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Memórias do Ventor

Ventor
04-04-2003, 21:12
Pois, memórias!

Aqui, se me for permitido, colocarei pequenos retalhos das minhas memórias que o meu disco rígido de côr cinzenta, foi registando através dos tempos já cobertos de bruma.
A luz está cada vez mais a ceder o lugar à penumbra e com o decorrer do tempo, quem sabe quando, chegará a escuridão total.
Por isso, partilharei aqui convosco, como vinha fazendo no Cantinho do Ventor, um pouco das minhas memórias fragmentadas com tentativas de laivos de luz.

Aqui tentarei desfragmentar as brumas do tempo e exibirei alguns pedaços de trilhos que ficaram marcados nas areias húmidas de uma praia algures nas costas de um mar qualquer!

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A procura de outras dimensões

Tentarei conseguir alguns momentos de descontracção que nos diluam as tristezas causadas pelos tropeções dados nas más horas desta nossa caminhada.

Escreverei de tudo um pouco e espero que juntos caminhemos, lado a lado, na procura do ponto ómega imaginário deste universo de amigos que, juntos nesta nova Távola Redonda, Oval ou de qualquer outro formato geométrico sabemos, se encontra debaixo desta abóboda celeste, preenchida de um belo azul, salpicado de trémulos pontos brancos, sob o qual se formam lindas flores que podem ser de pétalas rosa.

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A côr do amor

Ventor
06-04-2003, 23:02
Um silêncio gritante na noite dos tempos!

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A porta de uma corte que podia ser a minha

Ao espreitar o raiar da aurora, meti a cabeça fora da janela e senti o esbofetear da gélida madrugada! Reparei nas ervas das hortas e brilhavam. Fora a noite no seu pranto que ali depositara as lágrimas da sua tristeza. Era o orvalho da manhã!

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Lá longe, no horizonte da madrugada, Vénus sorria pálida, quando Apolo já varria do firmamento aqueles trémulos pontos brancos que teimavam em segurar-se alcandorados na abóbada celeste.

Eu passei as mãos pelo rosto gélido da frescura matinal, calcei umas botas, desci as escadas e dirigi-me à corte onde a Cereja se preparava para dar à luz mais um vitelo ou vitela que, não tardaria muito, seria uma nova alegria que me acompanhava naquela festa permanente da vida.

Quando desci, estava a minha irmã, já uma jovem senhora, a tentar tirar o leite à vaca que apressada se preparava para marrar num belíssimo vitelo acabado de nascer. Ventor traz-me um alguidar! Voltei atrás buscar um alguidar de alumínio, e passei-lho. Ela estava a tentar tirar da vaca o leite que serviria para fazer, num tacho, os nossos carouchos.

Ouvi-a gritar por meu pai que a vaca queria matar o vitelo à cornada! Ele já vinha de outra corte e ao aproximar-se, diz-lhe para se afastar que ele mugia a vaca, pois estava com medo que ela saísse ferida daquela luta. Ora um, ora outro, entretinham-se a puxar o leite que o teto da vaca se recusava a dar.

A caneca já ia a meio e o pouco leite que a ia enchendo era esvaziado para o pequeno alguidar, para evitar que se entornasse. Meu pai tirou-lhe a caneca da mão e continuou o trabalho, quando a vaca se lembra de lhe aplicar um pontapé na caneca dando-lhe um banho de verdadeira alvura matinal! A vaca estava numa terrível azáfama, na tentativa de dar cabo do bezerro e berrando tão alto que acordava a aldeia toda! No decorrer do dia, com uma mansidão, quase divina, meu pai consegue fazer com que o animal aceite mais aquele filho e o passe a alimentar.

Sempre que aquela vaca dava à luz, era um inferno naquela corte! Era uma luta constante até a fazer compreender que as dores que tivera eram apenas a natureza a fazer o seu curso. Mas com o tempo, tornar-se-ia na mãe mais dócil que se pode imaginar!

Eu juntei as outras vacas e faço mais uma leva, serra acima, enquanto olho para as alturas e vejo o meu amigo Apolo a descer a encosta, secando as lágrimas derramadas pela noite que se tinha vestido de tristeza e vertido as lágrimas do seu pranto pela morte de um amigo com 96 anos – o ti Cortez!

Ao chegar, galgando toda a montanha até ao fundo do vale, fui ver a felizarda da Cereja já encantada com o seu rebento, lambendo-o e preparando-o para a sua apresentação decente à família. Subi as escadas e, à minha espera, estava uma belíssima tachada de carouchos para repor as energias perdidas na subida e descida da serra onde as outras vacas, desconfiadas, olhavam em volta a tentar descortinar por onde andaria a Cereja.

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Para mim, ficava a alegria de mais um vitelo, e a espera pela tristeza de o ver desaparecer em mais uma das feiras que, no Soajo, se chamam de “Primeiro”. São feiras onde se vendem e compram algumas coisas e, fundamentalmente, os gados. Mas enquanto aguardava essa tristeza, que seria real, num futuro próximo, tinha já presente esta outra. Nunca mais ver o ti Cortez, com o seu barrete saloio, que tinha comprado em Colares, nos seus tempos de moço, e que usava galhardamente, como se de um autêntico bem e único, se tratasse. Ele ia deixar de estar, sentado num banco de granito, ao sol da tarde, com o seu olho lacrimejante, a me pedir: “Ventor, quando subires a Férrea, não te esqueças de virar as minhas ovelhas para a porta”!

Assim, como um poema que se derramou sobre o corpo da vida, se verteu sobre mim a emoção da vida e da morte, numa pequena aldeia de montanha, numa manhã alba e orvalhada, onde a voz do silêncio continua gritando eternamente.

Cali
12-04-2003, 23:35
homem, tu és um espectaculo a descrever coisas simples e aparentemente sem interesse.

És um verdadeiro contador de histórias ! Que pena tenho de não ter o tempo livre de outros tempos para ler atentamente tudo o que escreves, quando abres o teu livro de memórias.

Tambem tu és outra das pedrinhas mais brilhantes que bateram no telhado da velhinha, na história do Mohandas (já leste?), e que vieram parar aqui, á nossa arvore, para nossa sorte.

Obrigado, Ventor, e não chores pelo ti Cortez. Decerto, ele viveu a sua longa vida de forma mais coerente do que qualquer de nós hoje em dia conseguirá fazer. E esclarece-me por favor : o que raio são os "carouchos" ?

Témis
15-04-2003, 00:25
Ventor, como diz o Cali, tu és realmente um espectáculo!

Descreves essa memória como uma coisa vivida ontem e, pelo que dizes, já foram uns bons pares de anos.

Diz à gente o que são os carouchos!!!!

Ventor
24-04-2003, 01:03
Domingo de Páscoa, há 35 anos
Foi exactamente em 14 de abril de 1968. Algures nos confins de África, numa terra chamada Marrupa, distrito do Niassa, norte de Moçambique – era domingo de Páscoa!

Por isso preteri a data exacta e cinjo-me ao domingo de Páscoa!

Cheguei a Marrupa, em 06 de Abril de 1968. Na véspera, em 05 de Abril desse ano, um Tenente da Força Aérea, aproximou-se de mim, na Sala de Operações do AB6 e disse-me: “Ventor, precisamos de um homem em Marrupa, és capaz de me aconselhar quem devemos enviar”?
A minha resposta foi: “agora ou amanhã de manhã”?
Ele disse: “Num espaço de oito dias”!
Respondi: “já tenho a mala feita, estou pronto a arrancar”!
“Não, não! Precisamos de ti, aqui”! “
Em Marrupa” – disse eu!

Nesse momento, entrou, na sala, o nosso comandante operacional, à altura, Capitão Mantovani e disse: “o Ventor, se não lhe faz diferença, parte comigo, amanhã de manhã para Marrupa, num T-6. Fazes a mala e iremos logo cedo se o tempo estiver de feição. Preciso de um homem de confiança, em Marrupa e tu, fazes-nos mais falta lá que aqui! Além disso, eu sei que tu estás mortinho por avançar para Marrupa! Só vais ter que estar lá dois meses. Além disso, será contigo”!

