Mohandas 21-03-2003, 20:53 O coelhinho dorminhoco
Já devem ter ouvido falar de um coelho branco que andava sempre atrasado... Não?! Então peçam aos pais para vos comprarem o livro “Alice no país das maravilhas”. Vão ver que vão gostar muito.
Mas hoje não temos um coelhinho atrasado...
No jardim das flores azuis andavam todos muito atarefados. A Páscoa aproximava-se e era preciso estar tudo pronto e muito bonito para que as crianças que haviam de vir gostassem.
Os pássaros penduravam fios dourados nas árvores e nos arbustos, e parecia que as plantas eram iluminadas por milhares de sóis.
As abelhas andavam num corrupio de flor em flor, espalhando pólen, fazendo as pétalas brilharem.
Os esquilos apanhavam as folhas velhas do chão e ajeitavam a relva, para esta ficar bonita e viçosa.
As aranhas teciam lindas teias entre os ramos das árvores, que, com o orvalho da manhã, pareciam repletas de pérolas.
O coelho branco espalhava ovos pelo jardim... Esperem aí! Onde está o coelho branco?
De repente, foi o pânico no jardim das flores azuis. Ninguém sabia onde estava o coelho branco e era ele que tinha de esconder os ovos pintados, que as crianças teriam de encontrar mais tarde.
Os pássaros começaram a voar em todas as direcções, chilreando muito nervosos, perguntando uns aos outros:
– Onde está o coelho branco? Onde está o coelho branco?
As abelhas esqueceram-se de espalhar o pólen e juntaram-se na colmeia zumbindo interrogações:
– Onde está o coelho branco? Onde está o coelho branco?
Os esquilos deitaram-se na relva, desanimados, roendo nervosamente umas bolotas, questionando:
– Onde está o coelho branco? Onde está o coelho branco?
As aranhas pararam de tecer as teias, ficando penduradas nos seus fios de seda, balançando ao sabor do vento, olhando umas para as outras, sem saberem onde estava o coelho branco.
Parecia que tudo estava perdido. A festa da Páscoa não seria a mesma sem os ovos pintados do coelho branco.
Quando já todos desanimavam, pensando que nenhuma criança viria ao jardim das flores azuis, apareceu o coelho branco, bocejando, com um cesto em cada pata.
– Então? Já são horas de esconder os ovos? – perguntou estremunhado.
Todos os outros animais começaram a falar ao mesmo tempo e a ralhar-lhe.
Ele ficou envergonhado e desculpou-se:
– Adormeci e esqueci-me das horas...
Mas ainda não era tarde e, com todos a ajudar, todos os ovos foram escondidos no jardim.
Quando as crianças chegaram, tudo estava pronto e lindíssimo e a festa da Páscoa foi, uma vez mais, um sucesso no jardim das flores azuis.
como depois podes apagar estas opiniões, escrevo aqui (mas não te esqueças de apagar depois de algum tempo, hehehe), eu achei o texto bonito e escorreito (coisa «importante me textos para miúdos, acho eu).
Mas que sei eu? Sabe melhor a minha filha, a quem dei a ler e gostou muito.
Ela gostou muito, e se não gostasse não tinhas vida menino, dizia mesmo que não gostava.
por isso, tás aprovado? :D
Mohandas 21-03-2003, 21:33 ... é isso. Tenho juízes muito mais exigentes. Os miúdos!
Obrigado, Gatsby.
Os outros que tenham filhos façam o mesmo que o Gatsby, ok?
Embora já seja um "voto", gostava de mais, s.f.f.
Ponham as vossas (e dos filhos) opiniões. Obrigado.
Mohandas 21-03-2003, 21:40 O pinto desaparecido
A mãe avestruz andava muito aflita. Ela sabia que eram trinta e cinco ovos e só ali estavam trinta e quatro filhotes. Onde é que estaria o outro?
Será que estava escondido no meio das ervas? Será que estava debaixo de alguma pedra? A mãe avestruz baixava a cabeça e procurava por todo o lado... mas não o encontrava.
Teve que pedir ao pai avestruz que fosse procurar o filho desaparecido enquanto ela ficava a tomar conta do outros irrequietos pintos avestruz.
O pai avestruz lá foi, preocupado, espreitando por trás de cada árvore, pelo meio de cada arbusto, por baixo de cada pedra. A certa altura, na areia, viu umas marcas pequeninas que pareciam pegadas de avestruz bebé. Baixou-se ainda mais para se certificar se eram verdadeiras e confirmou que eram. Parecia fácil, agora, encontrar o filhote desaparecido, tinha era de se despachar antes que algum outro animal esfomeado o apanhasse primeiro.
O pai avestruz acelerou a sua corrida, que chegava aos 80 km/h, e, sempre com um olho nas marcas, daí a momentos encontrou o pinto que faltava... Este andava perdido com metade da casca de ovo na cabeça e sem ver para onde ia... Tinha-se, assim, perdido dos irmãos. Mas agora, tinha sido encontrado pelo pai e dentro de pouco tempo já eram trinta e cinco os filhotes à volta da mãe.
