É esse o local mais belo.
Ou o pormenor da janela na rua estreita...
Ou quiçá o sol espalhando-se por uma avenida brilhante.
É desta estação que vamos partir para os sitios que são mais um local, que são paraísos.
Os nossos.
E assim, vamos falar deles e apanhar uma boleia no sonho...
Aqui ou num confim desta coisa redonda azul onde vivemos, vamos marcar o mapa da perfeição.
nós vamos partir... want a ride?
http://www.visit-paris.com/pics/femme-base.gif
Hoje fui à Baixa
http://lisboa.kpnqwest.pt/gifs/intro.gif
Corri toda a baixa pombalina. Tinha feito um plano para viajar de comboio, mas Neptuno, no seu choroso ar matinal, evitou-o. Obrigou-me a levar o carro. Deixei-o no Parque dos Restauradores 4 horas e paguei uma pequena fortuna de 6,25 €. Comilões!
Mas andei até cansar! Passo sempre na Baixa com carro ou com pressa, mas hoje foi um fartar vilanagem! Andei por todas as ruas até à Praça do Comércio e até falei com o Cavalo do D. José, que mais me pareciam um par de penachos iluministas, que um Rei e o seu cavalo!
Mas assisti a umas escaramuças brincalhonas entre Apolo e Neptuno. O Apolo, brincalhão como sempre, escondia-se por trás de uma nuvem e vinha logo com o cucu, passava para trás de outra e aparecia com o puti, e foi até cansar! Cucu, puti! Os dois fartaram-se de brincar comigo, às escondidas!
http://www.lector.net/phydic99/lisboa14.jpg
Mas eu lá continuei armado em fotógrafo. Parecia um profissional! Olhei o Tejo e acho que cada vez somos mais amigos. Um pouco revolto e ao perguntar-lhe se estava aborrecido por me ver, disse logo que não. Que estava em alboroço, apenas porque queria expressar a alegria de me ver na Grande Varanda da Europa! Pensei que te tinhas zangado comigo neste troço, Ventor, que já foi o troço do teu sonho, nas viagens entre Lisboa a Bela e Almada a Triste! Últimamente, tens andado mais pelos lados de Belém, sempre aos pastéis, com a mania da cultura do CCB, e dos almocinhos ou jantares nas jovens Portugálias da velha Lisboa! Aqui, tens o velho Martinho das Arcadas, e é tão raro beberes aí um café que os dois nos convencemos que nos abandonaste!
Na Rua do Arsenal, sente-se a tua falta. As caras de bacalhau ficaram tristes com a tua ausência e os sacos de milho que levavas para os pombos do Chiado sentem-se sempre cheios, desde que desapareceste! Não te esqueças dos belos troços do meu ser ribeirinho, sempre virados para a cidade. Às vezes encapelo-me com o horror do abandono a que sou votado pelos amigos de outrora. Não mais viajaste nos velhos cacilheiros, como tantas vezes fizeste, nos seus irmãos do Cais do Sodré, do Seixal, do Montijo, do Barreiro, nem nos que tanto gostavam de te levar até à Trafaria sob a benção de Apolo!
http://www.lector.net/phydic99/lisboa4.jpg
Volta sempre Ventor, dá vida às Tágides, esquecidas e abandonadas por todos, mais parecem fantasmas de tempos idos de braços estendidos sobre a tua cidade num apelo à poesia, à música ... enfim, à vida! Repara como Neptuno está agitado e alegre numa brincadeira disputada com Apolo pela tua presença! Eu sei, eu sei! Tu não tens aparecido por aqui, mas não nos esqueces!
Não. Realmente não posso esquecer o rio mais lindo e não esqueço a primeira vez que o vi, há tantos anos atrás, que mais parecia um lençol onde Apolo tinha dormido. Era ali na zona de Santarém, ao romper do dia com Apolo vermelho por não saber como me receber nestas novas paragens!
Subi, da praça do Comércio, até ao Poço do Borratém, onde, em tempos, havia uma tasca, e onde conheci a história de um homem da minha terra, que já cheio de tintol, foi obrigado a zaragatear com uns quantos numa noite fatídica. Meteu dentro a falange do dedo do meio ao dar um murro na parede da tasca. Arrumou uns quantos e foi levado pela polícia. No dia seguinte, um polícia que ia comprar pão à padaria onde ele trabalhava, foi safá-lo. Era domingo e ao chegar ao Borratém acompanhado de outro com uma concertina, os amigos perguntaram-lhe o que se tinha passado. Começou a cantar:
Aqui está o Zé Cortez,
Rijo e forte do canudo,
Se não querem acreditar,
O jornal vem e trás tudo!