No dia seguinte de manhã, 06 de Abril de 1968, parti com aquele bom homem que Deus guarda junto de si, para a maior aventura da minha vida, que durou pouco mais de 8 meses! Aí, começamos a forjar as primeiras operações independentes da Força Aérea Portuguesa que se iam dar por terras de Moçambique!

Na descolagem tínhamos três amigos e à medida que o avião esmagava nos seus rodados a pista do AB6, em Nova Freixo, reparei nos seus braços no ar, dizendo adeus e que iam esperando pelo regresso. Por baixo da asa direita do T-6, Nova Freixo, erguia-se no seu esplendor para o céu azul, com umas nuvens (cúmulos) aqui, outras acolá, num aceno permanente de, até breve! Na minha mente, levava, apenas a vontade de cumprir o dever que me ia ser confiado, na hora de matar ou de morrer, por razões que não interessavam a não ser apenas e só, a vontade de continuar a acordar todas as manhãs!

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Á saída de Nova Freixo, sobrevoamos as suas belíssimas montanhas, que ficavam a Noroeste e de entre as nuvens eu apreciava os seus belíssimos “Inselbergs” bem enterrados no coração daquela linda terra africana! O sol da manhã fazia a terra esvaziar os vapores do seu cansaço nocturno e, rumo a norte, as verduras de África, com florestas galerias enterradas na savana, junto às linhas de água, mais não eram que uma permanente saudação à passagem do Ventor!

Mantovani, só olhava para trás, fixando-me, como que, a dizer-me que maravilhosa era aquela África! Fez umas piruetas, em hélice, em volta do maior “inselberg” e eu olhava e pensava que, se tivéssemos o azar de encostar nele, como seria belo aquele escorregadouro para a morte! Voamos por cima de árvores “ervilhas”, pois é assim que elas nos parecem! Lá no ar, vemos em baixo, aquilo que nos parece um prato com ervilhas verdes redondas!

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Após uma hora de voo, depois de assistir a maravilhosas paisagens, lá no fundo, bem em baixo, a pista de Marrupa, mas antes, ainda iríamos fazer uma passagem baixa por cima do Comando do Sector E – o Comando das Forças Terrestres do Centro Norte de Moçambique! Um grupo de militares acenava a dar-nos as boas-vindas, e ao aproximarmo-nos da nossa pista, lá estavam novos braços no ar, na saudação da praxe. Enterrada no matagal, a 15 Kms da vila de Marrupa, ficavam a pista e o aglomerado de casotas que iriam ser o meu mundo até que Deus o quisesse!

Saltamos do avião, retirei o meu pára-quedas, olhei-o fixamente e disse: “que seria de nós se tivéssemos ficado pelo caminho”?
Ainda hoje não sei, se saltando, seria capaz de o abrir! Á nossa frente, estava o Bar, de porta escancarada como a dizer-nos: “até podia ser, mas para já, vão beber mais uma Laurentina”!

Do dia 06 a 14 de Abril, fiz o meu trabalho de rotina (ou de sapa se preferirem), pois as grandes operações tinham sido adiadas. Chegou assim a minha primeira Páscoa em terras de África. Tinha chegado um avião e com ele, um saco de amêndoas vindas da África do Sul! Era meio dia e o comandante do Aérodromo disse-me que tínhamos de as dividir. Éramos 60 homens, faltavam 6, e as deles, ficaram guardadas, e depois de as contar davam exactamente 3 amêndoas para cada um! Todos receberam as suas 3 amêndoas e eu ainda hoje, sempre que chega o domingo de Páscoa, presto a minha homenagem àquelas três amêndoas e aos meus companheiros da Guerra!

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Todos os domingos de Páscoa como, religiosamente, apenas e só, três amêndoas – uma rosa e duas brancas! Posso empanturrar-me de amêndoas, antes ou depois, durante todo o ano, mas esse dia é apenas para três amêndoas! É o processo que tenho de homenagear aqueles outros 59 homens que comigo partilharam aquele pacote de amêndoas e um belíssimo dia de sol!

Mas o mais interessante de tudo é que na noite anterior ouviu-se um tiro solitário. O sentinela tinha ouvido rostolhar na zona escura do capim e enviou para lá uma única bala de alerta. Sentiu um “barulhito” e nunca mais ninguém quis saber do incidente. Ao colocarmos as nossas mesas para a celebração do almoço da Páscoa, apareceu por ali um cheiro nauseabundo e tivemos de saltar fora do arame farpado e procurar de onde vinha o cheiro.

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Dois corvos, fizeram-nos o seu cumprimento, “grá-grá” e dirigimo-nos para aquela zona. Já tinham arrancado os olhos ao bicho que tinha sido morto no tiro solitário, no silêncio da noite anterior. Era uma espécie de gnu que se aproximou da zona de perigo. Tivemos que o queimar com gasolina para acabar com o mau cheiro e não incendiar o capim. Foi um trabalho árduo que nunca mais vou esquecer!

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Depois veio o nosso almoço e as nossas três amêndoas.
Eu fiquei com as minhas 3 e mais 12. Estas doze, fui eu próprio levá-las aos postos em cujas torres de vigília estavam os 4 homens que garantiam a nossa segurança. Aposto que, tal como eu, nunca mais comeram amêndoas tão saborosas.

Bom domingo de Páscoa para todos.

E, um abraço,

Ventor
03-05-2003, 23:37
Vou falar-vos de um amigo

Em Julho de 1969, parti num C-47 (Dakota), de Nova Freixo, para a cidade planáltica de Vila Cabral, hoje rebatizada de Lichinga. Logo no dia da chegada, fui fazer a minha exploração da “grande” cidade, para a época, o momento e o local. Arranquei com um colega, e fomos beber uma cerveja laurentina ao grande café, chamado Café Planalto. Andamos por ali a ver tudo de importante e encontramos mais dois amigos, e nas nossas deambulações por tudo que é sítio, o que todos mais gostamos de ver, foi o grande pinhal em volta da cidade. Aquilo já não nos parecia África! Reparamos na igreja, nas ruas centrais, embebecemo-nos com o pôr de sol e pelo lusco-fusco e já noite dentro, encontramos um jardinzinho e um baloiço. Como não havia ninguém, sentámo-nos a conversar nas cadeirinhas e começamos a andar de baloiço. O baloiço parecia que foi feito à medida, pois tinha 4 cadeirinhas para estes 4 lorpas que, em plena guerra, já tinham saudades de voltar a ser pequeninos e rimo-nos a pensar se seria necessário voltar a repor o baloiço.

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Uma amostra de pinhal

Durante a tarde, tinha dito à rapaziada que, no dia seguinte, pela manhã, podíamos descer aquele pinhal até à represa de águas que se via espelhada lá no fundo, e assim foi combinado. Não foi no dia seguinte, mas foi no outro. Descemos a picada a pé, observando os passarinhos que saltitavam à nossa frente, olhamos a represa e aquelas encostas de montanhas de paisagem espectacular, a perder de vista e, como o calor começou a apertar, resolvemos fazer a subida da encosta rumo à Base!

Mal nós começamos o regresso na picada, ouvimos tiros à nossa esquerda e o pior é que as balas começaram a rasgar a folhagem dos arbustos e dos pinheiros ao lado da picada, junto de nós, fazendo o pó esbranquiçado levantar voo à nossa frente. Começamos a dizer mal da vida! Lançamo-nos para a berma alta onde havia alguma protecção e uma das balas fez chapinhar a água que escorria da valeta, junto da minha cabeça, salpicando-me a farda, cor de café com leite. Comecei logo a pensar que, se saísse daquela, os gajos que não queriam que eu voltasse a beber uma laurentina naquela bela cidade iam pagar bem caro pela afronta de atacar o Ventor! Porque aquilo parecia mesmo um ataque e, ainda por cima, contra 4 militares desarmados que apenas estavam estupefactos com tão lindas encostas de pinhal que mais parecia das serranias do nosso maciço central

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Chegados à base, ripo dos meus planos para o contra ataque, mas eis que pela picada, rumo à Força Aérea, vinha um jipe na brasa e que deveria ser de algum militar que estaria muito aflito ou então estaria a entrar nas raias da paranóia.
Salta do jipe um gajo de camuflado, espavorido e parece que até adivinhava, pois dirigiu-se-me a perguntar: “quem tinham sido os cab**** da Força Aérea que tinham estado junto da represa, no dia e na hora de treino das milícias”? Fiquei a olhar para ele e a pensar que lá teria ido a minha grande caçada!