A família estava de novo reunida.
Se algum dia virem uma avestruz com a cabeça em baixo, e vos disserem que está com ela enterrada na areia, não acreditem, se calhar está à procura de um filhote perdido.
Mohandas 21-03-2003, 21:41 ... please, please...
Histórias para crianças. Uma nova fase na minha vida literária...
Ufa. É mais difícil que para adultos...
Caravela 21-03-2003, 22:09 A minha filha que vai fazer 12 anos a 26/03.gostou da melodia da estória!!
esta versão poética do excerto ´d'Alice no País das Maravilhas
agradou!!
Pra começar um 16 e continua...................
Mohandas 21-03-2003, 23:42 Ninguém diz nada nesta?
Mohandas 21-03-2003, 23:42 Não há mais comentários?
MrChance 22-03-2003, 00:18 Só depois de ler o texto reparei que o dedicavas ao Cali, mas enquanto o lia estava-me a lembrar dele, enquanto pinto perdido, com casca na cabeça.
Gostei do teu texto. Singelo, mas claro. Conto a conto ficas com uma bonita colectânea.
Mohandas 22-03-2003, 00:23 Ok?
como era dedicada a mim ('bigada !) arrisquei vir cá ainda hoje, mesmo que com os olhos piscos e sem paciencia.
O que eu achei ?
Achei que é uma ideia gira voltares-te para histórias infantis.
Achei a história simples e bonita, como devem ser as histórias para crianças.
Achei que precisas de colorir mais o texto com mais umas pequenas referencias do universo infantil (puxa pela cabeça, eheheh).
Achei que faltam lá meia duzia de linhas de diálogo entre mãe e pai, e pai e filho !
Achei que algumas pequenas coisas não fazem lá falta, pois não fazem muito sentido para uma criança (os 80 km/h, o outro animal esfomeado, por exemplo).
Achei que, com esses pequenos retoques e mais experiencia, chegas lá. Mas sabes tambem que, quem escreve muito bem para adultos, dificilmente o consegue fazer para crianças. O segredo está em conseguir encarnar o papel da criança e ler a história nesse "estado psicologico". Ajuda bastante se vestires um bibe, puseres uma chupeta na boca e uma fralda no rabo, eheheh.
Sabes que consta por aí que de facto nunca ninguem viu uma avestruz com a cabeça enterrada na areia ?
Abrações, ó 'moelas' !
MrChance 22-03-2003, 00:30 A minha filha tem 19 mas não leu porque está ausente por uns dias. Mas leu o pai dela e gostou. Mais do que o da avestruz, que li primeiro.
O texto tem ritmo, apresenta um crescendo da acção ao tecer o cenário em contraponto com a paralisia faseada na verificação da ausência do coelho branco.
O adulto que há em mim gostou.
gugu dada !
Este miudo gostou ! A Joana ainda não leu, que está a dormir (continua com a sua vida santa, eheheh).
Este miudo gostou mais desta do que da outra, mas leu esta depois. Na outra já deixou o recado. Esta já tem muito daquilo que acho que falta na outra.
Estás bem encaminhado !
a história está boa e simples mas o cali pode terrazão principalmente nas parte das fraldas...
e eu vou ver esse nem que seja a nado...
e tu vias ter um linfo trabalho um destes dias a organizar este forum...
:)
Mohandas 22-03-2003, 00:41 ... mas às vezes não percebo o que queres dizer...
«e tu vias ter um linfo trabalho um destes dias a organizar este forum...»
vias = devias? ias?
linfo = lindo
e se "e tu ias ter um lindo trabalho um destes dias a organizar este fórum..." é o quê?
Sorry:(
rais me parta... e este teclado
e tu vais ter um lindo trabalho um destes dias a organizar este forum...
Mohandas 22-03-2003, 00:50 É só chegar aqui e apagar isto tudo, eheheh...
Principalmente as opiniões negativas. :)
jleandro 22-03-2003, 01:03 crianças, não tenho agora por cá.
o avõ gostou, mas...
achou a história curta.
precisaria de mais qualquer coisa. Vá puxa pela cabeça.
jleandro 22-03-2003, 01:10 mohandas (já foi a votação para aceitar este nome? - ainda não vi o resultado, eheheh)
gostei mais desta história que da outra, mas acho que o Cali acertou em cheio nalgumas sugestóes que fez, nomeadamente num maior diálogo entre mãe e pai, e na referência que fazes a 80 kh/hora.
dá mais trabalho? - pois dá, mas é por isso que uns são e outros não.
e tu serás.
Acho tambem esta melhor que a da avestruz, um pouco mais movimentada embora ainda um pouco curta mas para crianças é necessario ver a que idade se destina
Mohandas 28-03-2003, 01:36 Tenho no meu quintal uma planta, que não sei como lá foi parar.
