Massarico 30-09-2004, 19:06 Neste mês de Setembro fiz a mais fascinante viagem da minha vida: passei três semanas na Índia. Fiquei de tal modo fascinado com o que vi, com o choque cultural, que sinto necessidade de partilhar aqui a minha primeira experiência asiática, pelo que irei postando aqui algumas impressões que me ficaram.
A sociedade indiana é, a par com o mundo muçulmano, aquilo que de mais diferente me foi dado ver. A maneira de pensar e viver, o modo de encarar a vida e as dificuldades, são absolutamente diferentes do modo como encaramos os mesmos factos no mundo ocidental. E, ao contrário do mundo islâmico, o mundo hindu está tão seguro na sua fortíssima identidade cultural que não encara o ocidente como uma ameaça, sendo muitíssimo mais aberta ao contacto com os turistas. E julgo que aproveitei bem essa facilidade de contacto.
Quando se chega à Índia, o primeiro choque surge desde logo na viagem entre o aeroporto e o hotel ou, no meu caso, entre o aeroporto e a estação de combóios (mais radical, portanto). O trânsito é um conceito totalmente diferente na Índia. Na mesma rua circulam em abundância táxis, auto-riquexós, vacas, pessoas, motos, autocarros, cães, bicicletas, autocarros, camiões de médio e grande porte e todo e qualquer outro meio de transporte capaz de circular em alcatrão que se possa imaginar que existe.
Saí de Portugal com a informação de que a circulação rodoviária se fazia à inglesa, pelo lado esquerdo. Nada mais falso. Na Índia não se circula por nenhum dos lados. Ou melhor, circula-se sempre pelo lado que der mais jeito, seja ele qual for. A circulação à esquerda é meramente indicativa e ninguém parece muito disposto a cumpri-la.
Outro fenómeno curioso no condutor indiano é a sua relutância em utilizar o travão, excepto quando uma vaca se encontra no caminho. Aí, abranda, põe a cabeça fora da janela, e faz um som semelhante ao utilizado cá para incentivar os cavalos a andarem mais depressa, uma espécie de trrcc, trrrc. de resto, o condutor indiano apita e acelera, esperando que seja o que for que está à sua frente se desvie. Quando tal não acontece, há a colisão.
A colisão (quando ligeira), é também coisa que não incomoda o condutor indiano. Nem reclama, limitando-se a seguir em frente. Aliás, é de salientar que a serenidade que se sente nos indianos, bem reflectida na sua descontração no caos que é o trânsito.
Não admira que morram 80 mil pessoas por ano nas estradas, um número impressionante, mesmo para um país com quase mil milhões de pessoas.
Terminando os transportes rodoviários, falta referir o autocarro. Mesmo para os corações mais fortes, andar de autocarro na Índia é uma experiência radical. Resume-se a isto: em 12 horas ininterruptas de viagem (sempre com o mesmo motorista), por diversas vezes tive que me agarrar aos braços do banco, pois de outro modo teria aterrado em local incerto. Tive a sensação, ainda que não possa garanti-lo, de que o autocarro deu saltos.
Seguir-se-ão impressões sobre os combóios e os aviões.
Interessante a tua descrição, Massarico, desse mundo fantástico.
Espero ver mais.
Massarico 01-10-2004, 18:05 Continuando com os transportes indianos, passemos aos aviões. Surpreendentemente, o serviço de aviação indiano é bastante bom. Excelente mesmo, se se evitar a companhia pública Indian Airways. Os aviões são recentes e o serviço simpático e atencioso.
Têm, o que é natural dado o número elevado de grupos e grupelhos separatistas, uma paranóia securitária absurda. Logo que se entra no aeroporto, as malas são inpeccionadas, passando-se depois para o check in. Após o check in, há uma revista completa à bagagem de mão e às próprias pessoas, passando-se para a sala de embarque, que só tem duas portas: uma de entrada, quando se vem do aeroporto, e outra de saída, para a pista de aterragem. Ambas têm guardas. O absurdo é que nos voltam a revistar com minúcia antes de embarcar, em plena pista. Enfim, antes assim que ir pelos ares.
Há que salientar que, apesar de toda esta paranóia securitária os guardas são atenciosos, e esforçam-se por tornar a nossa vida mais fácil, permitindo o acesso à bagagem de porão para transferirmos os itens que não podemos levar na bagagem de mão. Isqueiros, por exemplo.
Outra curiosidade, a que não tinha ainda assistido, é ao funcionamento dos aviões tipo autocarro: vão parando em vários aeroportos: saem umas pessoas e entram outras. É bom, porque torna as viagens mais baratas. E são baratas.
Os combóios
Este é o meio de transporte por excelência na Índia. E é natural que assim seja, visto que têm uma relação qualidade preço excelente. Reflexo da segregação social do país, existem diversas classes: desde o tudo ao molho e fé Shiva, e inclui o espaço na carruagem das bagagens e o tejadilho do combóio; sleepers - constituída por compartimentos abertos com seis camas simples, que podem transformar-se em dois bancos onde vão confortavelmente sentadas seis pessoas; A/C Tier III, semelhante ao sleepers, mas com ar condicionado; A/C Tier II, semelhante à anterior, mas com apenas quatro camas por copartimento, e com pequenos luxos adicionais, como candeeiros individuais, almofadas, lençóis e cobertores (o ar condicionado sai a uma temperatura de congelação); A/C Tier I, que não posso dizer como é porque não utilizei.
O grande problema do sistema ferroviário indiano reside na lentidão dos combóios, cuja velocidade comercial média ronda os 20 Kms hora, pelo que para se fazerem distâncias de 650 Km se demoram 15 horas (acima da média). E também o cheiro das casas de banho ao fim de três horas de viagem, e que resulta de um defeito no sistema de lavagem.
