Mohandas 23-06-2003, 22:42 Tenho um programa de rádio diário, já há algum tempo, onde me proponho tirar dúvidas aos ouvintes. Se acharem que tem interesse e gostarem, vou pondo aqui, diariamente, aquilo que lá digo. Lá, na rádio, chama-se dúvidas sistemáticas; aqui vou-lhe pôr o nome de "Portuguesmente". Se tiverem alguma dúvida, disponham... :)
(6º programa)
E vamos começar a responder a algumas questões que nos chegaram. Muitas não são verdadeiramente dúvidas, mas sim observações pertinentes relativamente a erros registados em vários locais.
Um deles é a confusão, não tão incomum como poderíamos pensar, entre comprimento e cumprimento...
Uma dicção deficiente pode, facilmente, levar a uma errada compreensão do termo utilizado. A diferença entre um e outro, na oralidade, se não for bem vincada, pode-se esbater e só o contexto permitirá entender o que o emissor quer dizer.
Na escrita, em teoria, seria mais fácil, se não se trocassem, tantas vezes, uma pela outra
Comprimento, com “o”, quer dizer “extensão”. (p.e.: o comprimento da sala).
Cumprimento, com “u”, quer dizer “observância de” (p.e.: no cumprimento dos seus deveres). Tem origem no verbo cumprir.
No plural, cumprimentos quer dizer saudações.
Queixa-se, o nosso ouvinte, que, muitas vezes, vê escrito coisas do género: “Um barco com 7 metros de cumprimento”, o que está, evidentemente, mal. Esperemos, a partir de agora, pelo menos aqueles que nos ouvem, que, no cumprimento das suas funções, tenham também atenção ao comprimento...
Outra sugestão que nos chegou foi a de que, para além dos erros e dúvidas que vamos apontando, nos debruçássemos sobre palavras incomuns do nosso léxico, daquelas que poucos utilizam e que a maioria nem sabe que existem. Por isso, a partir de hoje, este espaço de Dúvidas Sistemáticas tem um subtema com o título Uma Palavra por Dia.
E a palavra de hoje é: abacinar
Abacinar é um verbo transitivo que quer dizer tirar a claridade a, escurecer.
Pode ser utilizada, por exemplo, em «algumas cortinas servem para abacinar os aposentos».
Até amanhã
Bem... espero não ficar abacinado daqui para a frente... eh eh eh eh eh.
Um muito obrigado por ires corrigindo os meus erros ortográficos. Gosto que faças isso.
MrChance 23-06-2003, 23:15 Por mim também estás à vontade, Moh, para abacinar a explosão dos meus erros.
Mas não sabia que eras a "Edite Estrela" aí do burgo. E esta, hem? :D
Então não é que o homem também faz programas de rádio?
Por esta é que eu não esperava. Vou passar a seguir este tópico com muita atenção.
Mohandas 24-06-2003, 17:39 (7º programa)
Antepor, apor, contrapor, depor, pospor, repor...
A pergunta que alguns ouvintes nos fazem é: quais destes verbos têm acento, neste caso seria circunflexo?...
Estes, e muitos mais, são verbos derivados do verbo pôr. Para não se confundir com a preposição “por”, este verbo (o pôr) grafa-se com acento circunflexo (o também chamado chapeuzinho) no “o”, que lhe dá o som “ou”. Porém, uma vez que não há hipóteses de confusão, os derivados não levam qualquer acento. Assim, mesmo sem acentuação, a sílaba tónica continua a ser no “por” e a ler-se “pôr”. Ninguém diz antepur, apur, contrapur, etc...
Como estas, outras palavras aparecem, de vez em quando, “circunflexadas”, que se é termo que não existe, e não o encontrámos em qualquer dicionário, funciona aqui muito bem, e por agora passa...
Assim, vemos acentos circunflexos em palavras como cor, flor, voo, e até já vimos em doze e em amor, como se tudo o que se pronunciasse “ô” precisasse de um “chapeuzinho”. Deve ser para proteger do sol que voltou em força... Vamos lá a destapar estas palavras e a deixá-las livres, ok?
