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as 7 partidas do mundo

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gatsby
09-04-2003, 10:15
Hoje é o dia.

Tantos anos e idades a pensar, a imaginar que este dia poderia chegar. E sempre o atraso, a resolução de mais um problema, a responsabilidade de ter assumido mais e mais responsablidades.
Mas hoje é o dia.

Saberei eu o que quero fazer?
Isso sei, desaparecer.
Partir
Ir.

Ah, grande questão. O como.
Desde novo que organizo este meu desaparecimento. E aì, era fácil, a pé e até onde os caminhos me levassem, que eu apenas quero seguir. As várias idades que me vão passando levaram a muitas decisões desta coisa que vai acontecer, hoje é o dia.

Vou de carro. Decidi. E vou guiar o carro, até onde o dinheiro que não era para entrar nesta partida (mas entra) me levar.

Tou de abalada. Este é o meu testamento.
Eu quero ir.
Eu quero deixar de ser o que sempre se decide, preocupa, existe, e passar a ser o que passa na multidão transparente.

Quero ser peregrino.

Ah, que boa sensação saber que vou deixar de existir como aquele que tem de ser para aquele que é apenas.

Hoje é o dia.

Me imagino tão longe daqui, que alguns metros do que sou agora serão milhares para o ‘eu’ que levo novo em folha.
Tu que lês agora deves já saber que não é de ti que parto. Ou nada te escreveria.

Só que partir é preciso e a ti levo-te comigo.

Saberás de mim num mosteiro, numa montanha, num deserto, numa gruta.
Saberás de mim só ou com enormes multidões, o que significa só.

Saberás de mim.

gatsby
09-04-2003, 19:03
A segunda missiva

Estou no campo dos mortos e está a chover.
O céu de granito junta-se às paredes da catedral, o que confunde as gárgulas que perdem a noção do alto e do desprezo.
Sentado a uma porta que chamam Santa e assim fechada, trancada, inacessível, ouço pela praça que se esprai a meus pés, da cor do céu, granitica, os sons antigos de milladoiro ecoando pelos nevoeiros, fantasmas de um passado recente ou de um futuro longínquo.
Sinto a prisão.
O cinzento antigo está a toda a minha volta. Não há saída. Não há brilho. Há apenas e só a não cor.

Sinto-me em paz com os sons coevos mas puros, com passos que pelas ruelas ecoam como revoluções.
Sinto-me em paz, porque estou também eu quase já cinzento. Da chuva, do nevoeiro.

Desapareço.
Assim sendo levanto-me e caminho na água que purifica e que vem do chão que está no céu. Tudo igual, tudo como deveria ser.

Ando mais um pouco, cada passo decide uma nova vida num mesmo cubo fechado. O cubo plúmbeo e quase negro do campo dos Mortos.

Claro que estou só. A humanidade está quente nos cafés e bodegas, com churros e com picantes.

É, decido entrar numa porta encarnada, forte, ruidosa, a passagem para o mundo do normal.
Felizmente continuo cinzento e assim invisivel na janela. Bebo e o líquido queima, mas só o corpo.
Eu, o que me fui, está ainda no campo dos mortos.

É hora de caminhar de novo. E desço as escadas que não vejo até à esplanada da catedral. É velha esta catedral. Mais que eu. Mais que a minha memória.
Também é feia. Mas como não seria se não é obra de um homem mas mesteiro de muitos anos e muitos homens?
É no entanto imponente. Perde-se no céu, que a toma e a engole. Reparo que as gárgulas lutam com o nevoeiro por um momento mais de existencia. Um momento mais. Sempre se quer um momento mais, não é?

Entro, está escuro. As luzes das velas não iluminam, apenas sombreiam o escuro, o negro que funde as eras.
Sento-me, adormeço.
Estou em paz.

gatsby
10-04-2003, 15:00
Sentado nas escadas com os pés à flor da água, olho para cima e as chamas brilham nas minhas roupagens.

Segui-os desde as ruelas que desenbocam no mítico rio.
A padiola coberta de flores, o rosto cinzento entrevisto apenas, os sons das mantras e dos pés não ressoavam, flutuavam. As caras são magras, descarnadas mesmo, mas os olhos vivos. Olham sem me verem porque eu não existo, só o rio e as mantras.