Nas classes mais altas, existe ainda um serviço de refeições que, por apenas 50 rupias, ou seja, menos de um euro, oferece uma refeição quente (e boa). Em todas as classes há permanentemente alguém a passar (nas classes A/C são funcionários do combóio, enquanto nas restantes são apenas sujeitos com iniciativa) a vender café e "hot chai" (chá com leite e açúcar).
As estações é que são francamente más. Não capacidade para acomodar a quantidade de gente que viaja de combóio na estação, pelo que as pessoas ficam deitadas no chão (que está imundo, cheio de lixo e cuspidelas de tabaco de mascar). A única vantagem é que, como quem faz este tipo de viagens está tão cansado quando chega à estação que se marimba na sujidade, e pões a mochila no chão (evitando o tabaco de mascar) e aí se senta à espera.
Comprar um bilhete de combóio, no início da viagem, é uma coisa tremenda (no fim já estamos habituados). A fila é conceito desprezível na Índia, sendo sobejamente preferido o molho (de tudo ao molho). Apesar de uma temperatura de 35º e uma humidade de 95% (se não era, parecia), os indianos t^m preferência por formar uma espécie de montanha horizontal à volta do "guichet" com umas 30 pessoas, todas a gritar em simultâneo para o senhor a bilheteira. Este, com uma incrível capacidade de abstracção lá vai dando as informações pedidas. Estou convencido que a venda de bilhetes de combóio na Índia é uma profissão equivalente á de controlador de tráfego aéreo: o desgaste deve ser tão grande que a reforma deverá ser aos 50 anos.
Ora, para um europeu habituado à civilidade da fila e à aquisição de bilhetes de combóio no multibanco, este modo de aquisição de bilhetes é complicado, e exige a formulação de uma estratégia adequada. Ao terceiro bilhete, carregado com duas mochilas e protegido pelas minhas companheiras de viagem, já me atirava afoito para o meio do monte, berrando em inglês para o senhor da bilheteira. Começou aí o meu sucesso, e a aquisição de bilhetes de combóio acelerou drásticamente.
Para a semana não perca as cenas dos próximos capítulos: hotéis, restaurantes e outros aspectos do quotidiano.
jleandro 01-10-2004, 18:51 não perderei, pois estou a seguir com muita atenção.
eu também estou aqui à espera, logo logo da continuação...
com o tempo poderei entrar na conversa...
escelente é pouco para estes textos :tup: :tup:
Estarei atento, Massarico, estás quase um velhadas!
Nunca estive na Índia, mas conheço gente de lá, colegas ou ex-colegas. Apanhei 5 dias de prisa na FA por causa de um indiano e sei como os gajos são, e tenho uma ideia de como é a terra deles. Também já conheci e contactei com prisioneiros de guerra de Goa, Damão e Dio, mas o tempo urge e pouco ou muito, a vida não para. Por isso julgava ter havido alguma evolução. As estações são pequenas porque foram feitas para meia dúzia de utilzadores desde o séc XIX, e agora têm de se haver.
Continuo à espera de mais!
Um abraço.
Muito interessante. Eu, apesar de viajar pouco (falta o €€€€€...), tenho um fascínio particular pelos outros países. Gosto de seguir a cultura de cada qual, embora nos tempos de hoje hajam muitos dispostos a baralhar tudo o que uma sociedade tem e aumenta.
A Índia, vista ao longe, mais parece um barril de pólvora, adoçado por um caminhar diferente de nós os europeus. O Massarico, certamente, que nos ajudará a ver este enorme (em todos os sentidos... verdadeiramente sentidos...) país de forma diversa através das suas crónicas que estão muito bem conseguidas.
MrChance 02-10-2004, 16:49 Excelente.
Já fazia tempos que não lia uma crónica de viagens. E a do Massarico, que, pelos vistos, do dito não tem nada :p , está a ultrapassar de longe as expectativas iniciais e a deixer-me de água na boca.
O que me fez rir bastante foi a descrição das bilheteiras para o comboio. Porque estava a reviver o que se passava comigo em Angola, fosse para o cinema (quando era um filme de coboiada ou pancadaria) ou até para fazer o check-in para os voos domésticos.
Nos cinemas, quando íamos três ou quatro, fazíamos uma espécie de barreira e todos os que chegassem depois passávamo-los para trás, deixando que o monte da frente se escoasse. Surpreendentemente, atás de nós faziam fila mais ou menos a preceito. Logo que se esgotasse o pessoal à nossa frente e adquiridos os bilhetes saíssemos da bilheteira, a fila ordeira transformava-se, como passe de mágica em novo monte de gente a tentar enfiar a mão no orifício para a compra dos bilhetes.
Estou sentado à espera, Massarico. :)
Massarico 04-10-2004, 19:02 E pegando numa deixa do Houdini - os custos - vou começar o capítulo do alojamento por aí. A Índia, para um europeu que queira passar-se por indiano, é um país extremamente barato. Para qum queira deliciar-se no luxo asiático de um Lake Palace Hotel de Udaipur, lá terá que recorrer a fundos de grandeza mais europeia. Eu, por gosto e imposição financeira, sou fiel ao ditado: "Na Índia, sê indiano".
Sendo assim, e munido desse objecto fundamental que é o guia Lonely Planet da Índia, após aturado estudo e longas pesquisas na internet (www.lonelyplanet.com, na divisão Thorn Tree; e no www.indiamike.com) escolhi o hotel para passar a primeira noite (a segunda, no fundo, já que a primeira foi passada no combóio). Diz-me a experiência que o primeiro hotel pode marcar uma viagem, pelo que optei por um hotel de "Medium range", que acabou por ser o melhor e mais caro hotel onde fiquei na Índia - cerca de 25€ a dividir por mim e pelas minhas duas companheiras de viagem.
