Mohandas
16-09-2003, 21:56
"Eu não vejo porque nós temos de esperar e olhar um país se tornar comunista devido a irresponsabilidade de seu povo". Henry Kissinger, laureado com o Prêmio Nobel da PAZ em 1973.
O 11 de setembro ficará marcado como o início de uma nova época. Mais do que um mega-atentado com tons midiáticos, o mundo ficou consternado com o drama do gigante ferido. O atentado gerou uma série de reações tão nocivas quanto à queda das torres. Um perigo de ameaça constante em que o mundo passa a ser dividido entre os ´bons´ - o Partido e o "maus", todos aqueles que não se alinham às suas idéias.
Notável a satisfação de vários setores após a tragédia de setembro de 2001. Os atentados legitimaram um governo de índices fracos, eleito pela minoria e numa eleição típica de terceiro-mundo.
Mas para este mesmo terceiro-mundo uma outra data
é fundamental para desmascarar os fascilósofos defensores da dicotomia de eixos do bem e do mal. Em 11 de setembro de 1973, as forças armadas chilenas lideradas pelo general Augusto Pinochet, derrubaram o governo democraticamente eleito de Salvador Allende com apoio e financiamento do Eixo do Bem. Em nome da democracia, dos valores cristãos e da liberdade, Pinochet gerenciou uma ditadura de 17 anos que resultou em mais de três mil desaparecidos, prisões ilegais, violações da constituição e execuções extra-judiciais.
O "Eixo do Bem" que financiou e multiplicou ditaduras em todo o mundo com o mesmo propósito: defender os seus interesses. Tal Eixo nem é um país mas um conjunto de setores com interesses específicos, que não são necessariamente, fazer o bem ao maior número de pessoas.
ANTES DO GOLPE
Antes do golpe havia uma situação tensa no Chile. O médico Salvador Allende (1908-1973) foi o primeiro marxista eleito presidente da República pelo voto direto na América Latina. Antes de se tornar presidente foi deputado, ministro da saúde, senador e candidato derrotado para as eleições presidenciais de 1964.
Seis anos depois, Allende vence a eleição com 36% dos votos pela coalizão de esquerda Unidade Popular (UP). Com a expectativa da vitória de Allende criou-se uma comissão de especialistas, tendo Henry Kissinger como líder, para tratar a questão chilena. A opção de intervenção eleitoral foi descartada e o golpe de estado passou a ser a opção mais aceita logo após a vitória de Allende nas urnas.
Allende e os socialistas estiveram no poder em três anos de pressão dos grupos direitistas, midiáticos e aos fascilósofos da época que pregavam o perigo ao comunismo em seus tablóides e filosofias de botequim. Cuspiam suas idéias sempre em nome da liberdade, democracia e valores cristãos.
A inflação, as filas provocadas pelos boicotes devido às tentativas de socializar a economia chilena junto com as pressões contrárias à reforma agrária e nacionalização das indústrias foram decisivas para que a maioria da população desejasse a saída de Allende. Entretanto, muitos dos que eram contrários a Allende também não queriam uma ditadura militar. Sentiram-se enganados com o prolongamento do golpe. Não concordar com as diretrizes do governo não é a mesma coisa que apoiar uma ditadura voraz.
O DIA 11
O coup d´etat chileno foi mais uma vergonha na nossa história latino-americana. As forças armadas que se auto-declaravam apolíticas logo tomaram conta do Estado e com apoio internacional permaneceram no poder por 17 anos.
Vários pedidos foram feitos ao presidente Allende para renunciar e até ofereceram-lhe e a sua família refúgio no exterior. Allende recusou a proposta e organizou um resistência armada dentro do La Moneda.
A GAP (Guarda-costa presidencial) já esperando um possível golpe se posicionou em diferentes partes do palácio presidencial. A GAP tinha aproximadamente 60 integrantes e era basicamente formada por jovens de 20 e poucos anos.