O Zé Cortez já não é deste Mundo, mas eu ainda hoje andei a olhar para aquelas paredes, onde já não há tasca e tentar adivinhar em que local ele terá dado o murro!
http://www.lector.net/phydic99/lisboa1.jpg
História de um herói
Newky, o Mabeco
http://www.nature.ca/notebooks/images/afwildog.gif
Vi, num dos belos canais de televisão, algo sobre os “cães selvagens” africanos e proponho-me contar o resumo do que me foi dado angariar dessa ocorrência!
Algures nas savanas africanas, onde ainda se mantêm na luta pela vida, os mabecos, tal como a maioria de todos os outros animais selvagens têm tendência a deixar-nos sós com as nossas misérias e lástimas neste mundo reles que a Esfera teve o
condão de fazer à sua imagem!
Na savana, estes bravos amigos, por quem os deuses não tiveram contemplações, vivem uma vida atribulada na luta pela sobrevivência da família, do grupo e, consequentemente, pela sobrevivência da espécie.
Um grupo, algures por lá, trava todos os dias ao nascer e ao pôr do sol, a luta pela sobrevivência e tal como todos os outros, têm de matar para sobreviver. Nessa luta feroz, sobressai um a que deram o nome familiar de Newky.
http://lava.nationalgeographic.com/pod/pictures/normal/NGM_05_99_cover.jpg
Newky é o herói da família, do grupo da espécie. Na savana a guerra é total. O mundo é constituído por quilómetros e quilómetros de ervedos pardos e secos, clareiras abióticas e pequenas depressões onde os animais selvagens, numa luta terrível jogam constantemente a sua sobrevivência! Estes cães caçadores, Lycaon pictus, de pelo malhado, olhos cor de âmbar, orelhas erectas, arredondadas e grandes, adornando o seu crânio maciço, com masseteres fortes e poderosas maxilas, de pelagem hirsuta, de caudas erguidas como bandeiras ao vento, beijam-se como se tudo o que há de interesse na sua vida fosse uma permanente parada de amor. Agitam as caudas golpeando o ar numa saudação comunal e tumultuosa com ar sociável e disciplinado.
Os cães selvagens ou mua muitu (nome swaíli) são os caçadores sociais mais comunitários e interessantes de África! São corredores infatigáveis, campeões de resistência, entre a fauna africana. Numa toca, algures numa savana de África foram criados uma nova matilha de cerca de 12 animais dessa espécie. No seu seio apareceu bem determinado desde o seu tempo de meninice, o Newky!
Newky, estava sempre alerta contra os perigos e era sempre o primeiro a dar as boas vindas ao clã que partira determinado para as caçadas da sobrevivência da família e do grupo. À porta da toca a mãe, sempre a chamar-lhe a atenção para os perigos, tais como as hienas, os leopardos, os chacais, os leões e sobretudo as águias, nos seus primeiros tempo de vida.
Lá vêm mais uma vez os caçadores do grupo, e lá vai o Newky sempre na frente para recebe-los numa sempre gloriosa festa de boas-vindas! Recebe o seu quinhão de carne e é beijado persistentemente por todos os que se aproximam, com euforia, das tocas, dando graças a Deus por lhe ter sido permitido, mais uma vez, congratularem-se por continuarem a existir nesta vida atribulada que lhe foi predestinada. Newky salta, empoleira-se no seu Maralhal e dá graças aos senhores da Esfera por continuar, dia após dia, na expectativa de fazer parte deste grupo destemido que cruza distâncias sem fim na procura de continuar a ver o Sol nascer dia após dia!
Newky cresceu, e começa agora a acompanhar os caçadores mais velhos, sempre na expectativa do perigo, sempre determinado na luta colectiva pela sobrevivência da sua comunidade. Mas a comida começa a faltar, a seca atirou com os outros animais selvagens para longe e a sua existência e da família, começa a correr perigo. Para isso vão ter que recorrer à caçada do gado doméstico! O newky aproximasse do arame farpado. Torneia-o e tenta entrar, mas apercebe-se do perigo e com mais ou menos audácia tenta levar a família a sobreviver durante os tempos difíceis de uma ano de seca.
