Iatros
01-11-2006, 20:15
O sr ministro Correia de Campos insurgiu-se recentemente contra os médicos, que apelidou de mercenários, que trabalham numa instituição do estado e vão fazer trabalho de urgência noutra instituição através de uma empresa de prestação de serviços.
O sr ministro CC mostra que está bem enquadrado neste governo.
Este governo está a proceder a algumas reformas do estado. É indiscutível que eram e são necessárias reformas. Essa necessidade é sentida de um modo generalizado pela população de tal modo que o primeiro ministro ainda dispõe de um “estado de graça” que não era de esperar depois de ter entrado no bolso de todos os portugueses que trabalham por conta de outrem (reformas, IRS, financiamento da Saúde).
O sr primeiro ministro e os seus ministros devem saber que esse “estado de graça” não dura eternamente. Devem saber que há uma diferença entre uma medida política e uma medida técnica. As reformas devem ser baseadas em estudos técnicos mas a sua aplicação deve ser feita de modo adequado politicamente.
Não é possível fazer reformas contra os profissionais.
O discurso deste governo é sistematicamente de afrontamento aos profissionais dos sectores onde se querem aplicar reformas (médicos, enfermeiros, professores, juízes, funcionários públicos da administração central e local).
Sempre que há uma mudança em qualquer sector há que contar com a resistência dos profissionais desse sector. O ser humano é reaccionário por natureza e, de um modo geral, só é cativado para a mudança se lhe forem criadas expectativas de melhoria nalgum aspecto que contrabalance os receios pela mudança.
Este é o papel de um político quando quer mudar alguma coisa. Cativar quem realmente vai efectivar a mudança (os trabalhadores). Não é o que este governo sabe fazer, mesmo quando faz reformas necessárias. E um dia o estado de graça acaba.
O DN de hoje traz alguns artigos sobre esta vergonha dos médicos fornecidos por empresas prestadoras de serviços:
Hospitais recrutam clínicos "sem assegurar qualidade"
http://dn.sapo.pt/2006/11/01/sociedade/hospitais_recrutam_clinicos_sem_asse.html
Tarefeiros custam 40 euros por cada hora de trabalho
http://dn.sapo.pt/2006/11/01/sociedade/tarefeiros_custam_euros_cada_hora_tr.html
A secretária de estado Carmen Pignatelli acha que isto é uma “vingança” dos médicos por ter havido alteração no modo de pagamento das horas extraordinárias. O que mais me preocupa nisto é que parece que o ministério continua a não ver a verdadeira origem do problema.
Resumidamente.
O anterior ministro começou a demolir o SNS com a passagem dos hospitais a empresas SA e acabando com as carreiras médicas. No seu caso, a intenção era a passagem do sistema de saúde em Portugal ao regime privado, nomeadamente aos seus patrões do Grupo Melo.
O actual ministro continuou no essencial esta política, com algumas nuances que criassem algum obstáculo à privatização pura e imediata do sistema de saúde, com foi a transformação em empresas EP as anteriores SA.
Com o acabar das carreiras médicas e com a proibição de haver “tarefeiros” na função pública (uma medida do Guterres que era bem intencionada mas foi ineficaz), acrescido da falta de médicos particularmente nalgumas especialidades, estes médicos tarefeiros passaram a ser contratados através de empresas prestadoras de serviços. Muitos médicos criaram eles próprios uma empresa em nome individual. Estes médicos não são formalmente “tarefeiros”, trabalham através de empresas prestadoras de serviços, tal como as empresa de restauração ou de limpeza que também fornecem serviços ao hospital.
Estes médicos não são contratados através dos Serviços de Pessoal, mas através dos Serviços de Aprovisionamento !!!!! (Quando quiserem estudar a evolução das contas dos hospitais vejam lá como interpretam a contabilidade analítica, parte significativa do trabalho médico vem contabilizado junto com o algodão, álcool, medicamentos, produtos de limpeza, etc) !!!!!!!
Os valores apontados para estes tarefeiros no artigo do DN variava entre 40 e 90 €/hora. Eu tenho conhecimento de um valor mais baixo de 35€/hora e valores mais altos bem acima de 100€/h nalgumas especialidades como Anestesia e Pediatria.
Já tinha chamado a atenção para este problema num tópico de Outubro passado
http://www.bolsatotal.com/showthread.php?p=121078&highlight=iatros#post121078
Eu próprio já fui tentado a pedir uma licença de longa duração e ir trabalhar como tarefeiro. Trabalhando apenas 6 bancos de 24h por mês ganharia mais do que actualmente, mesmo contando com as horas extraordinárias.
Do exposto torna-se óbvio que o custo dos cuidados de saúde está a aumentar. Mas, o mais grave é que a qualidade do trabalho vai piorar e há Serviços de Urgência e especialidades que vão fechar, como já está a acontecer. Neste momento, p ex o Serviço de Neurocirurgia do H. Garcia de Orta já não consegue garantir uma escala diária.
Há trabalho no hospital que não pode ser garantido por tarefeiros! (os advogados em Portugal ainda não andam em cima do erro médico, mas vão ter aqui uma mina).
Como já tinha chamado a atenção num tópico de Abril passado
http://www.bolsatotal.com/showthread.php?p=133614&highlight=iatros#post133614
a falta de médicos é um problema que não é só português (nós vamos sempre atrasados alguns anos e com peculiaridades próprias), é preciso racionalizar os custos, é preciso melhorar as prestações de cuidados ...