Ouvido ontem na televisão, e já não é a primeira vez, o termo “calvice” para designar falta de cabelo, não existe; o correcto é calvície. Eu sei que é difícil de dizer, mas lá por cair o cabelo não quer dizer que caia também o “i”... Bem pior era se fôssemos obrigados a dizer alopecia ou acomia que são termos científicos para a mesma coisa...
Em Uma Palavra por Dia, hoje temos bajoujar. Este é um verbo transitivo que quer dizer lisonjear com termos demasiado afectuosos, adular, amimar, obedecer cegamente a. Em voz corrente e popular: “dar graxa”. Conhecemos todos alguns que usam e abusam deste verbo. Se não na escrita, pelo menos na acção, não é?
Até amanhã.
Patacôncio 24-06-2003, 17:59 Qualquer és convidado para :
Ministro da Educação, tantos são os erros que hoje em dia damos ! ahahhhhhhahahh
PS Doors ... Roadhouse Blues ...
All Rigth ! All Rigth ! All Rigth !
Mohandas 24-06-2003, 18:06 ... o ministro também mete as suas argoladas, de vez em quando.
O que eu defendo é a existência de um organismo que coordene e "controle" a Língua, para não acontecerem enormidades como o dicionário da Academia, entretanto já imitado por outros...
Algo que diga como se faz e porquê.
Estou de acordo contigo Mohandas.
Para mim, e falando do dicionário da Academia, é uma aberração a criação de novas palavras, que não são nem portuguesas nem estrangeiras.
Lóbi ??? Só se for para escrever no gozo.
As tuas crónicas além de educativas são engraçadas, e é assim que se cativam as crianças para a aprendizagem.
Já agora Patacôncio, corrijo-te o inglês:
right ... right (símbolo fonético: raIt)
jleandro 24-06-2003, 18:35 entre nós, os erros desculpam-se
agora que permitam que nas rádios e na tv's os locutores e jornalistas cometam erros constantemente, dos mais aberrantes e muitas vezes só por preguiça ao falarem, não gostam de "dobrar" a língua.
chegou-se a um estado de coisas verdadeiramente vergonhoso
e essa da Academia de Letras ter incluido no diccionário palavras como bué e outras aberrações não ajuda nada.
eu sou pela mudança e inovação, mas em certas coisas não aceito estes modernismos, há coisas que são valores e que não se podem mudar "por dá cá aquela palha"
Mohandas 24-06-2003, 19:04 ... "entre nós os erros desculpam-se", porque, se alguns erros podem ser cometidos por acidente ou pressa ou sei lá o quê, outros são-no devido a desconhecimento, e quer uns quer outros são passados para o geral das pessoas que por aqui passam (e quem diz aqui diz noutros lados), muitas delas sem preparação para tirarem dúvidas nos locais certos e até sem espírito crítico para questionarem como se escreve isto ou aquilo. Vai daí, assimilam o erro e encarregam-se também elas de o difundir como se de coisa certa se tratasse... Passando, o erro, a ser entendido como norma, e é assim que as asneiras entram no léxico. A língua, na verdade, só evolui pelas asneiras que se dizem!
Por isso, quer aqui quer noutros lados, é preciso ter o máximo cuidado com o que se diz ou escreve.
acho muito bem que nos exijas rigor na escrita, hihihihi.
já agora que és (chiça se calhar não leva assento) o nosso dicionário, eu propunha o seguinte aos moderadores.
porque não colocar o "Portuguesmente" no fórum principal?
já sei, todos são principais, mas convenhamos que o primeiro nos chama mais atenção, daí mais participação.
esta ideia do nosso "prof" merece mais relevo, "penso eu de que".
Abraços.