Olhei para ele, de camuflado, em cabelo, sem divisas nem galões, com uma certa idade, mas sem a aparência de sargento lateiro e, isso, fez-me uma grande confusão!
“Mas que é que o senhor quer? Fomos nós que estivemos lá e queremos saber quem foram os filhos da **** que nos quiseram matar”!
Ele avança para mim em tom ameaçador e de murro feito, a dizer: “eu sou transmontano, e ... e eu dei um salto à rectaguarda pronto para o contra-ataque (belos tempos!), a dizer que era minhoto e comia transmontanos com rabanetes ao pequeno almoço e bla, bla, bla, de um lado e doutro, mas não passou dali, porque ele gritou logo que toda a gente sabe que em determinados dias da semana não se podia ir para a zona de tiro das suas milícias e que a nossa sorte tinha sido um dos seus homens ter dado pela nossa presença e fazer calar os outros, senão ficávamos como passadores!

Eu estava em frente de um dos homens mais célebres da nossa guerra, em Moçambique. Um transmontano, de nome, Francisco Daniel Roxo! Ameaças de um lado, contra-ameaças do outro e eis-nos a beber uma laurentina no nosso Bar - o Calhambeque!
Um dia, apareceu uma grande parangona, no Jorna de Notícias, de Lourenço Marques, uma “Carta aberta a Francisco Daniel Roxo”!
Nessa carta, alguns notáveis de Lourenço Marques, diziam ao Roxo que haveria para ele naquela cidade, qualquer emprego a seu gosto, onde deveria gozar um merecido descanso, na cidade das acácias, após tantos anos de combate.
Este homem contou-me a vida dele, que era de Vila Real, que tinha ido para Moçambique, subido até ao Niassa, precisamente em Vila Cabral, onde abraçou a carreira de caçador profissional e se juntou com uma preta da terra que era a mãe dos seus filhos e que aquela era a terra onde muito bem poderia morrer descansado, etç. etç.!

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Este homem, subiu logo uma data de furos na minha consideração, quando disse que ali era a sua terra e ali estava a sua gente e era por eles que deveria continuar a luta que lhe fora imposta, em 1964! Foi neste ano que a grande ameaça caiu sobre Vila Cabral. Uma pista de terra batida fora feita à pressa para os aviões lançarem rolos de arame farpado para cercar Vila Cabral, transformando uma cidade livre, numa fortaleza. O arame farpado tinha sido descarregado mas não foi preciso, as tropas eram poucas e na guerra de guerrilha não se vê a cara do inimigo, mas Roxo oferecesse a si e aos seus homens para defender aquela cidade, mediante determinadas condições. Organiza os seus amigos todos de cor em autênticas tropas de defesa e diz ao Governador Civil que apenas pretende ter naquelas fileiras os seus homens que conhece bem e que confia neles melhor que nos brancos! Eles conhecem o terreno, eles conhecem as pessoas eles sabem onde e como actuar e os inimigos do povo de Vila Cabral não avançarão sobre a cidade porque ele e os seus homens não iriam deixar!

Foi assim que conheci esse grande transmontano com quem tive o privilégio de, durante seis meses e meio, partilhar as laurentinas, as Mac Mahon e as Manicas e a vontade de defendermos juntos, com muitos outros compinchas, aquelas terras e aquelas gentes contra o que era consignado chamar-se, dos “turras” e da vilania internacional!

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Um dos mandatados

Um dia, mais tarde, depois do 25 de Abril, ia a passar numa rua de Lisboa e vi num jornal, por acaso, também “Rua”, um título:
“Adeus Comandante”.
Comprei esse jornal, com a sensação que algo iria mal e aquela frase tinha a ver comigo, um conhecido, um amigo, quem sabia? Era realmente o Francisco Daniel Roxo, que tinha sido apanhado por uma granada de bazuca, cá mais para baixo, a aproximar-se mais de Lourenço Marques, mas agora em poder dos seus inimigos, na luta entre a Renamo e a Frelimo! Ele dizia que as granadas de bazuca se desviavam dele e, por isso, teriam de inventar uma arma para o matar. E segundo disseram, foi exactamente por se ter desviado dele que essa granada o matou! Desviou-se e ao embater na árvore ela ricocheteou fragmentando-se em mil pedaços sobre ele.

Todos temos uma hora! O Roxo teve a hora dele, “na sua terra”, na terra da sua mulher, na terra dos seus molatinhos! E hoje, cerca de trinta e quatro anos depois, aqui estou eu a falar-vos de um amigo e de coisas que muitos de vocês nunca chegarão a entender – a génese da guerra. Tanto sacrifício! Porquê e para quê?

Até sempre, Francisco Daniel Roxo

Ventor
14-05-2003, 17:22
Limpando uma gaveta.

Um dia, em Marrupa, Moçambique, num dia de Maio de 1968, durante uma pausa na guerra, decidi limpar uma gaveta, daquela que desde 06 de Abril, passou a ser a minha secretária. Toda a gente sabe que é preciso limpar as gavetas das secretárias e mais ainda quando as herdamos de outros que por lá passaram. Sempre tive por mania, limpar as gavetas e desinfectá-las com álcool. A falta de álcool foi uma das razões do atraso, porque eu queria fazer o trabalho bem feito!

A secretária tinha três gavetas e eu tinha limpo e arrumado uma, mas ainda faltavam duas e essas esperaram por um dia melhor. Ao limpar a gaveta vejo lá um despacho do Comando Militar de Moçambique. Entre toda a literatura relativa a estatutos de guerra, fixei dois parágrafos. “È proibido a todo o militar cantar ou usar a letra das canções de guerra que focam os Cabeças de Ouro, Cabeças de Ar Condicionado .... e também, cantar uma canção que tem por título: o “Hino do Lunho”!

Como todos, não liguei pívia, pois a própria vontade de cantar não existia e daí, não viria mal ao mundo. Mas as coisas nunca são exactamente como nós pensamos como vão ser e, na verdade, naquela leitura a que não liguei pívia, havia, de facto, razão para ser preocupação de alguns!

Uns dias depois, quatro felizardos, da Força Aérea, fomos convidados para a inauguração de um novo café restaurante em Marrupa. Já não me recordo do nome, mas tenho a certeza que era um arranjo de letras que serviram para inventariar uns palavrões para matar saudades da santa terrinha.

Comemos, bebemos, festejamos e, de repente, na altura da festança, vi um militar do exército, aquilo eram aí 98% de militares, pegar na sua viola e cantarolar uma cançãozinha. Depois, outros se juntaram, e veio outra, e mais outra, e ouvi também lançar um desafio aos quatro marmanjos da Força Aérea que estavam presentes.

Houve uma resposta da minha parte, em forma de descasca pessegueiro, mas tudo mudou. Nós não dávamos luta e a hora caminhava acelerada, noite dentro. De repente, ouvi uma das canções críticas dirigidas aos tais Cabeças de Ouro. Era uma crítica à guerra, aos comandos de topo, e de uma maneira geral a tudo que se desenvolvia à nossa volta, mas era uma crítica, na época, em 1968, ainda feita aos Cabeças de Ouro, Cabeças de Ar Condicionado, mas em nome da guerra e não contra ela! Aos homens que não percebiam nada de guerrilha, ao “turra das minas”, e enfim às razões porque se morria sem levar o combate ao auge da razão de ser de uma guerra. Isto é, à razão porque havíamos de morrer, se tínhamos possibilidades e valia mais matarmos!
Mas a guerra é uma acção muito complicada!