Tanques e aviões bombardearam o palácio presidencial. 20 mísseis foram disparados pelos caças que levaram destruição e atearam fogo no prédio. Allende cumpre sua palavra de sair do La Moneda somente na horizontal. Morre um presidente eleito. Os fascilósofos comemoram.
DEPOIS DO GOLPE
O 11 de setembro de 1973 inspirou o filme de Patricio Guzmán, The Battle of Chile (A Batalha do Chile), premiado documentário que retrata os nove meses anteriores à tragédia. O filme é dividido em duas partes: a primeira "A insurreição da Burguesia" analisa o aumento da oposição direitista contrariada à vitória inesperada dos socialistas nas urnas. A segunda, "O Golpe de Estado", relata a divisão da esquerda enquanto a direita caminhava passos largos rumo à ditadura.
Logo após o golpe foi decretado estado de sítio. Uma junta foi formada para recuperar a ´identidade chilena, a justiça e as instituições`. A junta era formada pelo general Augusto Pinochet, que era o presidente da mesma; Gustavo Leigh das Forças Armadas, Cesar Mendoza dos carabineros e José Toribio Merino da marinha.
A partir do dia seguinte do golpe, o Estádio Nacional de Santiago foi transformado num campo de prisioneiros e tortura. Cerca de sete mil pessoas ali passaram de acordo com a Cruz Vermelha.
Começa uma ditadura sanguinária aplicando assassinatos, torturas, desaparecimentos e genocídios sob o nome da paz e democracia. Para os setores conservadores dos EUA, os governos democráticos de esquerda eram menos toleráveis do que o assassinos alinhados.
No dia 13 a Suprema Corte declara seu apoio ao golpe. A Justiça foi o único poder mantido para justificar a democracia. No dia seguinte, o Congresso Nacional é dissolvido. A Igreja Católica local apenas se manifesta para a Junta respeitar os oponentes e os valores cristãos, obviamente não cumpridos.
Dias depois, a mídia local insiste no Plano Z, uma tentativa de contra-golpe. Assim justifica-se o terror de Estado permanente contra possíveis terroristas e criminosos. O Partido da distopia de 1984 fica cada vez mais nítido e os "Eixos" do Bem e do Mal são declarados em nome da liberdade no setembro negro.Todos eram suspeitos. A lógica do ame-o ou deixe-o começa a vigorar.
O prêmio Nobel Pablo Neruda morre de ataque do coração no dia 22. Membro do Partido Comunista, Neruda havia retornado ao Chile um ano antes do golpe. Relatos apontam a negligência dos militares com uma persona non-grata ao regime. Coincidências da América Latina.
Em meio ao terror os EUA, do republicano Nixon, reconhecem oficialmente o novo governo chileno apenas 15 dias após o golpe. E assim agiram, em nome da democracia, para todas as ditaduras latino-americanas alinhadas a seus interesses.
No dia seguinte ao apoio oficial estadunidense o governo chileno oferece uma recompensa milionária a quem desse informações sobre os líderes da oposição. Consolidava-se assim a ditadura. Os dias seguintes foram marcados por intensas perseguições e até caravanas da morte que fariam inveja aos nazistas. Em contrapartida, é criado o Comitê pela Paz, uma tentativa da Igreja de conter os excessos da ditadura. Em sua declaração de princípios, a Junta Militar se auto-intitula defensora dos valores cristãos e da democracia. Mais duplipensado impossível.
Em outubro os partidos de esquerda são abolidos e todas as organizações acusadas de não cooperarem com a ´democracia´. Quatro dias depois, todos os outros partidos são postos na ilegalidade.