Apesar de ser o mais caro, não se diferencia assim tanto dos outros, no que se refere ao quarto. Escolho sempre hotéis com casa de banho privada no quarto, pelo que este não fugia à regra. Estava limpo e tinha uma varanda sobre o Rio Ganges (este pormenor é importante quando falar sobre os indianos e o hinduismo, mas digo desde já que o Rio Ganges é uma divindade hindu, sendo o rio mais sagrado no hinduismo, pelo que um mergulho nas suas águas limpa todos os pecados). Esta varanda tinha, no entanto, uma curiosidade - estava totalmente coberta por uma rede de arame fino, tipo capoeira. esta rede é utilíssima, visto que em Varanasi, como na generalidade das cidades indianas, há muitos macacos em liberdade, que têm por hábito entrar nas casas e roubar o que lá houver.
Naturalmente que estes hotéis onde costumo ficar não possuem ar condicionado, mas apenas uma ventoinha grande no tecto.Na Índia, com os seus constantes cortes de energia, isto pode ser um problema, visto que sem energia não há ventoinha, e sem ventoinha, com aquela temperatura e aquela humidade, a vida corre bastante mal. Foi nesta cidade que, pela primeira vez na vida, me vi obrigado a tomar sais de hidratação, tal era a suadeira. Medicamento absolutamente fundamental. Pode não ser preciso, mas se for, é bom te-lo à mão e toma-lo sem medos. Em meia hora e dois litros de água depois, fica-se como novo.
Neste hotel, como em todos os outros, tivemos sempre a simpática companhia de três osgas amareladas, a quem agradeço desde já, publicamente, a quantidade de mosquitos que comeram enquanto lá estive. A estas três e a todas as outras que me providenciaram o mesmo serviço por onde passei. Pode parecer um bocado nojento, principalmente para quem, como eu, bicharada tropical. Mas acreditem que o melhor amigo do viajante nestes climas tropicais ou semi-tropicais é a osga. Mais osgas, menos mosquitos, e menos probabilidades de apanhar dengue ou malária.
Para meu grande espanto, considerando que lá estive em época de fim de monção, além de não ter apanhado chuva, não tive encontros desagradáveis com insectos, excepto com uma barata e uma aranha (qualquer delas com proporções pré-diluvianas) que me vi forçado a abater. Nem cobras, nem escorpiões nem qualquer outra espécie não classificada. Ao que me dizem, é caso único.
Uma coisa que raramente faço, mas que foi relativamente regular na Índia é jantar no hotel. Em Varanasi, porque o guia me assustou com a segurança (agora duvido que tenham razão) e noutros sítios essencialmente devido ao consaço. Felizmente, tanto em Varanasi como em todos os outros hotéis onde comi, os repastos foram excelentes. Mas lá iremos a seu tempo.
Daqui para a frente, os hotéis foram sendo semelhantes, ainda que nenhum chegasse exactamente ao nível deste, e os preços variaram entre 5€ e 10€. Vou só realçar mais dois.
Em Jaisalmer, seguinte a busca na internet e o nosso guia, instalamo-nos no hotel Desert Boys, muito recomendado. Só que, os quartos com base nos quais o hotel é recomendado estão à volta de um pátio, e estavam todos cheios, pelo que acabaram por nos pôr num quarto manhoso, que me pareceu não estar ainda acabado - a casa de banho não tinha lavatório nem autoclismo. Estavamos tão cansados que nem achamos aquilo assim tão mau. Depois do almoço é que decidimos sair dali, e fomos em busca de outro hotel. No Desert Boys nem tiveram lata de nos dizer nada. Isto diz alguma coisa sobre os indianos: apesar de não ter notado qualquer espécie de crime violento, a verdade é queestão sempre a tentar dar o golpe. Alguma atenção a estes pormenores, e não há problemas.
Bom, encontramos então um hotel num antigo palacete (haveli), já um bocado decadente, mas com muita mística. Lá ficamos num quarto os três por 600 rupias (12€). Um quarto enorme, e muito bonito.
Em Benaulim (Goa), ficamos num "resort" em cima da praia. Em vez de pagarmos 7.000 rupis por noite num resort a sério, ficamos num pequeno hotel com meia dúzia de quartos e um restaurante, em cima da areia, porapenas 400 rupias por noite. E o restaurante era magnífico.
Como hoje não tenho tempo, a comida ficará para quarta feira.
MrChance 04-10-2004, 21:13 Continua Massarico, que não te doam os dedos. Estou salivando...
Pronto. Está decidido. Na quarta-feira vou comer com o Massarico!
Fico à espera da fartada das paparocas indianas. Ai se o meu amigo Barros vê isto! E ainda por cima o Massarico visitou a sua Goa!
Vamos a mais!
Ó pá... a estadia foi super-barata. Ainda me dá na mona e coloco a Índia no meu roteiro de possíveis visitas. Há por aí candidatos para juntar um grupo? :)
Podia muito bem ser a viagem BT. ;)
Massarico, fiquei deliciada com as tuas Cartas da Índia. :)
É um país que tenciono visitar, mas como o meu cavaleiro andante não tem grande fé nesses exotismos-surpresa, a rota marítima está ainda em discussão. Tenho que estudar bem as coordenadas, arranjar uma boa bússola e, se necessário for, um sextante. Mas hei-de lá chegar, sou muito perseverante.