Paramos na esplanada sobre a água, discute-se o preço da madeira, tenta-se colocar algo mais que só a carne. Hindús idosos iniciam um rito não entendido mas compreendido, o calor sente-se, os cheiros misturam-se, as vestes elevam-se escarlates, os estalidos entreabrem um que não desejo pensar como corpo, ao lado uma mulher sem idade acocora-se e chora, as primeiras lágrimas.

Afasto-me e sento-me nos degraus e estou agora onde estava no inicio, a olhar as chamas.

Um rito de passagem apenas.
Reparo que há gentes à minha volta. Com flores apenas no regaço, descendo ao sagrado, mergulhando, preces sobrepôem-se a preces, chamas e água, comigo em terra, um ar pleno de cheiros.

Uma padiola é pousada na água. As mesmas flores, o mesmo rosto apenas entrevisto, o mesmo branco, os mesmo rostos. A seu lado a idosa mulher que acompanhei liberta o pó que purifica nas águas mansas.

O ritmo é leve, o gesto grave, o eterno vai-vem das sombras mostram a sagração.

Eu estou a mais naquela escadas.
Entro na água, sento-me na padiola que vai procurar o mar imenso.
Vou em silencio. Vou. Apenas atiro este papelucho para que o ar o leve até a ti.

Junto no vento vai a gota leve de uma lágrima minha.
Até.
Desta vez parto em companhia.

gatsby
11-04-2003, 12:39
O fim de tarde trazia promessas.
O encontro foi suave e risonho. Afinal eramos mais que tudo os meigos um do outro.
Entre a bebida e o sorriso, a cumplicidade dos olhos velados escondia o que estava à nossa frente desde sempre. Vinha de tão longe e desta vez íamos agarrar.

Levantas-te e a tua saia esvoaça, flores e neve. Roça por mim como o beijo que apenas roçaga nos meus lábios. Continuas a andar e a sorrir. A luz vai esvaíndo no crepúsculo, mas os teus olhos são lumes. A música começa a ouvir-se, claro teria que ser Lloyd Cole na, tua/nossa/de todos os enamorados, pequena melodia : margo’ waltz.

she said don't worry baby
i'll do my own crying
i'm a big girl now
now i'm gonna be okay
yes i'll find a new way of living
you know i will

O convite do teu corpo para uma dança é imperativo, e dançamos suavemente pela sala fora, os corpos tocando-se quase púdicamente, as tuas mãos no meu corpo que te deseja, a tua sensibilidade flutuando. O Beijo é leve e suave e prolongado, ao ritmo da voz, que escoa cada vez mais longe.

and you lie there without sleeping
and you stare at your wall
and you realize you're not weeping
you don't need her anymore

Sempre enlaçados acabamos sentados, abraçados, beijados, mãos que procuram, tesouros que se oferecem. Roupas que estão já longe. Nunca iniciado, nunca terminado.

you say don't hate me baby
it won't hurt you if you do
you got no reason not to
she'll kiss you on the head
says there's no easy road for leaving
if it hurts you too

Lloyd canta o tragar das nossas imaginações numa realidade que se vai formando, qual Camelot, dum sonho de ouro e sedas, vidas que se vão desvanecendo numa.
És tu que páras por um momento, e te encontas a meu peito e tomo-te assim ao colo, te levo até ao lugar que não existe, aquele, sabes? O que é proíbido porque é perfeito. Assim ficamos tão silenciosos que Lloyd cresce dentro nós formando uma vaga que sabemos nos irá afogar no momento em que soubemos que por ela quizemos viver.

and you lie there without sleeping
and you stare at your wall
and you realize you're not weeping
you don't need her anymore

Unimo-nos!

you walk by the old place
looks like just any other place
yeah that's what you say
you say i'll be okay
yes i'll find a new way of living
sure i will

Cada som, cada murmúrio, cada palavra, são o desnecessário para provar que está a acontecer o milagre de sermos um. Cada vez mais, mais forte, mais alegre, mais possivel. O tempo? Deixou de ser. As dimensões, apenas nós. O ar? O que respiro de ti. Eu? Sou só mais tu.
O ritmo é o de Lloyd a música é a da tua vida onde eu estou agora.