Eu ainda não percebia nada daquilo, mas passei a perceber! Em forma de homenagem à Força Aérea e aos seus camaradas de outras paragens, aquela rapaziada, cantou para nós o Hino do Lunho! No meio deles, estava o Comandante do Sector E – um brigadeiro – de boné ao ombro, confraternizando com os seus homens e a cantar uma das canções anatematizadas!

Lembro-me de uma passagem em que dizia mais ou menos isto:

... “ esta ordem é mesmo de artista,
Arrasar o Lunho, arrasar a pista,
Deixa contente qualquer terrorista!

basta apenas levantar o punho!
Cumprir a ordem e arrasar o Lunho!
....

Esta canção foi feita por um punhado de militares que tinham por missão guardar uma pista de terra batida incrustada algures nas terras do Niassa. Era uma espécie de penico ao estilo de Dien Bien Fu. Apanhavam cacetada, porque das montanhas em redor lançavam sobre eles morteirada e fogo de canhões. Tornava-se difícil defender aquela terra de ninguém, onde só havia um jogo: toma lá, dá cá!
A nossa tropa batia as montanhas em volta e a Força Aérea ajudava como podia, mas a ordem chegou:

..." por ordem deste comando, todas as tropas devem deixar o Lunho, e para tal, devem destruir a pista" ...!

A recusa foi total e cerca de um ano e tal depois, ainda lá estavam, não os mesmos, mas outros homens, com os mesmos objectivos - defender o Lunho!

Mas é cantada do fundo do coração e é uma ordem real, à qual ninguém obedeceu. Um ano e tal depois aterramos na pista de terra do Lunho. Ali eu achei dever prestar tributo aos meus companheiros de terra! Ao avançar pista fora, e ver aqueles homens de costas para a pista, metralha para o mato, a proteger-nos a nós e ao avião que ia lá buscar um dos turras, que queria matá-los, e nós e eles tínhamos por objectivo salvá-lo!

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Um PV-2 Harpoon

Na ponta da pista, um velho PV2 encostado à box para sempre, em homenagem aos que prosseguiam. No seu seio, alguns companheiros da defesa da pista. Estamos aqui por ele, que fez tudo para ajudar os que nos precederam, mas tombou e nós estamos aqui, nesta pista em sua homenagem, lutaremos pela pista do Lunho até à morte! Isto foi na segunda metade de 1969! Mais de um ano depois de eu ouvir o Hino do Lunho, pela primeira vez, em Marrupa!

1969, foi o ano em que eu conheci o Lunho, e a sua pista de terra batida. O ano em que eu disse ao Inspector da DGS, em Vila Cabral, que não dava mais de quatro anos para tudo ir por água abaixo! O ano em que eu estive para ser preso, pelo estado Maior da Força Aérea e pela DGS! O ano em que o meu comandante me quis junto dele, para não ser fácil a minha prisão e eu neguei a ordem! O ano em que eu desafiei o mundo, o meu mundo, e venci-o!

Ventor
15-05-2003, 15:17
Um dia conheci um amigo.

Mais um entre muitos que por aqui deambulam comigo.
Este já morreu. Foi mais um dos que se perdeu na roda do tempo. Mas este deixou algo para a posteridade. Deixou uns livros de poesia e eu tenho aqui uma oferta que ele fez à minha mulher, pois dizia que “sabendo que eu é que iria ler, as ofertas fazem-se às senhoras”!

Este livro chama-se:

Dans Cet Espace ...
Vivez ! … Vivons ! …

"Cést un petit souvenir de l’auteur à madame …, et mes meilheurs vœux d’heureuse et long vie.
Amadora, 30 de Outubro de 1982".

Este homem era um Engenheiro famoso de nacionalidade suíça, filho de judeus, que adoptou Portugal como sua segunda pátria! Viveu em Espanha, em Marrocos, nas Canárias e em Portugal, o “país das maravilhas”!

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A sua história é cheia de vida, de confrontos de beleza. Também ele era um homem de corpo inteiro. Era judeu, portanto, um homem!
Viveu uma vida de conflitos, e lamentava-se, falando comigo, como adorava o pai e como nunca se entendeu com ele!

Gostava de conversar connosco, de falar dele e das terras por onde tinha andado, e fundamentalmente, de Andorra, onde ele, segundo me dizia, aprendeu a ser homem!

Em Andorra, com o estatuto de Engenheiro, ele era adjunto de um outro que tinha traçado os planos para a primeira barragem daquele país maravilha, no leito do rio Valira. Mas esse outro Engenheiro teve um colapso cardíaco e foi-se! Este meu amigo, à altura, um jovem Engenheiro, sem experiência, segundo me disse, ficou entrincheirado entre o colapso, de outro tipo, ou a glória!
Escolheu a glória. Afinal era um adjunto! Passou a coordenar todos os trabalhos sobre a barragem. Aí começou a fama do meu velho amigo Edmond Dardel!

A 2ª Guerra Mundial, perseguiu-o através dos nazis, razão porque decidiu aceitar essa viagem até Andorra e ele, aguentou os trabalhos da barragem e depois, refugiou-se, em Portugal, o tal país fascista que perseguia os judeus, segundo se diz, talvez por conveniência de uns tantos, como no caso de um tal senhor que era consolado de Portugal, em Bordéus! Não digo o nome para vocês puxarem pela cabeça!
Este homem, disse-me muitas vezes, o quanto amava este país, o seu Governo e as suas gentes! O mesmo terá dito Calouste Gulbenkian, e por o dizer, é que permitiu que a sua fortuna fosse gerida através de Portugal, os tais perseguidores! São histórias muito complicadas que só interessam a uns quantos, aqueles que podem torná-las em jogos de conveniência política!

Ao Edmond Dardel, um desconhecido ou pouco conhecido do povo português, um homem a quem tanto devo por apenas uns dedos de conversa, umas gírias de conhecimento, uns desabafos, as minhas sinceras homenagens!

Morreu com 96 anos e parecia-me um jovem!

Continuarei esta conversa de memórias,

Ventor
22-05-2003, 22:50
Alentejo lindo!
Já cheguei e apetece-me falar do Alentejo.
Adoro aquela terra toda, mas muito especialmente, Vila Nova de Milfontes. Falo nessa terra porque é onde eu costumo ir, como já tenho dito, ouvir cantar o cuco. Quase toda a gente conhece Milfontes, o rio Mira e os sempre presentes cabeços da serra do Cercal.

Adoro entrar por Milfontes e dirigir-me à rotunda do Farol. Encostar o carro e sentar-me no paredão a “mirar” o Mira, olhar lá ao fundo, pendurados no horizonte os tais cabeços do Cercal e as suas encostas a escorregar sem pressa, para beijar as curvas do rio! Este há muitos anos, tem sido o meu rio. Segundo se tem dito, era o único rio não poluído da Europa. Mesmo que não seja verdade sabe bem! Incute esperança às gentes.

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Rio Mira

Adoro toda a costa alentejana, mas este pedaço de costa contenta-me verdadeiramente! É completa. Tem mar, tem rio, tem serra e tem bosques! Bosques lindos, onde os passarinhos são uma companhia mágica para quem neles gosta de caminhar. Mas, quando eu digo caminhar, não me refiro a fazer os 100, 200, 1000 metros! Refiro-me a, no mínimo, 10-15 Kms!

Na costa alentejana lembro-me de todas as paisagens e imagino o Rui Veloso ancorado nas falésias de Porto Covo a descascar a tal laranja, mesmo que imaginária, debruçado sobre o mar a ver uma semente ou outra mergulhar na espuma branca da última batida de Neptuno contra a rocha negra. Vejo-o sonhar com o tal pessegueiro que o tal mouro de Odemira ali plantou e a pensar, imaginando, quão saborosos terão sido os seus pêssegos!