... então como é que se pretende fazer reformas contra os profissionais ?????
O sr ministro CC mostra que está bem enquadrado neste governo.
Este governo está a proceder a algumas reformas do estado. É indiscutível que eram e são necessárias reformas. Essa necessidade é sentida de um modo generalizado pela população de tal modo que o primeiro ministro ainda dispõe de um “estado de graça” que não era de esperar depois de ter entrado no bolso de todos os portugueses que trabalham por conta de outrem (reformas, IRS, financiamento da Saúde).
O sr primeiro ministro e os seus ministros devem saber que esse “estado de graça” não dura eternamente. Devem saber que há uma diferença entre uma medida política e uma medida técnica. As reformas devem ser baseadas em estudos técnicos mas a sua aplicação deve ser feita de modo adequado politicamente.
Não é possível fazer reformas contra os profissionais.
O discurso deste governo é sistematicamente de afrontamento aos profissionais dos sectores onde se querem aplicar reformas (médicos, enfermeiros, professores, juízes, funcionários públicos da administração central e local).
Sempre que há uma mudança em qualquer sector há que contar com a resistência dos profissionais desse sector. O ser humano é reaccionário por natureza e, de um modo geral, só é cativado para a mudança se lhe forem criadas expectativas de melhoria nalgum aspecto que contrabalance os receios pela mudança.
Este é o papel de um político quando quer mudar alguma coisa. Cativar quem realmente vai efectivar a mudança (os trabalhadores). Não é o que este governo sabe fazer, mesmo quando faz reformas necessárias. E um dia o estado de graça acaba.
O DN de hoje traz alguns artigos sobre esta vergonha dos médicos fornecidos por empresas prestadoras de serviços:
Hospitais recrutam clínicos "sem assegurar qualidade"
http://dn.sapo.pt/2006/11/01/sociedade/hospitais_recrutam_clinicos_sem_asse.html
Tarefeiros custam 40 euros por cada hora de trabalho
http://dn.sapo.pt/2006/11/01/sociedade/tarefeiros_custam_euros_cada_hora_tr.html
A secretária de estado Carmen Pignatelli acha que isto é uma “vingança” dos médicos por ter havido alteração no modo de pagamento das horas extraordinárias. O que mais me preocupa nisto é que parece que o ministério continua a não ver a verdadeira origem do problema.
Resumidamente.
O anterior ministro começou a demolir o SNS com a passagem dos hospitais a empresas SA e acabando com as carreiras médicas. No seu caso, a intenção era a passagem do sistema de saúde em Portugal ao regime privado, nomeadamente aos seus patrões do Grupo Melo.
O actual ministro continuou no essencial esta política, com algumas nuances que criassem algum obstáculo à privatização pura e imediata do sistema de saúde, com foi a transformação em empresas EP as anteriores SA.
Com o acabar das carreiras médicas e com a proibição de haver “tarefeiros” na função pública (uma medida do Guterres que era bem intencionada mas foi ineficaz), acrescido da falta de médicos particularmente nalgumas especialidades, estes médicos tarefeiros passaram a ser contratados através de empresas prestadoras de serviços. Muitos médicos criaram eles próprios uma empresa em nome individual. Estes médicos não são formalmente “tarefeiros”, trabalham através de empresas prestadoras de serviços, tal como as empresa de restauração ou de limpeza que também fornecem serviços ao hospital.
Estes médicos não são contratados através dos Serviços de Pessoal, mas através dos Serviços de Aprovisionamento !!!!! (Quando quiserem estudar a evolução das contas dos hospitais vejam lá como interpretam a contabilidade analítica, parte significativa do trabalho médico vem contabilizado junto com o algodão, álcool, medicamentos, produtos de limpeza, etc) !!!!!!!
Os valores apontados para estes tarefeiros no artigo do DN variava entre 40 e 90 €/hora. Eu tenho conhecimento de um valor mais baixo de 35€/hora e valores mais altos bem acima de 100€/h nalgumas especialidades como Anestesia e Pediatria.
Já tinha chamado a atenção para este problema num tópico de Outubro passado
http://www.bolsatotal.com/showthread.php?p=121078&highlight=iatros#post121078
Eu próprio já fui tentado a pedir uma licença de longa duração e ir trabalhar como tarefeiro. Trabalhando apenas 6 bancos de 24h por mês ganharia mais do que actualmente, mesmo contando com as horas extraordinárias.
Do exposto torna-se óbvio que o custo dos cuidados de saúde está a aumentar. Mas, o mais grave é que a qualidade do trabalho vai piorar e há Serviços de Urgência e especialidades que vão fechar, como já está a acontecer. Neste momento, p ex o Serviço de Neurocirurgia do H. Garcia de Orta já não consegue garantir uma escala diária.
Há trabalho no hospital que não pode ser garantido por tarefeiros! (os advogados em Portugal ainda não andam em cima do erro médico, mas vão ter aqui uma mina).
Como já tinha chamado a atenção num tópico de Abril passado
http://www.bolsatotal.com/showthread.php?p=133614&highlight=iatros#post133614
a falta de médicos é um problema que não é só português (nós vamos sempre atrasados alguns anos e com peculiaridades próprias), é preciso racionalizar os custos, é preciso melhorar as prestações de cuidados ...
... então como é que se pretende fazer reformas contra os profissionais ?????