O regime vai aumentado a coerção a medida que seu discurso torna-se mais contraditório. Em 1974 é criada a DINA (Departamento de Inteligência Nacional), uma espécie de Polícia do Pensamento, comum a todas as ditaduras latino-americanas. No mesmo mês é declarado o poder executivo ao presidente da Junta, o general Pinochet. Poderes especiais são concedidos à medida que os títulos eleitorais são extintos e as instituições cassadas. O registro de eleitores só voltou em 1987.
SOBROU ATÉ PARA A MAFALDA
A pressão contra o regime aumenta o terror de Estado. vários líderes de oposição são mortos pela DINA. Em julho de 1975 a revista Lea da Argentina e o jornal O Dia do Brasil publicam listas que contabilizam 119 desaparecidos pelo regime na "Operação Colombo". Prisioneiros políticos no Chile fazem greve de fome contra a maquiagem dos números da lista. Em setembro é formado o Comando conjunto anticomunista pelos militares e central de inteligência com o objetivo de caçar e eliminar os membros do PC.
A Television Nacional suspende, em 1975, a exibição do desenho da Mafalda, baseada nas tiras em quadrinhos do argentino Quino. A justificativa era que a personagem tinha tendências destrutivas à tradição, família e propriedade. Decretaram que a Mafalda, assim como todos os jornalistas e professores de história, era comunista. A burrice não é nova. É antiga e contagiante.
Apenas em 1976 surgem revistas e jornais de oposição moderada ao regime. Os abusos da ditadura são responsáveis pela pressão dos EUA contra os excessos ao banir a assistência militar ao país.No discurso do Ato Constitucional no. 3, a liberdade de expressão continuava a existir, desde que não fosse contrária ao regime.
Neste mesmo ano, o ex-embaixador chileno nos EUA, Orlando Letelier, é assassinado por um carro-bomba em Washington. O crime é cometido duas semanas após a Junta Militar ter revogado a cidadania chilena de Letelier, um ferrenho critico da ditadura chilena.
O assassinato provoca mais críticas dentro dos EUA ao apoio à ditadura de Pinochet. Começa o processo de transição para a democracia apesar do general adiá-la ao máximo com mais um mandato até 1985. A América Latina se acostumou a mudar lenta, gradual e seguramente para não deixar rastros e dívidas.
Em 1977 a DINA é extinta. Na verdade, o escândalo Letelier foi responsável para a criação de uma nova agência nos mesmos moldes. Na CNI (Central Nacional de Inteligência) quase todos os cargos foram preenchidos pelas mesmas pessoas da extinta DINA. Esta atitude não é capaz de conter os excessos do regime nem a pressão internacional.
A ONU condena a ditadura chilena pela continuação das violações aos direitos humanos, incluindo o voto dos EUA para a surpresa dos defensores do regime. Pressionado, Pinochet convoca um plebiscito sobre a resolução das Nações Unidas. O eleitor tinha duas opções "democráticas" para escolher nestes moldes:
a) apoiar o presidente na sua defesa e integridade do Chile reafirmando a legitimidade do governante da república;
b) apoiar a resolução da ONU e sua intenção de impor o destino do país de agora em diante.
Dentro de uma possibilidade típica de eleição do sertão, cabresto ou para presidente dos EUA na Flórida, 75% do eleitorado apoiou a primeira opção no plebiscito organizado e gerenciado por militares. Enquanto isso, seqüestros e assassinatos continuavam a acontecer no país. A pressão aumenta e o governo chileno convoca em 1978 a Lei de Anistia, que perdoava todos os crimes políticos individuais entre 11 de setembro de 1973 a março de 1978. Uma clara demonstração de medo dos próprios crimes. Acreditar na benevolência das ditaduras quando clamam as leis de anistia é a mais pura ingenuidade. Esta saída é usada para limpar o próprio caminho de eventuais tribunais diante do fim próximo.
O Washignton Post insinua que Pinochet esteve envolvido no assassinato de Letelier enquanto a justiça estadunidense pede a extradição dos envolvidos no caso. A pressão externa aumenta a cada dia pelo fim da ditadura, incluindo a Igreja Católica, muito embora os abusos e perseguições continuem no país em meio a descoberta de cemitérios clandestinos.