Porém algo corre mal! Uma moléstia ataca a família e Newky faz cálculos e acha por bem manter-se um pouco afastado mas, sempre tanto quanto possível, tentando conjuntamente com os mais capazes, arranjar comer para a comunidade que começa a definhar. Newky, sem descurar o ambiente comunitário em que foi treinado, sempre à distância, apercebe-se de que a espécie está em perigo. Vê morrer todos, um a um e, por fim, sente que está só no Mundo miserável que herdou. Foram se os latidos dos pais, dos irmãos, dos tios e tias, de todos os seus companheiros e sente que tudo acabou. Avança só pela savana e procura companhia da mesma espécie. Sobrevive sózinho, nada fácil, no meio de tantos inimigos. Mas os outros grupos também tiveram os seus problemas. Newky, toma o comando de um novo grupo, arranjou uma companheira e passou, no meio de grandes dificuldades a organizar o clã!
Começou a organizar as caçadas pela sobrevivência do grupo, que se tornou terrível em toda a savana. Eles atacavam as várias espécies de gazelas, gnus, e até zebras, de preferência os poderosos machos territoriais. Aqueles que lutam pela defesa do território e que por isso, por não fugirem das zonas demarcadas, eram os mais fáceis de apanhar!
http://www.amnh.org/nationalcenter/Endangered/dog/dog1.gif
Newky era destemido, deu luta às hienas e até aos leões que lhe roubavam a caça. Por isso, organizava batidas e vencia tudo que se lhe opunha porque era um chefe organizado. Mas uma vez, numa refrega rival entre os cães selvagens comandados por Newky e um grande grupo de leões, as coisas correram mal. O seu companheiro que era tido como o braço direito de newky nunca mais voltou, pensa-se que terá sido morto na luta e Newky ficou com a sua parte esquerda do peito, no externo, junto ao coração, todo dilacerado pela dentada de um leão. Newky foi todo lambido pelos companheiros numa missão de tratamento medicinal e aguentou-se, mas a fome voltou e a luta pela sobrevivência tornou-se atroz. Newky, ainda combalido daquela terrível dentada, levou a sua matilha à procura de sobrevivência para os lados dos gados domésticos!
Mais uma vez as dificuldades, o horror da fome e provàvelmente a doença, a raiva propagada pelos cães domésticos dos pastores, recomeçou a dizimar a família de Newky. Algures numa depressão da savana tombou para sempre o destemido Newky, o mabeco por quem as gerações futuras continuam a chorar e vão passando latidos de geração em geração, na tentativa de não deixar morrer o nome e a glória daquele que sempre tudo fez para manter unida a comunidade mais social de todas quantas há por terras de África!
Adeus Newky!
E parto hoje até não muito longe.
Estou frente ao cão de Goya, no Museu del Prado.
A sala de Goya, no seu periodo negro, será porventura uma das junções mais geniais de pintura de sempre. Mas gostos são gostos,e do que me apetece falar é do cão de goya. É uma das imagens da minha vida.
É que passei horas a olhar o focinho triste daquele animal desamparado num muro amarelo tórrido que me transporta ao calor andaluz, e o seu olhar tão triste e expectante, quase não fazendo parte do quadro mas SENDO o quadro. Porque terá pintado Goya aquele cão, por mim ? como saberia ele que um dia eu seria como o bicho, abandonado numa cidade espanhola ?
Madrid para mim tem o fascínio do horrivel. Foi nessa cidade, onde trabalhei mas nunca "vivi", que eu perguntei aquela pergunta fatidica : que faço eu aqui ?
Nunca soube a resposta. Sei sim que Madrid é Andrès Segovia ouvido na praça Mayor ao fim da tarde, dedilhado por um outro "viejo" que ecoa memórias e traz nevoeiros. É também os daiquiris e os cafés alcoólicos do Café de Las Artes na praça do Teatro Real. Coleccionei copos à minha volta algumas noites, companhias que aumentavam o meu monólogo. Mas também é a loucura motorizada de uma Castellana pejada de carros e salero dentro e fora do corpos hermosos das madrileñas.