Um dia descobri, junto às “línguas de sogra”, uma planta diferente que se tinha desenvolvido e crescido de forma autónoma. Nunca soube como lá foi parar e o que a levou a crescer naquele local tão adverso.
http://www.geocities.com/~esabio/interacao/curassavica.jpg
Tempos depois, descobri umas pequenas esferas que se tinham instalado nas flores, como pérolas de orvalho à espera que o sol as diluísse.
http://www.leps.it/images/Nymphalidae/InLeDaDaPlU0001.jpg
Isso nunca aconteceu. Pelo contrário. As esferas transformaram-se em pequenos seres que rapidamente tomaram conta de toda a planta e, alimentando-se das suas folhas, rapidamente cresceram, transformando-se em gordas e bonitas lagartas, mas cujas cores deveriam constituir um aviso a potenciais predadores. Toda a planta é devorada, ficando apenas os galhos.
http://www.leps.it/images/Nymphalidae/InLeDaDaChL0001.jpg
Passados poucos dias, reparei que as lagartas, bem desenvolvidas, se afastavam da planta, à procura de outros destinos (talvez o seu) que ultrapassava o local onde tinham nascido. Encontravam, não sei como, o local certo e ali ficavam, estranhamente quietas e desenvolvendo uma névoa de seda à volta da cauda que as segurava à superfície sólida.
http://www.leps.it/images/Nymphalidae/InLeDaDaPlP0001.jpg
Em muito pouco tempo (horas) as lagartas, como eu as tinha conhecido, desapareciam e davam lugar a uma pedra preciosa que se tornava cada vez mais brilhante à medida que o tempo passava. Um círculo de estrelas amarelas, cada vez mais cintilantes, coroava o topo daquele refúgio onde se dava uma transformação extraordinária.
http://www.dallasbutterflies.com/Butterflies/PUPA/pics/plexippuspupa2.jpg
Dura sempre pouco tempo (pelas nossas medidas, claro). A certa altura, a estranha formação torna-se castanha e rompe-se pela base.
http://linus.socs.uts.edu.au/~don/larvae/nymp/plexi5.jpg
http://www.npwrc.usgs.gov/resource/DISTR/LEPID/BFLYUSA/pic/emerging.jpg
A pouco e pouco, uma nova (ou renovada?) vida liberta-se da sua prisão de metamorfose e abre-se ao sol para secar as asas.
http://www.leps.it/images/Nymphalidae/InLeDaDaPlA0001.jpg
Uma borboleta Monarca saúda a luz que a ilumina e pouco depois liberta-se de vez e parte... sabe-se lá para onde...
http://www.leps.it/images/Nymphalidae/InLeDaDaPlA0002.jpg
http://www.geocities.com/~esabio/interacao/butter.gif
Com os dias, a “minha” planta recupera totalmente. Novas folhas crescem e as flores explodem numa sinfonia silenciosa, como que num mudo chamamento pelas outras flores, estas voadoras, que as habitam para prolongar a vida. E tudo recomeça, vezes sem conta, o tempo o permita.
http://www.geocities.com/~esabio/interacao/curassavica.jpg
Sinto-me um privilegiado por ter, em minha casa, no meu quintal, uma planta que alimenta a força da vida das borboletas Monarca.
Gostava que vocês participassem nesta demonstração da força da Terra para sobreviver.
Deixo alguns dados para perceberem melhor o que se passa:
um exemplo bastante interessante e complexo de interacção planta-animal é o caso da borboleta Monarca (Danaus plexippus) que se alimenta de várias espécies da família da falsa erva-de-rato (Asclepiadaceae). A Asclepia curassavica, por exemplo, é conhecida por causar vómitos e ataques cardíacos súbitos, sendo responsável pela morte de muitos animais em fazendas. A larva da borboleta Monarca consegue alimentar-se da planta e é imune aos efeitos desses glicosídeos cardíacos. Ela armazena-os nos seus tecidos. Após a fase de pupa (aquela pedra preciosa verde), as borboletas adultas voam e o seu corpo retém as toxinas, inclusive nas asas.
Ao serem comidas pelo seu predador – a gralha Cyanocitta cristata – as borboletas provocam vómitos violentos. Acontece até, às vezes, serem expelidas pelo pássaro e conseguirem levantar voo após recuperarem. Depois de um susto desses, o pássaro não procura mais essas borboletas que ele reconhece facilmente devido às cores fortes e brilhantes de suas asas. Insectos que acumulam toxinas no seu corpo e as usam como defesa não precisam de se camuflar e podem ser até bem evidentes, o que facilita o reconhecimento pelo predador de que são perigosos.
Nota: embora em jeito de história é tudo verdadeiro.
Gostaram?
Agora, vou-me deitar e sonhar com borboletas Monarcas. Penso, que deste vez, não terei insónias.
Até logo.
Excelente. E uma escrita diferente das tuas habituais histórias.
Caravela 28-03-2003, 08:59 Oh Mohandas:Gostei....até morrer estamos sempre a aprender!!!!Eu pela minha formação sou um curioso dos fenómenos biológicos.Ando sempre quando tenho disposição na pesquisa!!!!Mas esta era para mim totalmente desconhecida....Obrigado... e manda mais! :cool: :cool:
espectaculo !!!
tá o máximo !!!
tá... sei lá.
boas amigo.:D
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