O 11 de setembro ficará marcado como o início de uma nova época. Mais do que um mega-atentado com tons midiáticos, o mundo ficou consternado com o drama do gigante ferido. O atentado gerou uma série de reações tão nocivas quanto à queda das torres. Um perigo de ameaça constante em que o mundo passa a ser dividido entre os ´bons´ - o Partido e o "maus", todos aqueles que não se alinham às suas idéias.
Notável a satisfação de vários setores após a tragédia de setembro de 2001. Os atentados legitimaram um governo de índices fracos, eleito pela minoria e numa eleição típica de terceiro-mundo.
Mas para este mesmo terceiro-mundo uma outra data
é fundamental para desmascarar os fascilósofos defensores da dicotomia de eixos do bem e do mal. Em 11 de setembro de 1973, as forças armadas chilenas lideradas pelo general Augusto Pinochet, derrubaram o governo democraticamente eleito de Salvador Allende com apoio e financiamento do Eixo do Bem. Em nome da democracia, dos valores cristãos e da liberdade, Pinochet gerenciou uma ditadura de 17 anos que resultou em mais de três mil desaparecidos, prisões ilegais, violações da constituição e execuções extra-judiciais.
O "Eixo do Bem" que financiou e multiplicou ditaduras em todo o mundo com o mesmo propósito: defender os seus interesses. Tal Eixo nem é um país mas um conjunto de setores com interesses específicos, que não são necessariamente, fazer o bem ao maior número de pessoas.
ANTES DO GOLPE
Antes do golpe havia uma situação tensa no Chile. O médico Salvador Allende (1908-1973) foi o primeiro marxista eleito presidente da República pelo voto direto na América Latina. Antes de se tornar presidente foi deputado, ministro da saúde, senador e candidato derrotado para as eleições presidenciais de 1964.
Seis anos depois, Allende vence a eleição com 36% dos votos pela coalizão de esquerda Unidade Popular (UP). Com a expectativa da vitória de Allende criou-se uma comissão de especialistas, tendo Henry Kissinger como líder, para tratar a questão chilena. A opção de intervenção eleitoral foi descartada e o golpe de estado passou a ser a opção mais aceita logo após a vitória de Allende nas urnas.
Allende e os socialistas estiveram no poder em três anos de pressão dos grupos direitistas, midiáticos e aos fascilósofos da época que pregavam o perigo ao comunismo em seus tablóides e filosofias de botequim. Cuspiam suas idéias sempre em nome da liberdade, democracia e valores cristãos.
A inflação, as filas provocadas pelos boicotes devido às tentativas de socializar a economia chilena junto com as pressões contrárias à reforma agrária e nacionalização das indústrias foram decisivas para que a maioria da população desejasse a saída de Allende. Entretanto, muitos dos que eram contrários a Allende também não queriam uma ditadura militar. Sentiram-se enganados com o prolongamento do golpe. Não concordar com as diretrizes do governo não é a mesma coisa que apoiar uma ditadura voraz.
O DIA 11
O coup d´etat chileno foi mais uma vergonha na nossa história latino-americana. As forças armadas que se auto-declaravam apolíticas logo tomaram conta do Estado e com apoio internacional permaneceram no poder por 17 anos.
Vários pedidos foram feitos ao presidente Allende para renunciar e até ofereceram-lhe e a sua família refúgio no exterior. Allende recusou a proposta e organizou um resistência armada dentro do La Moneda.
A GAP (Guarda-costa presidencial) já esperando um possível golpe se posicionou em diferentes partes do palácio presidencial. A GAP tinha aproximadamente 60 integrantes e era basicamente formada por jovens de 20 e poucos anos.