Mas eu volto a Milfontes e aos primeiros encantos que me incutiu. Eu já conhecia Milfontes, de passagem para o Algarve, era nosso costume ir ao Farol saudar o local e a sua topografia envolvente. Durante anos era assim! Mas um dia chegamos e ficamos! Ficamos numa casa alcandorada sobre o Mira. As gentes eram boas (ainda são), e se digo eram, é porque alguns já cá não andam. Já se foram os amigos Amílcar e Tomás. O primeiro caminhava conosco, o segundo dava-nos as boas vindas. O primeiro era o dono da casa, o segundo era um vizinho que dava conta. Em baixo, o rio saudava-nos e os bosques da sua margem direita eram o palanque da música, debruçado sobre as águas límpidas. A orquestra, sempre que chegávamos, tinha trabalhado o afinamento. Agora, ao cair da noite, com o sol a subir na margem esquerda, eram-nos escancaradas as portas da música.

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Rio Mira

Do lado de lá, as cabrinhas da Sinha do Agreste! Sobre as fragas, ou no meio do bosque, lá estavam elas. Chamava-lhe eu as cabrinhas da Sinha do Agreste! Eu via Apolo subir a encosta, um pouco anafado, a contar as cabrinhas e a dizer até amanhã. Eu ainda descia o carreiro a pique até ao rio, cheirava os salgueiros os carriços, os chorões, as estevas, as silvas de amoras e o perfume dos eucaliptos ali perdidos. Todo o matagal fazia daquele pedaço de terra uma autêntica perfumaria de imbatível odor. Ali, até ao lusco-fusco, eu caminhava na margem fresca do Mira a meditar, que lindo era o mundo, e que mal o sabemos aproveitar!

Da varanda, encostado ao parapeito, olhava o horizonte claro e escutava o último chilrear da passarada e em nosso redor, as últimas andorinhas, nossas vizinhas, que apanhavam os últimos insectos da ceia, regressavam a casa, na esquina da varanda, que tinham deixado do ano anterior e já reparada, ali diziam, “até amanhã Ventor”! Quando as pequeninas caíam do ninho, nós preparávamos os primeiros socorros e incutíamos nos pais a confiança necessária para que lhe dessem a comida. Que belos bichinhos as andorinhas, e que linda companhia!

Nos últimos anos, ainda tive o meu Rafinho por companheiro, soltava-o no quintal da casa e guardava-o por causa dos gatos e mal eu entrava porta dentro, ele corria logo atrás, pois nunca confiar no desconhecido! Nos últimos anos de 1997 a 2001 ainda lá foi comigo e com o meu Quico algumas vezes! Dormiam junto de nós, no quarto e iam juntos ao quintal e tinha o Quico por guarda-costas!

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Rafinho

Num dia seguinte, num mês qualquer, de qualquer ano, lá ia o Ventor, ténis nos pés, estrada fora, rumo a um objectivo qualquer, no meio dos bosques, junto dos melros dos pombos, das rolas dos gaios, das felosas e de quando em vez, num canto especial, o cumprimento do meu amigo cuco! Saltando matos e riachos pisando tojos e silvas, Milfontes deu-me muitas vezes os nichos de matagal e de beleza que no norte me esperava. Ainda hoje tenho inveja dos tempos que fazia, em longa correria, os caminhos do Malhão ou das Furnas.

Fazer toda a encosta de falésias do Farol á praia do Malhão, só, por entre rochas e carrascos floridos de amarelo, no meio de cabeços arenosos, ouvindo o rostolhar do mar, lá no fundo, de encontro às rochas desprotegidas, numa surra permanente, sem dó nem piedade, batendo na tentativa de as amolecer, para fazer jus ao ditado que, “água mole em pedra dura, tanto dá até que a fura”!

Depois, cansado e cheio de sede, sentado numa pedra, sem laranja para descascar, chega a hora do tudo ou nada! Inverter o trajecto inicial, traçar a rota no campo, ainda desconhecido, fazer uma correria, em corta mato de atalho, sempre com o nariz apontado para o local que vai servir de meta.
Já quase sem líquido no corpo, mais bacalhau seco que chicharro acabado de apanhar, lá vai o Ventor, fazer secar as últimas gotas, essas sim, transformadas nas tais mil fontes por onde se fazem os últimos escorrichos de líquido! Foram 48 minutos a correr ou a voar, sei lá, mas a meta estava lá, e lá também estava a água, a cerveja, o meu martini, tudo! E nesse tudo, estava a serenidade do rio Mira! Tão sereno como o sereno Alentejo, numa hora de calmaria, e também o carapau assado, o entrecosto, a sardinha ou uma outra qualquer iguaria, que tão bem sabe em Milfontes!

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No inverno este aquecedor, era a companhia do meu Rafinho

Um pouco antes do cair da noite, o Mira torna-se tão sereno que fica lá em baixo, como um espelho. E se for tempo de lua cheia, ali está Diana, sorridente a espreitar por debaixo da água e a dizer: “olá, Ventor! Escuta as felosas e os rouxinóis do Mira, e repara que não há diferença entre o Mira e o Eufrates dos velhos tempos”!

Ventor
22-05-2003, 23:29
Um Quintal à Minha Frente
Hoje é o dia da LIBERDADE!

Se calhar muita da gente que anda por aqui, não sabe o significado que essa palavra tem. Talvez saibam em termos teóricos, mas não saberão em termos práticos! Nenhuma da gente nova, sabe o que são perseguições, sabe o que são perder parte da família, uns dentro, na prisão, outros fora!

Poucos saberão o que são a rigidez e a monotonia legal de um Regime Político. Poucos saberão o que é ter pai ou mãe, ou irmão, ou amigo, dentro de um tasco, sem bebidas! Querer beber e mendigar a água! Querer comer e mendigar o pão; querer cantar e pedir emprestada uma garganta que não há; querer ler e não ter livros, jornais ou revistas; querer música e não ter com que a fazer, e se tamborilar com os nós dos dedos numa mesa, somar outro castigo, e tudo isto, apenas porque um vizinho não nos agrada e por isso, ele nos odeia!

Á frente da minha varanda, está um quintal do qual já tenho falado. E vou continuar a falar!

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Um aspecto do quintal

Hoje almocei um bom naco de borrego e bebi o café e o wisky na varanda como algumas vezes faço. Olhava a encosta rumo à Brandoa, debaixo de um tecto de nuvens médio e via a chuva descer sorrateiramente à minha frente. Continuei a olhar o quintal dos meus vizinhos, as laranjeiras, a figueira, as oliveiras, as rosas brancas e o roseiral, etç., e, em cima do telhado, estavam dois pombos em que um contava ao outro a história da sua vida, da sua família e da vida deste quintal!

Isto não passa de uma casinha ou de um aglomerado de quatro casinhas, entre as quais, uma em tempos, foi um casarão! Um casarão, uma Padaria que fazia pão para toda a velha Falagueira!

Neste quintal, viveu uma família, um casal mais uma filha! Aqui se travaram algumas pequenas batalhas, contra o regime que bem ou mal governou Portugal durante muitos anos e que faz hoje anos, também por bem ou por mal, foi derrubado!

Aqui viveu um homem chamado “Sempre a Mexer”! A alcunha era outra, mas eu vou deixar esta como devem compreender! O “Sempre a Mexer” era um anti-regimentalista, mas era um homem sério que gostaria de viver num regime comunista. Era um comunista autêntico, daqueles que defendia o preceito teórico daquilo que seria a sociedade perfeita! Aquela que seria a sociedade com que todos sonham, mas que os pragmáticos sabem ser impossível de alcançar!

O “Sempre a Mexer” fazia pão e, segundo me informaram, no tempo da 2ª Guerra Mundial, ele dividia do seu pão com aqueles que mais necessitavam. Por vezes desatava aos tiros a tudo que fosse favorável ao Regime deposto pelo 25 de Abril, se calhar por ter bebido uns copos! Era preso! Levavam-no para os calaboiços do Aljube e depois, dentro de algum tempo, traziam-no a casa e tentavam incutir-lhe juízo, porque os senhores intocáveis não gostavam do seu comportamento!