and you lie there without sleeping
and you stare at your wall
and you realize you're not weeping
you don't need her anymore

As flores que se elevam de ti, no momento da libertação do jardim mais privado cheiram a ti. Claro que teria de ser assim. Nasci a saber que seria assim. Simples, terno, perfeito.
De novo estás a meu colo, sonhando que o aconteceu é só algo que é sonho.
Pode ser que seja, mas o momento é real.
E agora que te tive e mais ainda me tiveste, posso morrer.
Já fui o que deveria ser, e sempre serei : Teu.

and you lie there without sleeping
and you stare at your wall
and you realize you're not weeping
'cause you don't need her anymore
you guess that it's over

Adormeces ao som do silêncio, eu cubro a beleza, tu, com a teia da minha paixão.
Desapareço.
Sei que desejas que nunca tenha acontecido. Que tenha sido mais um sonho.
Sempre o sonho.
Sempre o futuro.

Desta vez o futuro parou.

gatsby
14-04-2003, 20:04
Tudo começou com..., realmente minto se disser como começou pois não tenho um momento a que possa chamar de inicio, ou de Big Bang, ou mesmo prólogo.
Mas lembro-me que andava, e que reparei numa folha ainda sem cor que me passou aos olhos em volteio.
Apenas isso.
Nada mais.
Por isso continuei a andar, olhando em volta com a minha cegueira até que perpassaram duas folhas, do amarelo de cabelos que anunciam ventos.
Aqui, o volteio das folhas que se afastavam e chamavam, levaram os meus caminhos numa nova cruzada. Eu, pobre cavaleiro sem montada ou espada.

De duas passaram a cinco, de sete a uma pequena multidão, desta a uma miríade que me afagava e como os cabelos de uma amada, me tocavam a cara e não feriam as mãos, nuas.

Encontro-me assim em mais uma curva dentro de um labirinto verde e escarlate, o uivo dos ventos sussurando por detrás ou gritando pela frente.

Continuo, estou no meu elemento, deixei de novo a decisão a um outro elemento pois o 'eu' ficou já tão longe que nem me recordo do que ele é.

Flores, folhas, tudo é ouro, simples, e volteia e dança e espirala à minha volta. Não vejo mais, apenas a cor que sobe de mim até ao sol que nem entrevejo mas adivinho igual ao que está.

Subo a vereda que encontro na frente levado por um vento quente de sussurros e restolhos. Até ao alto.

Fico aqui, despido contra os ventos brancos que me chegam de todos os sítios abaixo de mim. Abaixo de mim está a cidade, uma cidade, qualquer cidade.

E o dourado forma o 'tu' olhando para mim, que se eleva no ar que se requebra e... que parte.

Fica o branco, o escuro da terra onde os meus pés se confundem com raízes e prisões. Não tenho asas, vejo as miríades ao longe, que são só já uma multidão, e apenas cinco, não, serão só duas... até que uma pousa nas minhas mãos. Escolhe o sossego do meu abraço.

Estou parado, pernas nodosas, a flor fundida no meu corpo.

Sinto um pequena dor, e outra, e agora várias, olho à minha volta, olho-me.

No alto, ao sabor dos ventos, floresci.
Já negro não é o alto, pois torno-me a árvore, de mim e por ela, amarela folha, nascem mais e mais, a minha nudez transformando-se em armadura de ouro, flores.
E tudo começou porque uma folha loura, como cabelos adorados passou tão atrás por mim.

E de novo olho com a minha cegueira a cidade, aquela, qualquer cidade.
Sou só vida transmitida por algo maravilhoso que passou e foi.

Eu?
Um dia caírão folhas de mim, que um vento quente levarão...