Tanques e aviões bombardearam o palácio presidencial. 20 mísseis foram disparados pelos caças que levaram destruição e atearam fogo no prédio. Allende cumpre sua palavra de sair do La Moneda somente na horizontal. Morre um presidente eleito. Os fascilósofos comemoram.
DEPOIS DO GOLPE
O 11 de setembro de 1973 inspirou o filme de Patricio Guzmán, The Battle of Chile (A Batalha do Chile), premiado documentário que retrata os nove meses anteriores à tragédia. O filme é dividido em duas partes: a primeira "A insurreição da Burguesia" analisa o aumento da oposição direitista contrariada à vitória inesperada dos socialistas nas urnas. A segunda, "O Golpe de Estado", relata a divisão da esquerda enquanto a direita caminhava passos largos rumo à ditadura.
Logo após o golpe foi decretado estado de sítio. Uma junta foi formada para recuperar a ´identidade chilena, a justiça e as instituições`. A junta era formada pelo general Augusto Pinochet, que era o presidente da mesma; Gustavo Leigh das Forças Armadas, Cesar Mendoza dos carabineros e José Toribio Merino da marinha.
A partir do dia seguinte do golpe, o Estádio Nacional de Santiago foi transformado num campo de prisioneiros e tortura. Cerca de sete mil pessoas ali passaram de acordo com a Cruz Vermelha.
Começa uma ditadura sanguinária aplicando assassinatos, torturas, desaparecimentos e genocídios sob o nome da paz e democracia. Para os setores conservadores dos EUA, os governos democráticos de esquerda eram menos toleráveis do que o assassinos alinhados.
No dia 13 a Suprema Corte declara seu apoio ao golpe. A Justiça foi o único poder mantido para justificar a democracia. No dia seguinte, o Congresso Nacional é dissolvido. A Igreja Católica local apenas se manifesta para a Junta respeitar os oponentes e os valores cristãos, obviamente não cumpridos.
Dias depois, a mídia local insiste no Plano Z, uma tentativa de contra-golpe. Assim justifica-se o terror de Estado permanente contra possíveis terroristas e criminosos. O Partido da distopia de 1984 fica cada vez mais nítido e os "Eixos" do Bem e do Mal são declarados em nome da liberdade no setembro negro.Todos eram suspeitos. A lógica do ame-o ou deixe-o começa a vigorar.
O prêmio Nobel Pablo Neruda morre de ataque do coração no dia 22. Membro do Partido Comunista, Neruda havia retornado ao Chile um ano antes do golpe. Relatos apontam a negligência dos militares com uma persona non-grata ao regime. Coincidências da América Latina.
Em meio ao terror os EUA, do republicano Nixon, reconhecem oficialmente o novo governo chileno apenas 15 dias após o golpe. E assim agiram, em nome da democracia, para todas as ditaduras latino-americanas alinhadas a seus interesses.
No dia seguinte ao apoio oficial estadunidense o governo chileno oferece uma recompensa milionária a quem desse informações sobre os líderes da oposição. Consolidava-se assim a ditadura. Os dias seguintes foram marcados por intensas perseguições e até caravanas da morte que fariam inveja aos nazistas. Em contrapartida, é criado o Comitê pela Paz, uma tentativa da Igreja de conter os excessos da ditadura. Em sua declaração de princípios, a Junta Militar se auto-intitula defensora dos valores cristãos e da democracia. Mais duplipensado impossível.
Em outubro os partidos de esquerda são abolidos e todas as organizações acusadas de não cooperarem com a ´democracia´. Quatro dias depois, todos os outros partidos são postos na ilegalidade.
O regime vai aumentado a coerção a medida que seu discurso torna-se mais contraditório. Em 1974 é criada a DINA (Departamento de Inteligência Nacional), uma espécie de Polícia do Pensamento, comum a todas as ditaduras latino-americanas. No mesmo mês é declarado o poder executivo ao presidente da Junta, o general Pinochet. Poderes especiais são concedidos à medida que os títulos eleitorais são extintos e as instituições cassadas. O registro de eleitores só voltou em 1987.