Já vivi (temporariamente) num país com uma comunidade goesa e paquistanesa grande e economicamente influente, mas o “espírito do lugar” perde-se sempre na diáspora. As osgas nas paredes, as baratas do tamanho de bois e as cobrazinhas (arghh!) abandonadas pelas ruas também não faltaram, pois o clima é idêntico, quente e húmido. É o grande "senão" que me faz ainda hesitar e sopesar bem esse equilíbrio prazer da viagem/custos pessoais.
Estou à espera das tuas experiências culinárias. Apura-te lá nesse caril e no chacuti.
Massarico 06-10-2004, 18:21 Uns amigos do meu irmão foram à Índia à dois ou três anos, e vieram de lá magríssimos e com muito mau aspecto. Disseram-me que a comida era má e que dificilmente se conseguia encontrar carne. Saí daqui com medo, e a pensar que teria que passar três semanas a comer atum em lata (que detesto), visto que não como saladas e, com excepção de arroz, feijão, batata e grão não como qualquer vegetal. Enfim, seria o que Deus quisesse.
Nosso Senhor, pelos vistos, têm-me em alguma conta, e de um modo geral a alimentação foi muito boa. Mesmo nas duas primeiras semanas, em que visitei apenas cidades santas, de onde o álcool e a carne estão banidos (excepto nos hotéis das grandes cadeias internacionais, locais que não frequento), os pratos vegetarianos foram excelentes, e comi alarvemente. Ao almoço, quase não conseguia comer, por causa do calor, mas ao jantar desforrava-me.
Em Varanasi, referindo o guia que a cidade era perigosa à noite, principalmente o centro, onde estava instalado, acabei por comer no hotel. Comer nos hotéis é uma coisa que me irrita especialmente, mas desta vez tomamos a decisão acertada, porque além da culinária ser excelente, todos os hóspedes comiam à mesma mesa, o que acabou por ser divertido. A refeição era sempre um Special Thali – um prato grande em inox com tigelas do mesmo material à volta, cada uma contendo um vegetal cozinhado num qualquer molho indiano (de batatas a lentilhas), acompanhado de arroz branco no centro e de inúmeros chapatis, uma espécie de pão indiano. A partir daí ainda comi mais alguns Thalis e Special Thalis, e souberam-me muito bem.
É de salientar que dificilmente se consegue comer um prato que não tenha pelo menos um ligeiro picante. Mesmo quando nos garantem que não é spicy, é sempre. Quem não gosta de picante, tem que procurar bem. Encontra, mas dá trabalho. A vantagem é que a comida é tão barata – uma refeição com um prato principal e uma coca-cola fica por cerca de 80 rupias, ou seja, 1,6 €. Note-se que isto é em hotéis tipo baiúca e restaurantezinhos modestos. Há mais caro.
Por exemplo, em Jaisalmer, comemos carne, bebemos cerveja e incluímos ainda um doce para três (felizmente, porque era gigantesco), num restaurante muito bem decorado, numa varanda com vista sobre toda a cidade e o deserto, e pagamos já uma pequena fortuna – 300 rupias, ou seja, 6 €. Um baú de papel, como vêem.
Caril, fora de Goa, é coisa que não há. E aliás tal explica-se muito bem se atentarmos no facto de o molho de caril ser uma invenção inglesa, sendo o caril praticamente destinado só a exportação. O que há muito é massala, uma mistura de especiarias que se vende já feita e que pode destinar-se a vários pratos: há massala para carnes, para peixe e para vegetais. Se bem que peixe, só em Goa é que se encontra, o que é natural, visto que as regiões por onde andei são longe do mar, e a infra-estrutura logística indiana não deverá ser do melhor.
Aconselho vivamente a comida de Kashmir (ou Caxemira), que utiliza muito a fruta e é excepcional. Pena é que motivos de segurança não convidem a uma deslocação a esta região da Índia, porque as fotos que vi de lá são absolutamente de cortar a respiração.
Felizmente, só me posso queixar de uma refeição – em Panjim, capital de Goa. Fui a um restaurante muito conhecido e muito engraçado, mas em que a culinária era muito fraquinha. De resto, só posso dizer maravilhas da cozinha indiana que, aliás, está amplamente disponível em Lisboa, onde existem bons restaurantes de autêntica comida indiana (não são aquelas fantochadas dos chineses, que nada têm a ver com o que realmente se come na China).
Quanto às bebidas, se no início ainda cumpri as regras de segurança inscritas no guia e aconselhadas pela simpática médica do Instituto de Higiéne e Medicina Tropical, bebendo apenas água engarrafada e coca-cola, ao fim de cinco dias já eram só asneiras. Passei logo a beber a mais popular bebida da Índia – hot chai – um chá com leite e açúcar (nunca beber lacticínios em países abaixo da nossa latitude) e lassies (para quem não sabe, é uma espécie de batido, mas feito com curd, uma coisa que me pareceu estar entre o iogurte e o queijo). Além disso, comi uma sandes vegetariana na rua (nunca, mas nunca comer nada na rua na Índia, dizia-me a tal simpática médica). Tudo muito bom. Excepto o horrendo batido de açafrão que bebi em Jodhpur – estava-se a ver que era uma mistura explosiva, mas como era a bebida típica, tive que experimentar.
Podia incomodar-vos aqui com descrições exaustivas dos birianis e pulaos (arrozadas), das inúmeras massalas e dos pratos típicos de caxemira, mas nunca mais saiamos daqui. Por isso, este resumo fica-se por aqui.
A partir de agora, e incentivado pelos meus amigos, vou passar a descrever a viagem em si e os locais por onde passei, terminando aqui estas postas temáticas.
Este Massarico, de massarico não tem nada, está uma máquina!