Madrid é tudo isso, a confusão tão total e geral de sabores das tapas, das cores dos vestidos, dos movimentos dos braços num Pacha matutino nas Portas del Sol.
E tudo isto para falar do cão de Goya. Tão só como eu naquele mundo de gente só.
A madrid dos Bourbons, do Hard Rock Café mais divertido à face da terra, dos olhares requebrados e do jardim do retiro para leituras alongadas. Ler Espanha, as espanhas de tantos e que não existe.
Por isso aquele cão, triste, esperando um afago, uma palavra amiga, esperando um amigo e sempre tão só.
Mas madrid é alegre carai!
Os bares, as copas que não terminam, os risos que não são nunca para nós nem para ninguém.
A praça Mayor e o som da guitarra, tão triste, tão sensivel, o flamengo dançado na rua por uma menina de sangue sem idade nem memória, só dança, prazer, fogo. E solidão.
Quando descerem a autopista para Madrid, lembrem-se de mim, e de todos os que lá trabalharam e tentaram viver e olharam das pontes da autoestrada todo o correr de vida que não era a deles.
Tanto a escrever de Madrid e nada. Porque o cão existe sempre, os olhos estão sobre mim sempre.
Se gosto de madrid ? muchissimo ! Porque está lá um quadro, um quadro de Goya, o cão.
http://goya.unizar.es/InfoGoya/Obrasjpg/Pintura/613.jpg
Caravela 04-04-2003, 20:21 Castelo da Feira
Não há hoje a mais pequena dúvida de que o Castelo de Santa Maria da Feira, tal como o vemos e conhecemos, representa a última de uma longa série de construções que, naquele mesmo local, se foram sucedendo durante centenas ou milhares de anos, como guardiãs dos bens das populações que nas suas vizinhanças se estabeleciam.
Mas se a arqueologia atesta a fixação de povos no local desde, pelo menos, a proto-história, já nos não pode ser de grande recurso para reconstruir a história do castelo, pois o que dele vemos actualmente é, apenas, o que resta de construções medievais que se foram sobrepondo umas às outras, na maior parte dos casos com derrube das anteriores; a parte mais significativa, porém datada dos sécs. XV e XVI, mais ou menos "arranjada" pelo restauro levado a cabo pela D.G.E.M.N. EM 1935.
Se somente podemos ter a certeza da sua existência na época da Reconquista, sabemos que já nessa altura o castelo era um dos mais importantes dos que existiam no Condado Portucalense, quando o conde D. Henrique assume o seu título. E não faltaram até os escritores que procuraram fazer do Castelo da Feira o verdadeiro berço da Pátria...
http://castelos.planetaclix.pt/avr/smf/vfeira01.jpg
Pela sua situação geográfica, bem cedo ficou longe das primeiras linhas da guerra de expansão cristã para o Sul; e assim o seu "paele", a pouco e pouco (e exceptuando a ocasião de certas lutas intestinais, como as que opuseram D. Dinis a seu filho), passou mais a ser o de residência e paço dos grandes senhores seus alcaides, do que lugar ou base de façanhas guerreiras. A tal ponto que em meados do séc. XV está tão arruinado, que é necessário reconstruí-lo; e é dessa reconstrução que data o aspecto que hoje lhe conhecemos.
A sua importância, porém, vai declinando até ser incorporado na Casa do Infantado, por decisão de D. Pedro II - decisão funesta, pois, em 1837, se escapou ao leilão a que foram sujeitos os bens da Casa do Infantado, não deixou de ficar isolado e encravado em terras de um irmão do Conde das Antas. E o Velho castelo, já sem qualquer serventia, aí ficou arruinar-se cada vez mais, engrinaldando-se de heras gigantes e vinha brava, em plena consonância com a estética romântica; e só Alexandre Herculano teve a coragem de pugnar pela defesa do que classificou como "uma das mais perfeitas antiguidades" de Portugal. Valeu-lhe, entretanto, para obstar à completa ruína, a benemérita acção de alguns feirenses que, isoladamente ou congregados numa "Comissão de Vigilância e Conservação do Castelo da Feira", por diversas ocasiões, a partir de 1905, suportaram o custo de obras de conservação e lutaram tenazmente pelo restauro e dignificação do seu velho castelo. Um exemplo do que podem e são capazes as associações de Defesa do Património Cultural, hoje tanto em voga!