(O Mohandas esteve aqui. :D )
excelente.
o português escrito e falado é muito mal tratado.
e devemos ver isto ainda a outro nível:
- o erro grosseiro de gramática e construção de frases. Tanto como o erro de escrever mal uma ou outra palavra (temos regras gramaticais até doer, o português é latínico, e isso paga-se...) o erro de não conseguir sistematizar um ideia numa frase lógica, com vocabulário correcto e escorreito, faz com muitos textos por aì escritos (e não os aqui escritos mas no geral) se tornem um susto.
a cruzada de mohandas é meritória e 'valente'.
eu leio com atenção, e os acentos foram sempre um quebra cabeças.
em frente ... é o caminho....
Patacôncio 24-06-2003, 22:18 Ó Mohandas ...
Eu até julgo que é boa ideia. Mas atenção ao "ortodoxismo", pois a língua é uma coisa viva. Porque senão nem sequer existia o português, pois continuavamos a faalr latim ...
Blue, tens toda a razão ! E como fiz copy do primeiro erro ... ehehheheh Obrigado, meu !
PS Oba. Um corrector para pretogu~es e outro para angl~es ! eheeeheheheh
PS II E escrevo mal ... que se farta ! ahahahahahhhha
Mohandas 24-06-2003, 22:27 ... mas essa da língua viva soa-me sempre a desculpa de mau pagador.
Quem não sabe ou se desleixa vai sempre buscar a da língua viva para admitir todas as asneiras. Vê lá a minha nova a assinatura para ver se percebes...
jleandro 24-06-2003, 22:40 eheheh
gosto da assinatura nova do Mohandas
a língua, como um rio............
ehehehe, nem digo o que me faz pensar.
eu tambem gosto da lingua nova do Mohandas...:D
Mohandas 25-06-2003, 00:29 ... até parece que eu fiz algum comentário às vossas "assinaturas"...
Portem-se bem...:rolleyes:
Mohandas 25-06-2003, 00:42 ... lembrei-me de uma curiosidade da Língua Portuguesa.
Já toda a gente (acho) ouviu falar no substantivo ensimesmado. Aquela situação em que um indivíduo está de tal modo "metido em si" que não se apercebe de nada do que se passa à sua volta e o pessoal diz que ele está ensimesmado...
O que não sabem, certamente, é que existe o verbo ensimesmar-se... e que este é um verbo de flexão pronominal dupla...
O que é que isto quer dizer? Quer dizer que este verbo possui dois pronomes reflexos na sua constituição. No "-se", que se liga ao verbo, e no "-si-", entre o "en-" inicial e o "-mes-" seguinte.
Até aqui, tudo bem.
A questão que eu deixo é: como é que se conjuga este verbo ensimesmar-se no presente do indicativo, apenas... não vale a pena armar mais confusão...
Eu... ?
Tu... ?
...
Gostava que tentassem responder sem pesquisarem. Mas se o fizerem também não faz mal, quer dizer que se interessaram e já ficam a saber mais qualquer coisa...
Até lá... :D
Eu emmimmesmo-me
Tu entimesmas-te
Ele ensimesma-se
Tenho direito a prémio ?
Para mim, o que me faz mais confusão é o facto de muitas pessoas (com obrigação de saber mais) não saberem o que é um verbo reflexivo.
Já vi coisas do tipo:
... para comprar-mos
... para compreender-mos
É de berrar aos céus ...
Ó Blue, tu entimesmas-te? E isso é possível fazer?
Parece complicado!!!!! :D
A língua portuguesa é mesmo traiçoeira.
Mohandas 25-06-2003, 12:09 ... sabias ou foste procurar?
É só para ter uma ideia de quantas pessoas em Portugal sabe isto... :D
Nós ennosmesmamo-nos
Vós envosmesmai-vos
Eles ensimesmam-se
Quanto ao problema que focas, eu costumo dar como conselho, a quem tem dificuldades nisso, que tentem pôr o "pronome" antes do verbo. Mesmo que fique mal é sempre possível fazê-lo, se for mesmo um pronome. Se não for possível, então não é pronome e é tudo junto...