Sabes que estou a gostar das tuas crónicas? Continuo leitor assíduo e atento. Vai mandando mais.
Um abraço.
Massarico 13-10-2004, 17:48 ... pelo interregno, mas estive doente entre quinta feira e ontem, pelo que não consegui escrever nada. Temi o pior - malária, ou mesmo uma encefalite japonesa - mas felizmente parece que não passa de uma gripe vulgar.
Comecemos então pela primeira paragem no itinerário - Varanasi. Isto é começar pelo melhor, que devia ficar para o fim. Mas como também a viagem começou aqui, começarei também por aqui. Ou melhor, começou em Calcutá, mas aí foi só atravessar a cidade do aeroporto à estação de Howrah, pelo que pouco há a dizer.
Varanasi (ou Benares, antes da imbecilidade muito indiana da mudança de nomes das cidades, que faz com que todos os documentos oficiais, incluindo horários de transportes, mencionem os novos nomes, mas rigorosamente ninguém os utilize) é a cidade mais sagrada do hinduísmo, onde acorrem milhares (talvez milhões, que estas contabilidades têm mais zeros por lá) de indianos, para se banharem no Ganges (rio indiano e divindade hindu), livrando-se assim dos seus pecados, ou para morrer, assegurando que as suas cinzas ou os seus corpos são depositados no rio, o que poderá fazer interromper o ciclo de reencarnação e conduzir a alma ao paraíso.
Sendo assim, Varanasi, além da beleza arquitectónica da sua zona histórica, junto ao rio, goza também de um movimento religioso e cultural extremamente animado. Para alguns, compreensivelmente chocante.
Comecei por um ligeiro passeio nas ruas estreitíssimas da zona velha de Varanasi, onde ficava o nosso hotel. Uma quantidade enorme de gente a vender fruta, legumes e toda a sorte de utilidades domésticas em lojas ou no meio da rua, mais gente ainda a fazer compras, transportes, etc.... Enfim, uma cidade cheia de vida, que abarrota aquelas ruinhas e ainda tem que conviver com motos, vacas (às manadas), cães, bicicletas. Felizmente, nem carros nem riquexós cabem nas ruas, senão era uma desgraça. E foi isto que fizemos a tarde inteira, com um calor insuportável e uma humidade de tal modo elevada que quase chovia (com o céu limpo). Para quem já viu, aquilo faz lembrar um bocado as medinas do Norte de África, mas com outros cheiros, outras pessoas e outros costumes. Pessoas muito mais abertas, que também nos chateiam para comprar, mas com menor intensidade e mais simpatia.
Vaguear por ali, entrar em sítios que não sabemos bem se são terraços de casas ou pequenas praças, entrar por vielas em que damos de caras com uma vaca que avança na direcção contrária na certeza de que é impossível que ambos sigamos o nosso caminho sem que um passe por cima do outro. Ver os indianos divertidos com a nossa timidez para com os bovinos acaba por nos dar algum conforto, e lá vamos ficando mais afoitos.
Não vimos museus nem edifícios de interesse público – apenas vagueamos a tarde inteira pelo meio da cidade, sem qualquer rumo. Ao final do dia descemos até ao ghat que ficava mesmo por baixo do nosso hotel, onde negociamos umas caixas de tintas para a pele (fomos completamente enganados por um miúdo que não tinha mais de oito anos – a vantagem é que na Índia perdem-se 200 paus quando se é enganado, e nem chega a deixar-nos incomodados). Enfim, ali vimos o anoitecer, junto ao rio.
No dia seguinte, a alvorada foi às 5h00 da manhã, para sairmos para o nosso passeio matinal no rio Ganges. Isto foi, para mim, um dos pontos altos de toda a viagem (três pessoas gastaram 17 rolos de 36 fotos em três horas de passeio!). As margens do Ganges estão pejadas de ghats (degraus que entram pela água) onde os hindus fazem autênticas romarias para tomar banho, pelo que se assiste a toda a movimentação nas margens a partir do rio. É um “espectáculo” lindíssimo, com as pessoas vestidas de cores muito garridas, todas a tomar banho (as mulheres, tomam banho vestidas de sari), junto aos palácios magníficos que existem junto aos ghats.
Também junto às margens localizam-se outros dois tipos de locais importantes. Existem uma espécie de casas de moribundos, onde se instalam as pessoas de menores posses que, estando à beira da morte, vivendo longe e não tendo grandes posses materiais, não querem deixar de assegurar que as suas cinzas serão lançadas ao Ganges, pelo que se dirigem para Varanasi especificamente para morrer. Não visitei nenhum destes locais (ainda que seja possível faze-lo). Encontram-se ainda dois importantes crematórios junto às margens (um para castas superiores e outro para castas inferiores e “intocáveis”). Os barcos passam junto a ambos (se quisermos), e podemos estar ali o tempo que quisermos, dentro do barco e sem fotografar. Quem quiser também pode assistir à cremação (de um local relativamente afastado, em terra) a uma cremação de alguém das castas inferiores. Evitei igualmente isto.
Devo avisar que, para os mais sensíveis, Varanasi pode ser extremamente impressionante, não só pela cremação em público e pelas casas de moribundos, mas principalmente por algo que costuma acontecer (a mim, felizmente, foi-me poupada a cena). Todos os hindus são cremados, com excepção para os seguintes: homens santos, bebés, leprosos e portadores de outras doenças de pele. Nestes casos, os corpos são embrulhados numa mortalha e lançados no rio o que, com o habitual cuidado com que se efectuam este tipo de operações na Índia, faz com que aquilo que não deveria acontecer suceda com bastante frequência – os barcos onde se faz o passeio (que não passam de botes a remos) batem com frequência em cadáveres humanos, pelo que muitos turistas têm visões deveras macabras, como se pode imaginar.