SOBROU ATÉ PARA A MAFALDA
A pressão contra o regime aumenta o terror de Estado. vários líderes de oposição são mortos pela DINA. Em julho de 1975 a revista Lea da Argentina e o jornal O Dia do Brasil publicam listas que contabilizam 119 desaparecidos pelo regime na "Operação Colombo". Prisioneiros políticos no Chile fazem greve de fome contra a maquiagem dos números da lista. Em setembro é formado o Comando conjunto anticomunista pelos militares e central de inteligência com o objetivo de caçar e eliminar os membros do PC.
A Television Nacional suspende, em 1975, a exibição do desenho da Mafalda, baseada nas tiras em quadrinhos do argentino Quino. A justificativa era que a personagem tinha tendências destrutivas à tradição, família e propriedade. Decretaram que a Mafalda, assim como todos os jornalistas e professores de história, era comunista. A burrice não é nova. É antiga e contagiante.
Apenas em 1976 surgem revistas e jornais de oposição moderada ao regime. Os abusos da ditadura são responsáveis pela pressão dos EUA contra os excessos ao banir a assistência militar ao país.No discurso do Ato Constitucional no. 3, a liberdade de expressão continuava a existir, desde que não fosse contrária ao regime.
Neste mesmo ano, o ex-embaixador chileno nos EUA, Orlando Letelier, é assassinado por um carro-bomba em Washington. O crime é cometido duas semanas após a Junta Militar ter revogado a cidadania chilena de Letelier, um ferrenho critico da ditadura chilena.
O assassinato provoca mais críticas dentro dos EUA ao apoio à ditadura de Pinochet. Começa o processo de transição para a democracia apesar do general adiá-la ao máximo com mais um mandato até 1985. A América Latina se acostumou a mudar lenta, gradual e seguramente para não deixar rastros e dívidas.
Em 1977 a DINA é extinta. Na verdade, o escândalo Letelier foi responsável para a criação de uma nova agência nos mesmos moldes. Na CNI (Central Nacional de Inteligência) quase todos os cargos foram preenchidos pelas mesmas pessoas da extinta DINA. Esta atitude não é capaz de conter os excessos do regime nem a pressão internacional.
A ONU condena a ditadura chilena pela continuação das violações aos direitos humanos, incluindo o voto dos EUA para a surpresa dos defensores do regime. Pressionado, Pinochet convoca um plebiscito sobre a resolução das Nações Unidas. O eleitor tinha duas opções "democráticas" para escolher nestes moldes:
a) apoiar o presidente na sua defesa e integridade do Chile reafirmando a legitimidade do governante da república;
b) apoiar a resolução da ONU e sua intenção de impor o destino do país de agora em diante.
Dentro de uma possibilidade típica de eleição do sertão, cabresto ou para presidente dos EUA na Flórida, 75% do eleitorado apoiou a primeira opção no plebiscito organizado e gerenciado por militares. Enquanto isso, seqüestros e assassinatos continuavam a acontecer no país. A pressão aumenta e o governo chileno convoca em 1978 a Lei de Anistia, que perdoava todos os crimes políticos individuais entre 11 de setembro de 1973 a março de 1978. Uma clara demonstração de medo dos próprios crimes. Acreditar na benevolência das ditaduras quando clamam as leis de anistia é a mais pura ingenuidade. Esta saída é usada para limpar o próprio caminho de eventuais tribunais diante do fim próximo.
O Washignton Post insinua que Pinochet esteve envolvido no assassinato de Letelier enquanto a justiça estadunidense pede a extradição dos envolvidos no caso. A pressão externa aumenta a cada dia pelo fim da ditadura, incluindo a Igreja Católica, muito embora os abusos e perseguições continuem no país em meio a descoberta de cemitérios clandestinos.