"Fazer-se" e "se fazer" é a "mesma" coisa; "*comprar-mos" e "mos comprar" já não é a "mesma" coisa... por isso só pode ser "comprarmos"...
Cumprimentos
(é mesmo enmimmesmo-me, Blue. O "m" só se usa antes de um "p" ou de um "b"...)
Acabei por ir verificar apenas o que dizes no último parêntesis ... e encontrei com um m. Mas tens razão, não faz sentido.
Não conheço as regras tão bem como tu ... para isso não há nada melhor do que dar aulas. Mas o facto de ter estudado (e continuar a estudar, visto que é um processo dinâmico) várias línguas tem-me também ajudado a reflectir sobre a nossa.
E quando disseste duplo reflexivo só podia ser isto ...
Continua o bom trabalho ! Não há ninguém que domine uma língua a 100% mas podemos sempre ir melhorando.
Mohandas 25-06-2003, 12:35 ;)
Mohandas 25-06-2003, 17:05 Queixaram-se-nos (eh lá, esta é complicada) que na “nossa” televisão (RTP Madeira) apareceu ontem uma coisa esquisita. No Jornal das 9, em vez de dessalinizadora estava escrito dessalanizadora. Quero acreditar que foi um engano, embora o cuidado naquilo que aparece escrito no grande ecrã devesse ser redobrado. Esta é uma palavra um pouco complicada de escrever e, para alguns, de dizer. No entanto, se formos à raiz do termo é fácil chegar à correcta expressão. A origem é “sal”; “sal” dá “salina”; “salina” dá “salinizar”; o contrário de “salinizar” é “dessalinizar”; a acção é “dessalinização”. Com dois “ss” seguidos. Um do prefixo “des”, outro de “sal”...
Um dos assuntos já aqui abordados apareceu de novo, como forma de questão, através um dos nossos ouvintes, que viu algo contraditório, ao que aqui havíamos dito, na comunicação social, durante a semana passada.
Segundo ele, alguém fazia questão de afirmar que porto-santenses, os habitantes do Porto Santo, bom dia ou boa tarde Porto Santo!, se escreveria tudo junto com dois esses.
Não está correcto. Como já aqui foi dito, os gentílicos (nomes que indicam procedência ou naturalidade) dos compostos onomásticos (locais com mais de um nome) levam hífen: cabo-verdiano, logo, porto-santense...
Pergunta-nos, também, se madeirense, relativo ao habitante da Madeira, e, por consequência, porto-santense, etc... se deve escrever com maiúscula ou com minúscula.
Segundo a gramática, os substantivos podem designar a totalidade dos seres de uma espécie (designação genérica) ou um indivíduo de determinada espécie (designação específica).
Este “espécie” não tem nada a ver com a biologia... entenda-se como “de um determinado tipo”...
No primeiro caso, chama-se comum e escreve-se com minúscula; no segundo designa-se próprio e grafa-se com maiúscula. Está bom de ver que o local de origem ou de habitação de alguém não se engloba na segunda situação, logo madeirense, como portuense, coninbricense, eborense, etc, escreve-se com minúscula.
Ser substantivo comum e não se escrever com maiúscula não torna ninguém menos superior, embora alguns precisem de um título antes do nome para tal se sentirem.
Uma Palavra por Dia traz-nos, hoje, curvejar, verbo intransitivo, que quer dizer fazer curvas, andar às voltas. Pode ser utilizado em: “O condutor fartou-se de curvejar antes de seguir a direito, não se sabe por um problema técnico se por um problema tónico”.
Até amanhã.
Pois ... e pela língua também se analisam bem as diferenças culturais entre os povos.
Em alemão é praticamente uma afronta não escrever os gentilícios com maiúsculas ... a importância que eles dão à naturalidade.
E se a nossa língua é difícil, comparativamente, a deles é do diabo...
(Bolas, que és mais picuinhas do que eu ...).
Descobri todos ?
|