Agora, apenas neva.

gatsby
15-04-2003, 19:36
Como está frio.
O gelo arpeja por todo o recanto onde me guardei, mas dentro de mim são coros e multifonias.
Como vim parar aqui? Essa pergunta é o solo operático que não consigo acompanhar. Ou seja e muito simplesmente: não sei. Mas mais, não me preocupa.
Só sei agora que está frio. É uma sensação básica, animal, não intelectualizada, só sentida. E foi isso porque eu parti, lembras-te? Para sentir apenas e mais nada pensar.
Tempo de saír do recanto. Fora, o branco é a envolvência do passo que não se compreende pois nada se vê. Apenas branco, címbalos nos telhados, trompetas de vento anunciadoras de um qualquer argamedão.
Chego ao cais, o Neva está gelado. Absolutamente. Infernalmente. As vagas ficaram imorredoiras no gelo, a lisura esperada não existe, é deveras uma imagem terrífica de braços de água parados para sempre no petrificado do frio.

O que pode fazer o frio. Pode parar o tempo. Uma descoberta? É.
A vontade de caminhar nas águas, qual discipulo de Alguém antigo é forte. Mesmo com alguma batota, vencerei também o elemento.

Neve, gelo, uivo, e o alcool transparente das terras do norte fazem que a minha vontade se faça movimento. E vou.

Díficil andar neste solo que é água porque o ar gélido assim decidiu num repente. Ei, reparem, hehehe, ando sobre as águas, sou também como Ele. Até...

O rio sabe o que é dele, abre-se e fica o meu braço erguido com este papel, uma onda mais, petrificado no inferno frio de S.Petersburgo. Se sinto? Nada. Mais um sítio apenas para esperar o tempo que há-de vir.

Vem sempre.
E depois apenas flutuarei em águas sossegadas.
Rumo ao sul?

Who knows?
Who cares?

gatsby
30-04-2003, 14:00
Eu ia sem destino, perfeito caminho quando as rotas são amadas. E ia assim eu pela Pont Neuf, ao fim da tarde, momento de vampiros e amores, cores violetas de Manet e gritos não ouvidos de Munch.
Bem, lá ia eu pela Pont Neuf, e olhava aquele jardinzito tão velho, quilha de barcaça de terra apontada a um riacho que tem manias de oceano. Na ponta mais ponta da balaustrada estava um homem, qual rei do mundo, de braços fechados e cabeça sonhadora.
Por ali fiquei olhando a figura que via tapando um bocado de água, parando o sempre correr do tempo. Um grupo de crianças passa por mim e com um som quase inaudivel mas sempre em crescendo começou a contar-me a sua história:

He’s a real Nowhere Man,
Sitting in his Nowhere Land,
Making all his Nowhere plans for nobody.
Doesn’t have a point of view,
Knows not where he’s going to,
Isn’t he a bit just like you?

Ei? Grito para baixo, porque estás nesse limbo?
E com as crianças pergunto-lhe:

Nowhere man please listen,
You don't know what you're missing,
Nowhere Man, the world is at your command.

Virando-se com alguma calma e estudada pose, fico a olhar uma silhueta que se torna familiar. O seu olhar não me trespassa mas apenas passa através de mim,

He’s as blind as he can be,
Just sees what he wants to see,
Nowhere Man can you see me at all?

A noite cai já, as crianças vão longe, mas o seu cantochão é audivel pelas ruelas de S.Louis, quase espero Quasimodo vindo de uma página amarelada de um qualquer alfarrábio, e de novo uso as vozes límpidas já tão longinquas...

Nowhere Man don’t worry,
Take your time, don’t hurry,
Leave it all till somebody else,
Lends you a hand.

O tempo é, o tempo foi, mas o tempo deixou de ser. O último momento chegou.
Os olhos finalmente se cruzam e irmanam no gémeo perfeito.
Como não poderia ser de um outro modo? Era eu que me via em outro tempo, em outro dia, em outra era.
É eu que ali estou. E eu que de cima me vejo em baixo.
E o rio que ilumina ambos, Azul, verde, e principalmente negro. Dos sinos de Notre Dame vem a resposta.