De planta alongada, conforme à de outras fortalezas coevas do Norte de Portugal, o Castelo da Feira salienta-se pela sua Torre de Menagem, de planta rectangular, de maiores dimensões do quaisquer das suas congéneres da época, com 3 andares, sendo o último coberto de pesada abóbada de berço (arcaísmo ainda inexplicado), e amparada por torres quadradas "que no séc. XVI foram coroadas de agulhas semelhantes às das igrejas e castelos do Alentejo" (M. Chicó). Despojado dos seus peços, e reduzido a uma pura carcaça pétrea (como quase todos os castelos de Portugal), o Castelo da Feira consegue manter um extraordinário poder evocativo e uma inconfundível e pitoresca silhueta." (in "EUROPA/80" - nº 1, com a devida vénia)
Origem do Povoado
Em 1709, na sua COREOGRAFIA PORTUGUESA, o matemático Padre António da Costa, bem conhecido e citado escritor, apresentou assim a povoação:
"A cinco léguas da cidade do Porto, em um ameno e salutífero vale, tem seu assento a nobre vila da Feira, cujo termo é mui dilatado."
Um velhíssimo castelo pousado nas primeiras ondulações ao longe da beira-mar e em frente da barra do Vouga, foi aglomerando entre serena, extensa e linda paisagem, pelo prestígio do seu poderio, os canais e herdades. Tornou-se esta povoação capital das terras dependentes desse senhorio e os cristãos denominaram-na Cicitas de Santa Maria, substituindo talvez a anterior denominação de Lancóbriga. O agrupamento das habitações fez-se em volta do local, no sopé do castelo, onde os povos vinham pagar rendas e alcavalas aos prestameiros, expôr à venda as suas colheitas e prover-se dos artefactos e utensílios necessários. Assim se estabeleceria o mercado denominado FEIRA, radicando-se este nome à povoação ali agrupada que se tornou capital de toda a Terra de Santa Maria.
A mais antiga referência a este nome da vila aparece no documento XXXVI citado nas DISSERTAÇÕES CRONOLÓGICAS com data de 1117. É a carta de Coutinho de Osselva dada por D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques e viúva do Conde D. Henrique, em novembro da era de 1155 ( ano de 1117) e datada de UBI VOCANTE FEIRA (onde chamam Feira).
Tornou-se a Feira cabeça dessa Terra, como confirma EL Rei D. Manuel I ao dar o foral de 10 de fevereiro de 1514 "declarando primeiramente os direitos particulares de Feira por ser cabeça da Terra de Santa Maria e assim estar nos tombos antigos tirados da torre do tombo." Diz a lenda que a vila é uma reconstrução da cidada romana de Lancóbriga.
Caravela 04-04-2003, 21:05 O Castelo da Feira
"Tem uma aparência especial e característica. Este velho monumento ostenta quatro torreões erguidos em torno da torre de menagem. Encima cada um deles um corucheu cónico cercado por quatro pequenas pirâmides também cónicas e coroadas de florões. Só em uma velha torre de Arraiolos encontrei disposição semelhante. Ninguém me soube explicar a idade e a procedência de tal torre.
O que primeiro temos de notar no Castelo da Feira é o arco em volta do círculo que antecede a porta principal da torre de menagem. Afigura-se ser o mais antigo que ali existe. É um velhíssimo arco de pedras vermelhuscas e de grão grosso, com aspecto diverso das demais que compõem o monumento. Atentando bem nelas não nos custa a considerar a sua grande vetustez. Estão ali naquela curva circular há mais de dois mil anos. Já se não encontra pedra de semelhante aparência na vila nem nas proximidades. Os romanos não íam longe buscar o material para as suas construções e portanto foram extraídas de um veio extinto de que não sobreviveram restos nem notícia nem memória.
Junto de esse arco está colocada uma ara romana e outra se guarda à esquerda da porta da torre aberta ao nascente. Ambas estas arcas e o resto de outra muito partida encontraram-se ao apear torreões concertados e reerguidos. Como os romanos colocavam as aras nos templos ou nos castros, esses achados e o arco referido, resto decerto de edifício de essa época, dão a evidência de ter existido ali um castro romano antecessor do castelo medieval cujas paredes contemplamos. Os romanos exerceram o seu poderio na península ibérica desde o século III antes de Cristo até ao terceiro da era Cristã. Portanto, mais de 2 mil anos tem decorrido depois das velhas e grossas pedras serem talhadas naquele arco.