A vida era ingrata para o “Sempre a Mexer” mas levou o barco a seu porto nas suas lides! A sua mulher, segundo me contaram também, era uma Enfermeira Autodidacta, isto é, aprendeu a mexer com a vida dos outros de uma maneira diferente do marido. Ajudar o próximo mexendo-lhe na pele, nos ossos, em tudo, mas de uma forma ilegal! A Lei não perdoa quando é esventrada e, por isso, quem a violar, nem que seja a Lei mais ignóbil do Mundo, tem de prestar contas à Justiça! Témis!!!!!

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Um pintassilgo nosso vizinho, que fez o ninho na árvore da rua, junto à nossa varanda e, nem sequer, teve medo do Quico!

Esta senhora soube que alguém iria ficar sem uma perna, num hospital famoso da época, mas a pessoa não deixou cortar a perna e terá dito que iria juntamente com ela! A mulher do “Sempre a Mexer”, tomou em mãos a tarefa de que essa perna ficasse boa! Assim foi! Tratou da perna ao desgraçado, amigo ou conhecido e, devido ao êxito pela violação da Lei, quiseram prendê-la e julgá-la – mas quem se atreveria a tanto perante tal êxito?

Tratava de queimaduras melhor que ninguém. Uma miúda, hoje uma senhora, cá da família, caiu dentro de água fervida e despejada num alguidar, foi para o hospital e enviaram-na para casa toda entrapada, com o corpo em bolhas e essa senhora disse que não podia ser assim. Meteu mãos à obra e cortou todas as bolhas entrapadas, limpando e colocando no seu corpo as mèzinhas que ela entendeu e a miúda ficou sem qualquer marca!

Logo a seguir à morte dos pais, a filha do “Sempre a Mexer” adoeceu e foi internada no Hospital de Santa Maria. Pediu à minha sogra para desta varanda lhe olhar pela sua cadela. A bicha estava presa naquele quintal onde, a sua família, umas primas, deviam velar por ela, mas para ter a certeza do cumprimento dessa missão, confiou-a fiscalização à minha sogra.

Tudo o que a gente vê tem uma história e essa história precisa ser escalpelizada para atirar com a verdade cá para fora! Por isso nunca se esqueçam de que nem sempre o que parece é e, às vezes, é-o mesmo sem parecer!

Parece-me que vai acabar o encanto, meu e do meu gato, por aquele quintal! As laranjeiras, a figueira, as oliveiras, o roseiral, vão desaparecer da frente da minha varanda para sempre! Nunca mais vai ser lavada roupa naquele tanque, nunca mais vou comer figos daquela figueira e que bons que eram, e até para os pardais e os pintassilgos e demais rapaziada voadora, aquele resto de mundo vai morrer para sempre! Soube hoje que a família vendeu o quintal e a eis Padaria do “Sempre a Mexer”, para o matadouro da vida!

A máquina trituradora leva tudo à frente. Tudo aniquila ou tudo transforma! Nada fica para contar a história das gentes e das coisas, mas eu registo tudo isso para a posteridade!

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Ventor
12-08-2003, 22:40
Um Monte Alentejano

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A Casa Velha

Um dia saí de Milfontes e rumei à serra do Cercal. Uma parte da família seguiu este trajecto e com ela o mais novo dos rebentos – o Tomás! Seguimos por S. Luis, onde muita das sua gentes acham que a serra se deve chamar Serra de S. Luis. Para mim, continua a ser a Serra do Cercal. Subimos no Land Rover guiado pelo Miguel e acompanhamos os vales e encostas da serra, ao mesmo tempo que via ficar para trás o rio Mira, as silvas, os fetos, as estevas, os tojos, vários arbustos e árvores, e os sobreiros, árvore predominante. Ali matei saudades dos meus montes! O cheiro não era o dos meus tojos, dos meus fetos, das minhas silvas, dos meus sobreiros, mas seria, certamente, pela influência das estevas!

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Sobreiro

Pelos caminhos da serra, estradas florestais, tipo picada africana, encontramos algumas ovelhas aqui e ali, e num local muito aprazível, debruçada sobre o rio, a Casa Velha! É assim que as pessoas das redondezas lhe chamam.

Olhei para esta casa velha e pareceu-me que o mundo que fora, havia sumido juntamente com a sua proprietária, que já não ia à vila há mais de 20 anos segundo dizem! Ali verifiquei como a erosão do tempo, exercida pelos elementos, sobre a Casa Velha, nos faz imaginar o contar dos anos, e com eles, a sua história. Ali se terão vivido vidas simples das pessoas que usufruíram das belezas proporcionadas por aquele cantinho instalado no meio da serra.

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Estevas - Cistus ladaniferus

Das portas daquela casa, das suas janelas e das suas imediações, alguém feliz, contava as ovelhas que desceram a serra, o burro que aguardava a ceia, esperando pela boa vontade que os donos teriam em contribuir para a sua existência familiar, retribuindo-lhe, por os ter transportado para qualquer lugar e até, quem sabe, como uma verdadeiro automóvel moderno, até aos povoados próximos e talvez, até Vila Nova de Milfontes!

Que história terá aquela casa Velha para os vindouros? Pelo local, as pessoas que a habitaram, terão passado por ali, tempos felizes! Ali riram, conversaram e cantaram nas suas lides diárias e verteram lágrimas quando a vontade de Deus trocava as vontades das gentes. Ali terão nascido e crescido rebentos. Ali terão sido sonhados futuros, quiçá inacabados. Ali, como por esse Alentejo dentro ou por esse Portugal fora, outros rumos tiveram de ser tomados na procura de melhores meios para levar a vida, quantas vezes pior que a da solidão dos campos e do cansaço dos trabalhos cruéis que faziam vergar até os mais fortes!

Quantas casas velhas a civilização vergou e cansou sob o rolar dos tempos? Quantas pessoas choram pelos tempos de criança, mas a vida os obrigou a tomar outros rumos, bebendo águas noutras fontes, deixando cair as lágrimas noutros caminhos, sabendo ver o mesmo Sol e a mesma Lua, mas como se fossem de outro mundo e com outros destinos?

Como é difícil a vida dos imigrantes do sonho!

Ventor
23-09-2003, 16:23
Alguém se lembra disto? Claro, que são memórias do Ventor!

Encontro entre Ventor e Marduk

Para cumprir os desígnios que me foram atribuídos pela Esfera, eu, Ventor, parti o fim de semana para terras que já foram a minha Babilónia, a fim de ter um encontro com Marduk.

Mas, Marduk, como sempre , antes de qualquer encontro que não seja de seu agrado, inventa alguma maneira de se esquivar a esses encontros, chegando mesmo a simular falhanços nos azimutes siderais, desculpando-se com encravamentos no sistema, provocados pela explosão de “novas” e deslocamentos de enormes meteoros, derivados das mais diversas intempéries a que todo o Universo está sujeito.

Assim, através do seu Bit Galáctico, comunicou-me o seguinte:

Ventor, lamento ter de te informar, que devido ao embate no meu carro estrelar de um grande meteoro com inicio na explosão da estrela denominada xy12b.hurk do espaço sideral de Grimin.x1z2, estou atrasado cerca de 24 horas contadas na Terra, onde te encontras. Espero conseguir atravessar mais rapidamente pelo buraco negro de Pantopic.y113.z2, coordenada galáctica que, como sabes, é um local perigoso, mas não o suficiente para demover Marduk deste nosso encontro tão importante”.

Perante isto, e já em terras babilónicas, resolvi prestar homenagem ao meu amigo Nemrod, no local onde estão depositadas as suas cinzas, nas antigas terras de Hur. Porém, o seu espírito continua sempre presente perante mim e perante o Conselho da Esfera e é muitas vezes chamado a participar em decisões importantes sobre projectos relacionados com a evolução da Humanidade no Planeta Terra.