O resto do dia (a partir das 9h00 da manhã) foi passado no mesmo vaguear pela cidade, que não cansa e é sempre surpreendente.
Enfim, Varanasi é um local que transmite um grande choque cultural e onde se percebe imediatamente que a Índia nada tem a ver com o mundo ocidental: nem na forma de vestir, nem de pensar, nem de estar, nem de sentir. Felizmente, apesar do crescimento económico que tem evidenciado, tem mantido a sua própria identidade, diferenciando-se dos outros.
É para encontrar lugares assim que eu viajo.
(um dia destes, Rishikesh, que as desilusões também são parte da viajem)
MrChance 13-10-2004, 22:49 Fantástico é o mínimo que posso dizer. Continuo leitor atento e agradecido. :)
Massarico 19-10-2004, 13:23 Cá estou eu novamente. Hoje vamos de Varanasi para Rishikesh, e daí para Pushkar, e ficamos lá à porta.
Para ir de Varanasi para Rishikesh consultamos o horário dos comboios, e o horror estava estampado nas nossas caras – 22 horas de combóio, se não houvesse atrasos. É necessário ter em conta que até à data apenas tínhamos viajado na classe sleepers (a segunda mais baixa), o que não ajudava à descontracção. Foi aí que tomamos a decisão mais estúpida (e mais cara) de toda a viagem – decidimos apanhar um vôo interno de Varanasi até Nova Delhi e daí seguir de combóio para Haridwar, onde tomariamos um autocarro ou um táxi até Rishikesh. Uma hora e meia de avião até Delhi, 6 horas de combóio até Haridwar e mais meia hora até Rishikesh: 8 horas vs 22 horas parecia bom. Só que faltava ver a disparidade de horários e ter em conta o stress da compra de bilhetes de combóio. Chegamos 3 horas antes do que chegaríamos se tivéssemos ido de combóio, e ainda pagamos uns 25 contos de bilhete de avião. Enfim, disparates a não repetir.
Mas sucederam dois factos curiosos, e bem representativos da atitude de muitos indianos face aos turistas. Estávamos nós num café da estação de velha Delhi a fazer horas para o combóio e eu fui comprar água e uma chamussa. Resumindo, a coisa correu mal (era pré pagamento) e o tipo do café não me quis dar a chamussa. Estava um indiano ao meu lado que ouviu a conversa e ficou do meu lado, foi chamar o segurança da estação (!?) e este obrigou os tipos do café a darem-me a chamussa. Passados dois minutos, o tipo que me tinha ajudado levanta-se da mesa, pega num guardanapo e escreve lá o nome e o número de telemóvel e diz: “Seja onde for que estiverem na Índia, se precisarem de qualquer coisa, não hesitem em telefonar-me”. E não tentou vender-nos nada, nem tentou “sacar” dinheiro de forma nenhuma. Foi apenas simpatia natural.
Por falta de alternativa, para Rishikesh fomos na classe mais cara do combóio – A/C Tier II. No nosso compartimento estava um senhor muito simpático, que meteu conversa connosco (e descobrimos que tinha uma amiga virtual Portuguesa): era ex-militar (Coronel) e actualmente (pude ver pelo cartão que me entregou, também com o seu telemóvel) o Sr. Goshn é General Manager da Hyundai na Índia. Como o meu trabalho se relaciona de algum modo com o sector, ainda falamos um bocado de carros, do hinduísmo e da Índia. Como a estação em que saiamos não era terminal, partilhei com o Sr. Goshn os meus receios de não conseguir sair na estação correcta. De imediato chamou um funcionário do combóio a quem pediu que nos acordasse antes da estação e nos desse a indicação para sairmos. Estou mesmo convencido que lhe pagou para isso.
Enfim, este é um dos aspectos positivamente mais surpreendentes da Índia, a simpatia das pessoas e a sua predisposição para ajudar. Estes foram os casos mais emblemáticos, mas aconteceu muitas vezes.
“Tanto esforço para isto” é o que se pensa quando se chega a Rishikesh. É que de facto aquilo não tem grande interesse, excepto o facto de estar nas margens do Ganges e, em Lakhman Jhula (uma aldeola nos arrabaldes onde fiquei instalado) existirem uma praias fluviais onde uma pessoa se pode banhar no Ganges sem arriscar ficar com sarna, ou pior (eu só molhei os pezinhos). De resto, não tem grande interesse. Lá ficamos dois dias e uma noite, e fomos embora.
A viagem de carro de Rishikesh para Haridwar não é aconselhável a cardíacos e é uma experiência que ultrapassa a imaginação em termos de desporto radical. Merece uma pequena descrição.
A viagem foi feita num pequeno Tata (marca de automóveis indiana) tipo Hyundai Matiz, com quatro pessoas e três mochilas de campismo. E não podia ter começado melhor – o nosso motorista decidiu por gasolina, e fe-lo com o motor a trabalhar. Quando lhe chamei a atenção para o facto, respondeu-me com a frase preferida dos indianos: “No problem”. Enfim, a partir daí, como se calcula, a coisa não podia melhorar: os sustos foram tantos, a minha vida passou-me pelos olhos tantas vezes que a certa altura, após termos escapado por milagre a um embate frontal num jeep (porque o nosso motorista não fazia distinção entre curvas ou rectas para efeitos de ultrapassagem), fechei os olhos e só voltei a abri-los quando chegamos à estação de Haridwar. Deus existe, e felizmente parece não me ter em má conta.