Ermídio Monis, irmão mais velho do Aio Egas Monis, herdando o senhorio da Terra de Santa Maria, insurgiu o seu castelo contra o governo de D. Teresa e de Fernão Peres Trava, proclamando independentes do reino de Leão os territórios que constituiam o condado de D. Henrique da Borgonha, dando iníco à campanha que D. Afonso Henriques capitaneou até à batalha de S. Mamede em 24 de Junho de 1128. A valia do amplo julgado da Terra de Santa Maria sujeito ao Castelo ressalta logo da audácia de D. Afonso Henriques marchando para a capital do condado com forças bastantes para valerem o apoio e ajuda do arcebispo de Braga, com quem fez o tratado constante do célebre documento de 27 de Maio de 1128, chamado carta de couto de Braga, no qual o Infante faz mercês ao arcebispo D. Paio UT SIS ADJUTOR MEUS: para que o ajude a tirar o poder das mãos da mãe e do favorito." Vaz Ferreira
Fundação do Castelo
A fundação dos principais e mais antigos Castelos de Portugal encontra-se envolta por uma neblina que tempo favoreceu e cujo passado longínquo não se presta a dissipá-la. O Castelo da Feira é um dos exemplos dessas histórias.
Atentando nestas limitações que facilmente nos induzem em erro, começarei por referir que a dinâmica da romanização ibérica ia exigindo, aqui e ali, fortalezas de maior ou menor importância, como castros e castrejos, pelo que nos parece lícito supor que fossem os romanos quem primeiro alicerçou o originário monumento que, segundo se pensa, consistira num templo fortificado. Tal suposição fundamenta-se nas três aras romanas cujas mensagens traduzem as honras aos deuses Tueraeus e Bandevelugus Toiarecus a fim de que estes dossem próprios às impresas militares de Ário e Lúcio.
Poderemos fundamentar-nos também num arco romano, existente ao fim da praça de armas, precedendo a porta principal da torre de menagem, cujas características nos apontam cerca de vinte séculos de história...
Mem Guterres e Mem Lucídio reconstruíram o castelo de feições mouriscas, aquando a expulsão dos romanos da península pela ocupação territorial dos visigodos, dando-lhe uma outra feição que se aproxima já da poderosa fortificação feudal que hoje conhecemos, com grossas e compridas muralhas e erguendo-se já as construções do seu interior. Seriam eles que dominariam a terra que circundava o castelo da Terra de Santa Maria, enobrecimento esse devido ao castelo, outrora, de Santa Maria, que então tudo abrangia e representava. De documentos históricos resulta que, 1093 era alcaide desde Flacêncio e, em 1102, era seu "tenens" Venegas Joanis.
Anos depois, seria este castelo furtado a D. Teresa por D. Afonso Henriques, urdindo-se ali, por um dos seus mais influentes partidários, Ermígio Moniz, irmão de Egas Moniz, a bem sucedida insurreição contra D. Teresa e o reino leonês que culminaria com a independência de Portugal.
A importância deste castelo nos promórdios da nacionalidade, quanto a segurança e conforto, para a sua época, é notória. D. Sancho I ordena que nele se abriguem, por tempo ilimitado, a rainha e suas filhas. No Foral das Terras de Santa Maria e Castelo, datado de 1251, registaram-se um conjunto de inquirições às suas terras e estipulam-se os direitos e deveres das suas gentes para com o castelo e palácio do rei.
Meio século depois, D. Dinis incluía-o no dote da raínha Santa Isabel.
Vinte e um anos depois, o castelo é tomado pelo infante Afonso (depois IV) que se revoltara contra o rei, seu pai. Feitas as pazes, mantém o castelo em seu poder e, anos mais tarde, o seu filho D. Pedro I cede-o a um seu vassalo de nome Gonçalo Garcia de Figueiredo (1357).
Em 1383, o rei D. Fernando faz mercê do senhorio das terras de Santa Maria a D. João Afonso Telo, irmão de D. Leonor Teles. Após a deflagração da crise dinástica, meses depois, este declara-se por Castela, do que lhe resulta ser tomado por Gonçalo Coutinho para o mestre de Avis, em 1385, sendo alcaide Martim Correia e quando fervilhava por todo o país o espírito revolucionário contra os partidários de Castela. D. João I confia-o a João Rodrigues de Sá, o Sá das Galés (herói que derrotara as galés castelhanas no Tejo) que, após a sua morte, passa para as mãos de seu filho.
