pensar que alguém lhe acenava do outro lado, mas ele nada entendia.
Depois olhou para a parede do quarto, no lado oposto à janela, e voltou a ver a mesma imagem, mas noutros moldes, um pouco menos bem definidos, e começou a pensar que estava na hora de investigar. Afinal com um aninho já pensava que a vida não era só feita para andar de gatas, e sua mãe já o tinha ensaiado na preparação das primeiras passadas, e ele começou a pensar porque não era capaz de sair do seu berço, e fazer como os crescidos eram capazes de fazer.
Assim, uma vez que não conseguia, deu-lhe para gritar, gritar, gritar, tentar fazer a sua avó velha, gorda e coxa, vir até ele, nem que para isso, a casa tivesse que vir abaixo, com os seus gritos. A avó, pesadona, embaraçada, tentou levantar-se da sua cadeira, mas enrolou-se na manta que lhe tapava e aquecia as pernas por causa do reumático, e sem equilíbrio, caiu sobre a carpete grossa, junto do berço.
Adalberto, agora tinha três imagens: uma na janela, outra na parede, e uma imaginária, que se tinha sumido, a de sua avó que junto ao berço continuava a espernear, para se levantar, barafustando com a vida, com o vento que lhe não deixara dormir o menino, e com as cruzes que o infortúnio lhe colocou em cima, agora na velhice.
Adalberto tentava olhar para fora do berço, para ver se conseguia deslindar, por ali, a figura da sua avó, mas ouviu um barulho para o fundo do corredor onde ele treina o gatinhar todos os dias, para um dia conseguir dar o tal passo, que quem sabe, pode vir a fazer dele um maratonista.
Passadas apressadas no corredor e, ao virar da porta, eis que vê o mundo que gira à sua volta, onde ele se acha o Sol bolachudo que tanto gosta de ver passar entre as nuvens, quando a vizinha da sua avó que também tem uma netinha o vai buscar, e leva os dois nos carrinhos, acompanhados do seu cão preto rafeiro– Quicas - até ao jardim, que fica ali, a seguir às traseiras da casa.
Olá, meu querido! – grita a mãe do Adalberto – trago aqui papa e leite para ti, da vaquinha da Nestlé que é nossa amiga, e vai ajudar-nos a fazer de ti um homem, e de mim a mulher mais feliz de mundo.
Então mãe, que fazes deitada junto ao berço do Betinho? Não vês que assustas o menino?
Ai filha, por causa desse choramingas que quando lhe apetece, grita por sete, levantei-me, tropecei na manta e caí. Felizmente que fui de vagar até ao chão, mas ajuda-me a levantar que eu não posso sozinha!
O Betinho, farto de procurar a avó com os olhos, e do esforço físico que fizera para o conseguir, desatou num riso sorrateiro, por voltar a ver a avó a sair do chão, amparada pela mãe e, pela primeira vez, sentiu que já partilhava a sua vida com outros, como a avó e a mãe, partilhando também o riso malandro daqueles que vêm sempre que no mal dos outros há sempre um pouco de conforto seu.
Já malandreco, o rapaz!
A mãe pega-o nos braços, leva-o até próximo da janela, e ele procura melhor ângulo para ver o ramo da árvore que, com a força do vento, bate de raspão contra a janela, e começa a torcer a cabeça para ver o que se passava na parede oposta, e que o intrigava. Notou então, que o que se passava na parede, era uma imagem que representava a sombra e o movimento do ramo da árvore que se mexia junto à vidraça.
Olhando pela ramagem da árvore que continua a vergastar a vidraça, o Betinho consegue ver junto a um banco do jardim um cão, o seu amigo Quicas, que ele já conhece, e que é o da vizinha do lado, seu companheiro de jornada e da menina linda, da sua idade, a quem ouve chamar – Sandra.
Adalberto passou cerca de um ano, nesta vida de menino feliz, ficando em casa com a sua avó enquanto a mãe trabalha no seu dia a dia, numa pastelaria do bairro onde moram, onde logo que pôde, arranjou emprego, após sair do hospital, e tem feito uma vida regrada a ver se consegue dar de comer ao seu Betinho com o mínimo de sacrifício possível.
Ele aí está, activo, cheio de vida, com os seus dois aninhos sobre os ombros, caminhando erecto, e já feito homem, gritando barafustando, com Sandra, com o cão, com a avó, com a mãe, e até com alguns dos sisudos vizinhos, que por vezes, com caras de pau, lhe tentam mostrar alguma meiguice, oferecendo-lhe, chocolates, gomas, coisas do Benfica, do Sporing, e sabe-se lá o quê.
Mas o nosso Adalberto, está neste momento com olheiras, com falta de apetite, e começa a chorar pela mãe que sai de casa para ir, religiosamente, executar as suas tarefas de todos os dias, para que nada falte ao seu menino.
http://salpicos.blogs.sapo.pt/arquivo/junho,04-12al%20051.jpg
Não tardará muito, o nosso adalberto, andará pelas falésias algarvias a apreciar as borboletas e sereias em bikini!
Encontrei-o nas minhas Catacumbas da Net.
Recordemos, então!
Capítulo V
O dia estava chuvoso, e a ventania fazia sentir a sua força na vidraça da janela, e Adalberto deitado no seu berço, um pouco sonolento, tentava espreitar por debaixo da mantinha que lhe tapava quase toda a cabeça. Ele tentava puxar a manta para baixo, e esta submetida a uma força de tracção originada por uma dobra, tinha tendência a voltar à mesma posição, e Adalberto continuava a fazer tentativas, mais tentativas, umas atrás das outras até que, num puxão de raiva, lá conseguiu os seus intentos – libertou-se do fardo da manta que lhe não permitia ver o que se passava para além da vidraça.