Enfim, daí apanhamos o combóio para Delhi, onde chegamos às 7h00 da manhã, sem qualquer problema nem sobressalto. Os sobressaltos vieram depois. Queríamos apanhar o combóio das 8h30 para Ajmer, mas este partia da Estação de S. Rohilla, e nós tínhamos chegado à Estação de Old Delhi, o que tornava a tarefa um bocado apertada. Evidentemente que quando saímos do combóio lá estava um sujeito a oferecer-se para nos ajudar nessa tarefa, dizendo que dava tempo para apanhar aquele combóio. Lá fomos com ele e, após algumas peripécias, incluindo um suborno ao chefe da Estação de S. Rohilla para nos arranjar um bilhete, lá conseguimos apanhar o nosso combóio para Ajmer. O nosso amigo, que queria 500 rupias pelo serviço (10€). Enfim, após duras negociações, lá lhe dei 300 ou 400 (não me lembro), porque a verdade é que sem ele não teríamos conseguido apanhar o combóio e teríamos perdido um dia em Delhi.
Mais uma viagem de combóio e outra de Táxi, sem novidades de maior, e lá chegamos a Pushkar, aldeia santa que se situa à volta de um lago, formado por duas lágrimas de Brahma, o criador (um dos componentes da trindade Brahma, Shiva e Vishnu).
Para a próxima, Pushkar e a viagem até Jaisalmer.
darkmoon 19-10-2004, 14:33 Sou mais um leitor atento ;)
jleandro 19-10-2004, 16:42 ó Massarico
sou leitor habitual de crónicas de viagem, e acompanhei as crónicas do (?) publicadas todas as semanas no "Expresso", da volta ao mundo que ele fez.
mas as tuas ficam a milhas de distância das dele, e imagino algumas cenas que descreves, o que seria se elas estivessem filmadas ;)
:D :D
Também estou a gostar muito das crónicas da passagem do Massarico lá pela Índia. Primeiro porque se trata de um mundo exótico, e daí a novidade para mim, depois porque o massarico consegue levar-me na viagem com ele, mesmo que de uma forma rectrospectiva, mas estamos a caminhar juntos.
Espero que o Massarico não deixe passar nada pois eu estarei atento e disposto a prosseguir nessa viagem.
Massarico 19-10-2004, 20:22 Por acaso, Jleandro, algumas delas até estão filmadas. As de maior stresse não, mas outras estão bem documentadas.
jleandro 19-10-2004, 21:39 Massarico
então se estão filmadas fico com a esperança que um dia vás a um dos nossos almoços, com a máquina, e se possa assistir a um visionamento das partes mais curiosas.
esperemos por isso.
Também estou atento Massarico. As tuas crónicas são de um autêntico especialista que ressaltou do meio do povo para escrever as suas crónicas de uma que terá sido uma bela viagem.
Ficarei à espera de mais.
Massarico 21-10-2004, 18:46 Ora bem, chegamos a Pushkar pelas 18h30 / 19h00, e aí iniciamos a procura de hotel. Levávamos algumas referências, mas a vila estava cheia e batemos algumas vezes com o nariz na porta. A certa altura, encontramos um hotel com um quarto vago, por 300 rupias por noite (mais cêntimo, menos cêntimo, eram 6€ a dividir por três). Parecia bom de mais. E era. Um verdadeiro buraco, mínimo, com a tinta a cair e a casa de banho com um aspecto que só conseguia imaginar hordas de baratas a saírem por aqueles canos. A coisa estava a complicar-se, e estava a ver que teríamos que pernoitar num hotel caríssimo (prá aí a 10 contos por noite).
Felizmente, ao lado deste hotel estava uma coisa que eu, no meu liberalismo militante, evito ao máximo – um hotel do Estado. Imagino logo toda a sorte de horrores. Mas as alternativas escasseavam, pelo que nos dirigimos ao RTDC (Rahjastan Tourism Development Corp.). E a coisa era o que se esperava, felizmente não o que se temia. Ou seja, a infra-estrutura era excelente, e é uma pena que não vendam ou concessionem aquilo a quem queira fazer dinheiro, porque o serviço é bastante mau, com os quartos num estado pró acabadote, uma limpeza algo duvidosa (mas mínima). Enfim, uma coisa que podia ser muito boa, mas que estava em acelerada decadência. Lá ficamos, por 400 rupias.
Tomar banho, descansar e eram horas de jantar. Aliás, já passava da hora de jantar. E lá fomos pelas ruelas da aldeia, no meio de vacas, motos e bicicletas (há poucos carros em Pushkar) e montes de vendedores e compradores nocturnos. Como quase sempre na Índia, uma azáfama permanente. A iluminação fraquinha lá obrigava a esforços redobrados para não pisar nenhuma mina gentilmente depositada por uma simpática vaquinha. Jantou-se bem e as senhoras compraram uma coisa ou outra.
No dia seguinte, como foi hábito ao longo de toda a viagem, a alvorada foi cedo, pelas seis da manhã, para irmos aos ghats tirar fotos a todo aquele bulício dos banhos. Não faltou quem nos incomodasse a perguntar se já tínhamos recebido a benção. Não tínhamos. Continuaram a incomodar-nos. Lá vagueamos pelas ruas, tomamos o pequeno almoço e exploramos o “interior” de Pushkar, onde se passou uma cena engraçada. Quando estávamos à porta de um templo, uma numerosa família indiana estava a sair e vendo-nos de máquina fotográfica em punho, logo pediu se tirávamos fotos. Lá ficamos um quarto de hora a rir, a falar com eles e a tirar fotos que prometemos enviar depois se nos dessem a morada. Houve alguns momentos épicos nesta cena, com uma senhora idosa a insistir que queria tirar uma foto abraçada a uma vaca, mas esta não esteve pelos ajustes e fugiu, quase levando a senhora. Mais uma vez houve gente a perguntar se já tínhamos a benção. A coisa começava a tornar-se chata.