Entretanto, D. João I faz mercê das Terras de Santa Maria a Álvaro Pereira, primo-tio de D. Nuno Álvares Pereira, pelos valiosos serviços prestados à Coroa. Consequentemente, o seu neto, D. Fernando Pereira pede o castelo para a sua família, pedido esse aceite em 1448 e fazendo assim o castelo transitar de senhor e ingressar nos condomínios dos antecessores dos Pereiras, cujo condado se inicia na geração seguinte.
http://castelos.planetaclix.pt/avr/smf/vfeira02.jpg
Ontem estive outra vez em Belém!
Belém fica numa margem, a direita, aquela que nos enche de memórias, mas tenho um espaço do lado de lá e que vejo sempre que estou do lado de cá! Às vezes revivo as histórias que tenho penduradas nas margens dos meus rios. Ontem foi a vez do Tejo!
Eu vivi 8 meses em Almada. Cinco dias em Lisboa, de seguida 8 meses em Almada, depois anos em Lisboa repartidos com 52 meses de guerra, dos quais 26 meses em África, 13 na Ota. A partir de 1970 vivi 19 meses em Lisboa e trabalhei na Amadora e depois vivi na Amadora e trabalhei em Lisboa, e agora, contados os anos, vivo da saudade espalhada por todos os sítios.
Mas estava eu a dizer que, a margem de lá, entre a Fonte da Telha e Cacilhas, também tem para mim muitas memórias! Ali, na frente oposta a Belém, eu andei de vara na mão com uma cabeça de pescada espetada para apanhar caranguejos! De vez em quando, arranjava umas tachadas de caranguejos e entregava-as a quem tivesse habilidade e capacidade para as tornar bons petiscos. Não sei se esses petiscos alguma vez foram bons, porque eu não lhes tocava! Quem me quisesse ver pelo verão de 1961, era nas fraldas do Cristo Rei a apanhar caranguejos nos fins de semana!
Ou então, noutra alternativa, acarretar água de um poço que havia algures naquela encosta, portanto "na outra margem", para a Rua Afonso Galo, em Almada! Água fresquinha com a qual matava a sede, com a ajuda dos donos do poço, que estavam cheios de pena de mim por não ser capaz de beber água da torneira! Morria de saudades das águas das Montanhas de Adrão, da Serra de Soajo! Talvez não acreditem, mas esses momentos foram para mim mais terríveis que os rebentamentos dos morteiros lá em África, quando nos surprendiam pela calada da noite!
Ontem estava sentado na esplanada do Centro Cultural de Belém e não tirava os olhos de lá e revivi todos os momentos desse ano, que eu trepava aquela encosta, como se fosse um filme passado ontem! Os pardais aterravam na minha mesa para comer os bocados do queque que comprei para eles e diziam: "acorda Ventor"! A minha mulher dizia-me que não gostava de me ver assim e eu desfrutava das alegrias passadas e pensando: "até quando"!
http://quico97.no.sapo.pt/Image005.jpg
O Resistente! Nem se importava com a máquina!
Mas é lindo o Tejo num dia de Verão todo azul como os azulinhos do Restelo ali ao alado. Dali vejo o Tejo, vejo os meus passeios no seu seio até à Trafaria, nas manhãs frescas cheias da maresia dos verãos passados. Vejo a Torre de Belém, o Monumento aos Descobrimentos, a Ponte da Esperança (pois no dia da inauguração senti necessária ter a esperança de chegar ao fim, quando vi tanto carro encostado com a "língua de fora") e na sua outra margem, logo à sída, o Cristo Rei; mas nesta margem, ainda os Jerónimos protentosos, a Portugália do Rio um dos meus ex-libris das noites lindas de fome!
http://quico97.no.sapo.pt/Image008.jpg
Margem direita do Tejo
No meio disto tudo, aquele grande monumento vivo, artéria fulcral do latejar das gentes desta bela cidade de Lisboa! Uma maravilha como diz o meu amigo Mikel de N. York. "Este rio é fabuloso Ventor"! É mesmo! Eu nunca me canso de espalhar as minhas vistas pelas margens do Tejo!
|