Tentou soerguer-se no seu berço, para melhor olhar a vidraça, mas apenas, entre a cortina meio aberta e a ombreira da janela, via qualquer coisa que se mexia no exterior, e até chegou a pensar que alguém lhe acenava do outro lado, mas ele nada entendia.
Depois olhou para a parede do quarto, no lado oposto à janela, e voltou a ver a mesma imagem, mas noutros moldes, um pouco menos bem definidos, e começou a pensar que estava na hora de investigar. Afinal com um aninho já pensava que a vida não era só feita para andar de gatas, e sua mãe já o tinha ensaiado na preparação das primeiras passadas, e ele começou a pensar porque não era capaz de sair do seu berço, e fazer como os crescidos eram capazes de fazer.
Assim, uma vez que não conseguia, deu-lhe para gritar, gritar, gritar, tentar fazer a sua avó velha, gorda e coxa, vir até ele, nem que para isso, a casa tivesse que vir abaixo, com os seus gritos. A avó, pesadona, embaraçada, tentou levantar-se da sua cadeira, mas enrolou-se na manta que lhe tapava e aquecia as pernas por causa do reumático, e sem equilíbrio, caiu sobre a carpete grossa, junto do berço.
Adalberto, agora tinha três imagens: uma na janela, outra na parede, e uma imaginária, que se tinha sumido, a de sua avó que junto ao berço continuava a espernear, para se levantar, barafustando com a vida, com o vento que lhe não deixara dormir o menino, e com as cruzes que o infortúnio lhe colocou em cima, agora na velhice.
Adalberto tentava olhar para fora do berço, para ver se conseguia deslindar, por ali, a figura da sua avó, mas ouviu um barulho para o fundo do corredor onde ele treina o gatinhar todos os dias, para um dia conseguir dar o tal passo, que quem sabe, pode vir a fazer dele um maratonista.
Passadas apressadas no corredor e, ao virar da porta, eis que vê o mundo que gira à sua volta, onde ele se acha o Sol bolachudo que tanto gosta de ver passar entre as nuvens, quando a vizinha da sua avó que também tem uma netinha o vai buscar, e leva os dois nos carrinhos, acompanhados do seu cão preto rafeiro– Quicas - até ao jardim, que fica ali, a seguir às traseiras da casa.
Olá, meu querido! – grita a mãe do Adalberto – trago aqui papa e leite para ti, da vaquinha da Nestlé que é nossa amiga, e vai ajudar-nos a fazer de ti um homem, e de mim a mulher mais feliz de mundo.
Então mãe, que fazes deitada junto ao berço do Betinho? Não vês que assustas o menino?
Ai filha, por causa desse choramingas que quando lhe apetece, grita por sete, levantei-me, tropecei na manta e caí. Felizmente que fui de vagar até ao chão, mas ajuda-me a levantar que eu não posso sozinha!
O Betinho, farto de procurar a avó com os olhos, e do esforço físico que fizera para o conseguir, desatou num riso sorrateiro, por voltar a ver a avó a sair do chão, amparada pela mãe e, pela primeira vez, sentiu que já partilhava a sua vida com outros, como a avó e a mãe, partilhando também o riso malandro daqueles que vêm sempre que no mal dos outros há sempre um pouco de conforto seu.
Já malandreco, o rapaz!
A mãe pega-o nos braços, leva-o até próximo da janela, e ele procura melhor ângulo para ver o ramo da árvore que, com a força do vento, bate de raspão contra a janela, e começa a torcer a cabeça para ver o que se passava na parede oposta, e que o intrigava. Notou então, que o que se passava na parede, era uma imagem que representava a sombra e o movimento do ramo da árvore que se mexia junto à vidraça.
Olhando pela ramagem da árvore que continua a vergastar a vidraça, o Betinho consegue ver junto a um banco do jardim um cão, o seu amigo Quicas, que ele já conhece, e que é o da vizinha do lado, seu companheiro de jornada e da menina linda, da sua idade, a quem ouve chamar – Sandra.
Adalberto passou cerca de um ano, nesta vida de menino feliz, ficando em casa com a sua avó enquanto a mãe trabalha no seu dia a dia, numa pastelaria do bairro onde moram, onde logo que pôde, arranjou emprego, após sair do hospital, e tem feito uma vida regrada a ver se consegue dar de comer ao seu Betinho com o mínimo de sacrifício possível.
Ele aí está, activo, cheio de vida, com os seus dois aninhos sobre os ombros, caminhando erecto, e já feito homem, gritando barafustando, com Sandra, com o cão, com a avó, com a mãe, e até com alguns dos sisudos vizinhos, que por vezes, com caras de pau, lhe tentam mostrar alguma meiguice, oferecendo-lhe, chocolates, gomas, coisas do Benfica, do Sporing, e sabe-se lá o quê.
Mas o nosso Adalberto, está neste momento com olheiras, com falta de apetite, e começa a chorar pela mãe que sai de casa para ir, religiosamente, executar as suas tarefas de todos os dias, para que nada falte ao seu menino.
http://salpicos.blogs.sapo.pt/arquivo/junho,04-12al%20051.jpg
Não tardará muito, o nosso adalberto, andará pelas falésias algarvias a apreciar as borboletas e sereias em bikini!