Continuamos a vaguear, dando a volta ao lago. Quando estávamos do lado oposto à vila, novamente dois sujeitos que se intitularam de brahmins (padres) insistiram para que recebecemos a dita benção. Enfim, desta vez venceram-nos pelo cansaço e por 100 rupias a cada um, lá se benzeu toda a família, dizendo: “puja mamam, puja papa, puja brother...” e por aí fora. Saiu barato, porque nos deram uma pulseira de fio que nos isentava de aturar mais chatos a impingir uma benção. Quando descansávamos deste momento místico, lá apareceram duas raparigas a vender desenhos de hena e a pedir para lhes tirarmos fotos. Tiramos, e depois pediram dinheiro. Não demos. Insistiram em fazer pinturas de hena depois de lhes dizermos que não tínhamos dinheiro. Pediram dinheiro. Não pagamos e apareceu a família toda aos gritos. Explicamos o sucedido, perceberam que não levavam nada e deixaram-nos em paz. Estas coisas acontecem muitas vezes no hemisfério sul, pelo que não há que stressar. É só ter alguma paciência e firmeza.
Até ao almoço, que merece destaque, foi passear e tirar fotos. Tirar fotos na Índia, para quem gosta de fotografar, é um passatempo que não farta: em cada esquina há um momento National Geographic. Cada pessoa tem um fato, um bigode ou um turbante ou uma expressão dignos de registo. E uma enorme vontade de ser fotografada.
O almoço foi tudo aquilo que não deveria ter sido. Foi a total negação dos mais prementes avisos do Instituto de Higiene e Medicina Tropical de Lisboa. Sentamo-nos no meio da rua, nuns bancos de plástico que um dia, há muitos anos, foram brancos, apresentando agora tonalidades variadas entre o creme e o negro. Sendo uma localidade santa para o hinduísmo, não é fácil comer carne em Pushkar, pelo que comemos uma espécie de sandes de vegetais crus num chapati (espécie de pão indiano). Evidentemente que em países do terceiro mundo não se come nem na rua nem vegetais ou qualquer outra coisa crua. O chapati é um disco de pão a lembrar uma base de pizza, que se prepara passando-o de mão em mão. E que mãos, meu Deus. Depois atirou o chapati para um chapa aquecida a gás (tresandava a gás eestavamos ao ar livre, pelo que temi que houvesse um rebentamento de uma botija de gás a qualquer momento), continuando a ajeita-lo, primeiro com a mão e, quando a temperatura já não o permitia, com um pano que não duvido que sirva para tudo, desde verificar o óleo do carro a limpar a loiça. Quando o chapati estava já pronto, esmagou uma batata frita inteira com a mão e pegou nos vegetais crus, metendo tudo dentro do chapati dobrado ao meio. E o mais estranho é que estava muito bom.
Perguntarão as pessoas: mas perante este cenário de horror higiénico, porque é que não se levantaram e foram embora? Pois eu também tenho pensado bastante nisso, e acho que encontrei uma resposta relativamente convincente. Quando viajo, tento ao máximo encontrar o mínimo de europeus e americanos possível, tentando integrar-me ao máximo no modo de vida de quem visito o que, quando se consegue atingir determinado estádio, faz com que comece a encarar as coisas sob uma perspectiva indiana e a aceitar determinados comportamentos que jamais aceitaria em Portugal. Isto é um sinal de que de alguma forma consegui integrar-me, se não na cultura, pelo menos no espírito com que se encaram determinados aspectos na Índia. Mas olhando friamente, foi de uma estupidez inconcebível, e não é repetível nem recomendável. Por acaso não aconteceu nada, mas foi meramente por acaso.
Bom, daqui seguimos para o início de outra desgraça – fomos a uma agência de viagens fazer uma consultoria sobre a melhor forma de sair de Pushkar com destino a Jaisalmer. Disse-nos o senhor a agência que ir de combóio era demorado e complicado devido à disparidade entre os horários dos comboios entre Ajmer (estação mais próxima) e Jodhpur (paragem obrigatória) e de Jodhpur para Jaisalmer. Aconselhou-nos a ir de autocarro, que nos assegurou ser de altíssima qualidade, muito fiável e confortável, e que em “apenas” 12 horas nos colocaria em Jaisalmer, saindo nessa mesma noite. E por uma fracção do preço do combóio. Convenceu-nos.
Começou logo bem – 3 horas de atraso na partida porque a camioneta ficou retida numa fila causada por um acidente. E continuou melhor. Aquilo era um chaço que nem a velhinha Rodoviária Nacional se atreveria a pôr na rota Tramagal – Abrantes, com um cheiro intenso e mau, uns bancos miseráveis e completamente lotado. O motorista (sempre o mesmo ao longo de 12 horas de viagem com uma paragem para ir à casa de banho) esforçou-se o mais que pode para recuperar o atraso que levava, pelo que a viagem foi alucinante. Se uma pessoa não se segurasse ao banco, muitas vezes teria andado em bolandas pelo autocarro, com os saltos que aquilo dava. O inferno foi de tal ordem que a minha mulher jurou que sairia em Jodhpur (a principal cidade entre Ajmer e Jaisalmer) e iria para Lisboa nesse mesmo dia. Felizmente estava a dormir (sim, o cansaço era tal que, mesmo nesta viagem, conseguimos dormir) quando passamos por Jodhpur. A beleza de Jaisalmer convenceu-a a ficar.
Em seguida, Jaisalmer.
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