Após o meu encontro com Marduk, cujas conclusões serão apresentadas no Conselho da Esfera, onde Nemrod estará presente para participar nas decisões que serão tomadas no porvir desta região do globo, onde se situam as Terras de Hur e o glorioso Reino da Babilónia.

Devido ao atraso de Marduk, encontrei-me com Diana, companheira inseparável das minhas venturas, num verde bosque, nas margens do Eufrates, encostados a um velho tronco que se inclina sobre este lindo rio bíblico um dos quatro que faziam parte do Éden, onde pelos tempos vivemos, como este, muitos dos nossos acontecimentos amorosos.

Diana espelhada no Eufrates

Numa noite quente e amena
Sobre o Eufrates, ao luar,
Diana bela e serena
Fixava-me o olhar.

O que vais fazer Ventor,
Com essa flor tão bela?
Tão impregnada de amor,
Tão linda! Tão singela!

Sobre a água, se espelhava,
Diana em luz cintilante,
E mostrava-se encantada,
À espera da voz trovante!

Eu trago-te esta flor,
De cor de rosa vestida,
Como símbolo do amor,
P’ró resto da nossa vida.

Diana abana a cabeça
E, sussurra-me ao ouvido.
Querido que eu te mereça,
O nosso amor faz sentido.

Junto às águas espelhadas,
Alivia esse cansaço.
Esquece outras namoradas!
Descansa no meu regaço.

Assim Diana falava,
Nessa noite de luar,
Ao homem que tanto amava,
E continuará sempre a amar.

Cansado de tanta batalha,
Ventor já adormeceu.
Com a sua tez grisalha,
Fez as pazes com Morfeu.

Após um belo sono no regaço de Diana, eis o despertar, através do Bit Galáctico de Marduk

q Ventor! Ventor! Ventor!

q Sim Marduk!

q Estou a chegar! Neste momento passo junto a Vénus e já vejo o olhar luminoso de Diana e, sob um chorão verde, a ponta do teu arco, encostado ao tronco. Encontramo-nos junto às ruínas de Hur.

q Junto às ruínas de Hur?

q Sim! Afinal tudo isto é minha terra e minha gente. Gostava de saber que é que tu pretendes, ventor!

q Os tempos são outros Marduk! A terra actual já não tem nada a ver com aqueles tempos em que tu te assenhoraste de Babilónia. É disso que vamos falar.

Assim o carro estrelar de Marduk se aproximava das ruínas de Hur, como uma estrela cadente, assim o meu cavalo branco alado, de olhos cintilantes, quais diamantes reflectores dos raios de Apolo, iluminavam toda a região em ruínas antigas como Hur, Babilónia; Ninive, e outras terras que a história não deixará morrer, nós velhos contendores, de eras passadas, recordamos batalhas ganhas e batalhas perdidas.
Junto às ruínas de Hur, já protegido dos raios vigilantes de Apolo, eu e o meu cavalo alado, com o meu longo arco sobre as rédeas, esperávamos.
A chegar, puxando as rédeas das suas quadrigas, Marduk aproxima-se, já em rodado lento, do meu cavalo alado.

q Diz-me Ventor, porquê tanta pressa em falares sobre estas gentes, de quem eu me apossei há milénios? Porquê tanta predisposição da tua parte, para recuperares esta espécie de ovelhas estremalhadas do teu quintal terreno que já foi meu? Porquê Ventor?

q Observo o carro estrelar de ouro e de lápis-lazúli de Marduk. Verifico as suas rodas de ouro com eixos de diamante, e, numa voz suave digo: Vejo Marduk, que nas tuas quadrigas aladas se encontram quatro cavalos pertencentes à caudelaria de Marte. Pressuponho já teres delineado uma aliança estratégica com ele.

q Bem o teu amigo Marte sempre se inclinou um pouco para o meu estilo de liderar e dominar. Penso até que estará predisposto a encetar negociações comigo, à moda antiga, para lhe dar um festival que muito gostará de observar a partir do seu quadrante solar. Sempre muito próximo dos contendores que se preparam, mais uma vez, para darem mais um espectáculo, aqui na Terra e que será observado por toda a galáctea.

q Marduk, disse eu, continuas com o teu sentido e espírito venenosos e caprichosamente, a predispor os teus amigos terrenos para lutas sem qualquer sentido. Tu sempre interpretaste a figura do mal trazendo com ela a morte, o sofrimento e a destruição de tudo que com sacrifício procuram construir aqui por terras de Hur. Não julgues que a Esfera vai permitir que continues impugne com teus devaneios e desventuras.

q Que pensas tu que és Ventor! Que mal tem que a Esfera se divirta um pouco a ver estes já protagonistas eivados de sangue, digladiarem-se por convicções despropositadas que tanto me custou inculcar-lhe nas cabeças ocas. Que pensas tu quem são os terrenos, Ventor? Não passam de uma espécie de escumalha criada pela Esfera, onde alguns de nós estão ávidos de sangue como tem sido demonstrado através dos milénios, em que os homens andam pela Terra. Que queres tu fazer Ventor?

q Quero Marduk, que esqueças tudo o que de negativo houve no passado na formação e preparação das gerações terrenas. Foi decidido no Conselho da Esfera que todos os descendentes de Noé, e seus filhos teriam o privilégio de, em cada cabeça, viverem o seu próprio universo pessoal, e também de o moldarem no sentido dos valores propostos pela Esfera, que são, em súmula, o caminhar seguro no aperfeiçoamento, dos seus sentimentos com o princípio geral do bem comum.

q Não Ventor,eu sempre contestei esses princípios. Sempre achei que o homem deve ser forjado no seu caminhar, como os metais eram forjados nas forjas dos ferreiros. Os homens devem aprender a renovar-se permanentemente não pelos princípios apontados pela Esfera, mas com a minha intervenção, sempre adequada às circunstâncias dos tempos. Portanto sou eu que devo decidir como e quando essa renovação será feita.

q Marduk, eu não permitirei que os princípios da Esfera sejam adulterados por ti, por Marte ou por quem quer seja. Para isso, vou ter que contar que a tua influência sobre as gentes da nova Hur, seja de imediato retirada. Pretendo assim, que comuniques aos teus Delfins terrenos, que irás perder a tua ascendência sobre as novas terras de Hur.

q Não Ventor! Isso eu não farei! Estas terras sempre foram de minha influência e quando os seus tempos áureos chegaram, eu estava bem mais presente do que estou agora. Eu era adorado, venerado, poderoso! Agora pretendo apenas recuperar o prestígio perdido.

q Marduk diz aos teus Sadams, e seus lugares tenentes que tens de te retirar porque, a pedido de Ventor a Esfera vai-te retirar todo o domínio que ainda tens e o que pretendes vir a ter sobre as novas terras de Hur. Diz-lhe que, eu Ventor, nunca permitirei que seja restabelecido em terras de Babilónia o antigo poder de Marduk, mesmo que para isso, tenhamos de fazer uma selecção natural à força do poder do meu arco.

q O teu arco Ventor! Que julgas tu que poder tens no teu arco? O teu arco não é nada Ventor, comparado com o poder exibido por Marduk. Eu sim tenho poder! A Esfera receia-me e não se quer intrometer em tudo o que eu me meto. Neste momento Ventor, eu tenho a arma mais poderosa com que os terrenos nunca tinham sonhado antes. O TERROR. O terror Ventor! Até tu andas aterrorizado. Ah! Ah! Ah! …

q Não te rias Marduk. Com algum tempo e paciência, as flechas do meu arco, poderão, com eficácia, arrasar todas as tuas forças de terror. Numa flecha incendiária, terminarei para sempre com os ninhos de víbora que simbolizam o teu terror Marduk. Mas não é isso que pretendo. Não te vou dar o prazer de veres a galáctea assistir, como tu dizes, ao grande espectáculo. No entanto Marduk, se assim tiver de ser, não serás levado enjaulado para Khorsabad como já te aconteceu. Ficarás por longo tempo, afastado das lides terrenas, aprisionado noutra galáctea onde o bem e a felicidade das suas gentes serão a tua tortura.

Assim terminei a minha conversa com Marduk, que irado, partiu na sua quadriga celestial pensando pernoitar junto de Marte, para substituir os cavalos emprestados.
Eu de olhar fixo em Marduk, continuei a pensar nos malefícios que ele irá preparar nestas terras babilónicas, e regresso ao local onde Diana me espera.

Chegada junto de Diana

Amor, companheiro, amigo!
Que se passou com Marduk?
Não quero que algum mal haja contigo.
Não deixes ele utilizar qualquer truque!

Por buracos negros de galácteas,
Marduk pensará seu objectivo,
Manter-se em situações erráticas,
E preparar-se para lutar comigo.

Estarei pronto para qualquer embate,
No Éden onde o mundo nasceu,
Protegerei um novo Iraque,
Terra de um mundo que já foi meu.

Sempre disputei com Marduk,
Não a terra, mas as mentes da gente.
Poderá utilizar qualquer truque,
Que eu o destruirei de repente.

Diana o mundo é duro e avesso,
A nossa vida vai ser árdua e dura.
Não permitirei que qualquer travesso,
Faça levantar mortos da sepultura.

Iraque nova terra de Babilónia,
Com forças do bem e do mal presentes,
Aqui lutarei sem alguma parcimónia,
Para preparar a liberdade às suas gentes.

Se para isso Marduk me obrigar,
Com meu arco, eu tudo enfrentarei.
Destruirei Marduk bem como Istar,
Mas como fazê-lo, ainda não sei


Ventor

jleandro
23-09-2003, 23:39
amigo Ventor

já tinha saudades destes teus "escritos"

continuas em grande forma.

um abraço

Blue
24-09-2003, 16:48
Eu também chamo Serra de S. Luís ... :D mas porque puxo a sardinha à minha brasa.

Adorei revisitar esta zona com os teus escritos ... saí de lá há pouco mais de um mês e as saudades já apertam.

Ainda para mais porque um mês faz tanta diferença naquele pedaço de Natureza. Agora já deve ter outras cores e outros cheiros.
E aquele pão maravilhoso ao pequeno-almoço ... e o cheiro das pinhas que apanhamos para o churrasco e para a lareira ... e o cheiro dos eucaliptos ... Huummmm !

jleandro
24-09-2003, 18:34
da 1ª vez que fui passar férias de Verão para Milfontes ( 1982), nesse mesmo dia em Lisboa a minha mulher caiu e torceu um tornozelo, pelo que foi com umas muletas para ajudar.

logo no restaurante onde jantámos nos disseram: vocês vão a S. Luis e vão ter com o Ti Ferreirinha (?) que ele amanha isso.

no outro dia de manhã lá fui a S. Luis e decobri o Ti Ferreirinha numa taberna a beber um copo (mata bicho, eheheh), que me disse: venha lá comigo.

numa espécie de curral, mandou-a sentar e eu que lhe amparasse as costas, porque ele ía dar um puxão na perna.

resultado: saíu de lá a andar e nunca mais precisou das muletas.

lembrar que o médico em Lisboa tinha tirado radiografias e tinha dito que o tratamento iria durar pelo menos 3 semanas

nunca mais esquecerei este caso.

Ventor
28-09-2003, 16:54
Os lobos andam aí!

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Quando eu era pequeno, atravessava as montanhas todas que fazem parte das serras de Soajo e Peneda! Andava, como já sabem, atrás das galantas, e os trilhos eram os mesmos das outras gentes, mas as montanhas eram muitas e as pessoas espalhavam-se cada qual por seu lado.

Uma vez, nos mesmos caminhos que eu passava com as minhas vacas, apareciam sempre três lobos, que tinham atravessado o rio da Várzea, que hoje está tapado pela barragem de Lindoso, vindos das serras de Espanha! Eu via as patadas no chão, mas nunca sabia, de certeza, se eram de lobo, se eram de cão. Haviam por lá uns cães grandes, como o Patife, um lobo de Alsácia, terrível, que era de um tio meu, da aldeia da Várzea, que quando foi para França deixou-o a um irmão, o meu amigo Manel Inês, e esse cão não gostava de miúdos nenhuns, apenas gostava de mim. Ladrava a todos e todos fugiam dele!

O meu pai chamava-me a atenção para os lobos e dizia-me para nunca, em dias de nevoeiro, abandonar as vacas, afastar-me delas e segui-las para onde quer que elas fossem, se perdesse o controlo delas! As vacas davam pelo lobo ainda afastado e, nessas alturas, elas juntavam-se e normalmente chegavam-se a mim o mais que podiam. Penso até que, quase de certeza, me tentaram defender mais de uma vez. Quando o medo se apossava delas apossava-se de mim também e eu pressentia que algo estaria mal, mas nunca confirmei, à vista, os meus pressentimentos. Normalmente estas coisas só aconteciam em dias escuros de nevoeiro ou ao cair da noite!

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Muitas vezes os lobos acompanhavam os gados nas descidas da montanha e aproximavam-se o mais que podiam mas eram praticamente invisíveis pois eram pardos como os matos do Outono e do Inverno e mesmo quando à vista, tornavam-se invisíveis! Uma vez, num monte chamado Cascalheira, meu pai viu os três lobos de que se falava e pegou na arma e apontou, pois eles estavam à sua frente, todos em posição de tiro, mas estava só e optou por não fazer fogo, porque além de se tornar perigoso, os lobos ficaram a olhar para ele como cães e ficaram tão espantados como ele!

Meu pai tinha um sobretudo azul escuro muito bonito de que eu gostava muito e como era fins de Outono ou já Inverno, estava portanto frio, levou-o para o monte. Nessa altura, perante a passividade dos lobos, retirou lentamente o sobretudo das costas e pendurou-o no cano da espingarda. Os lobos espavoriram-se de medo, pois terão pensado, segundo o meu pai dizia, que chegara mais uma pessoa! Fugiram monte abaixo, separados, direitos à Várzea e segundo testemunhos atravessaram o rio a nado para os montes de Espanha.

Alguns dias depois, os mesmos três lobos ou outros, apareceram ao meu pai num sítio a que chamam Presa do Cabreiro, num caminho junto à Tapada da tia Maceira, e a nossa cadelinha, rafeira, a Violeta, dirigiu-se direita a eles a ladrar e aproximou-se, quanto bastasse, para o meu pai colocar o primeiro lobo na mira, apontar e preparar-se para fazer fogo em socorro da cadela. O primeiro lobo arreganhou os dentes à cadela e ameaçou-a e ela ganiu e retirou uns metros, mas sempre a ladrar. Meu pai continuou de arma apontada e a chamar a cadela dirigindo-se para os lobos e ela foi regressando enquanto os lobos lentamente se foram afastando e seguiram o mesmo rumo dos três lobos anteriores. Dali, através das Fontes para a Cascalheira, descer à Várzea e atravessar o rio para os montes de Olelas, em Espanha!

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O Fojo do Lobo na Seida, serra de Soajo

Outra vez meu pai viu um lobo só, ao escurecer, num sítio a que chamamos Corga das Estacas. Encontraram-se frente a frente e o lobo, quando o meu pai o chamou a pensar que era o Patife, ainda fez o gesto de se mandar a ele mas arrependeu-se e resolveu seguir e depois de passar por ele ficou a olhar para trás! Meu pai, dessa vez não estava armado, tinha um sacho, de trabalho com o qual se preparou para se defender do lobo, mas não foi necessário. No dia seguinte, colocou-se no mesmo local onde o lobo fez o gesto de se mandar e deu uma sacholada no chão e partiu logo o cabo do sacho. Ali passou logo a trocar os cabos dos sachos e sacholas, porque a precaução nunca fez mal a ninguém!

É neste emaranhado de pensamentos, que eu continuo a deambular por montes e vales na companhia da minha gente e dos meus amigos lobos!

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