You’re a real Nowhere Man,
Sitting in your Nowhere Land,
Making all yours Nowhere plans for nobody.
Making all yours Nowhere plans for nobody.
Making all yours Nowhere plans for nobody

Segui caminho. Não tinha sombra.

gatsby
09-05-2003, 16:11
O sol é abrasador.
Não há fuga ao amarelo ouro que fulge à minha volta e me esconde os pensamentos.
Ando há três dias já. Só. A minha companhia é uma solitária sombra e a elegia desta caminhada. Mas quantos fins e inicios de futuros forem necessários eu caminharei até lá. E, como sempre, estás tu a olhar esta míssiva passada de uma aventura que eu vivo agora e te perguntas o porquê?
É assim que deve ser. É assim que eu quero. É assim que sabes depois, agora, o que eu tentei fazer antes, no meu agora que escrevo.
Esse tempo diferente entre o teu conhecimento da minhas vidas e o hoje em que ela acontece cria o lapso do não entendimento. Porque se me lês eu já cheguei e já parti, mas eu escrevo sem lá chegar.
Mas é assim mesmo. Eu tenho pela frente o mar amarelo, o fulgor da luz, as ondas que subo e transponho e tu tens a memória do meu feito.
Eu ainda não o fiz, tu sabes que eu consegui.
A sabedoria está em ti, afinal e sempre.

Está sol, muito, luz, brilhos diamantinos no meu caminho que não existe mas eu adivinho. E lá me vou, com a minha solidão prazenteira por sítios que não existem e assim não posso te descrever. Apenas as ondas de areia, a bússola da minha sensação e a vontade da procura.

Mais uma e outra e no alto da mais alta, vejo a toda a minha volta, para o passado da caminhada até aqui e para o futuro do que irei ainda ser como caminhante, ondas mais e mais altas, mais e mais ingremes, e belas, perfeitas, desenhos naturais de um construtor mais alto que o Alto, e sempre amarelas.

Louras serão? Matizadas de sombras? Vertigens de calores e excessos. Porque te vejo a ti em todos os locais, te sinto na minha pele, te entranhas nos meus sentidos.

- Ah! Para onde vais caminhante?
Eu sigo o meu caminho, aquele que não sei mas que está mapeado na minha vontade. Vou até uma gruta. Fica no meio do nada. Quero ver os nadadores ancestrais das paredes, e acabas assim por saber que procurei e encontrei um sítio mais onde procuro as marcas do amor. Disseram-me as vozes do vento velho que um dia antigo ela esteve lá.

Não és tu. Mas salvá-la seria sempre encontrar-te.
Vejo-os agora no meu sossego. Porque só e de novo estou. Partiram as marcas desse amor.
Mas são belos estes nadadores, e existem.

Assim, tendo agora apenas imagens e mais imagens a serem o tecto do mundo, no silencio puro, vejo-os de novo como devem ter sido, nadadores, vivos.
Eles estão, eu não.
As coisas estão como sempre no seu lugar.

E assim parto. Se leres esta minha nova e eterna caminhada é porque outros peregrinos procuraram o dia no escuro deste santuário de pedra e tinta.
E tu peregrino, que levas esta missiva agora, e tu que lês agora, saibam que os tempos diferentes em que contactamos, são o mesmo. O da paixão de viver.

Até.

gatsby
21-05-2003, 16:22
Afinal quem sou?

Que pergunta complicada quando procuro uma porta para passar para outro lado, para procurar o som que ouço.
Sempre as gaitas que me trazem o verde pesado das minhas terras e os granitos sem cor.
Ouço as gaitas do norte e não encontro os caminhos que me levam até elas.

Estou a olhar o mar. Está revolto, escuro, Adamastor está vivo e mostra a sua raiva pelo passado. Mas estou tão a Norte que apenas ouço o seu rugido ao longe. O precipício a meus pés é tentador, leva os meus olhos, que sempre procuram e cansados estão já de não encontrar, a fundos de ondas e topos de espumas. O fantasma do nevoeiro cobre as ruínas rúnicas do castelo de Merlin.

Chamo por Morgana e peço-lhe que o acorde. Mas em vão. Corto vem e diz-me para ir para o sol do Sul. Não, mil vezes não. As gaitas estão aqui. O som misto das naturezas e dos ruidos dos homens vem ter aqui, ao Norte perdido dos Lochs e Nessies e sonhos e amores perdidos na bruma.

É Avalon que eu procuro desde que parti. É Avalon que sei que não encontro mais, porque apenas está no meu coração e essa viagem eu não faço, para dentro, porque essa doi. E não tem retorno.

Guinevere? Onde estás?
Só uma gaita vem pelo vento, só um homem ao longe mostra que existe algo mais que eu e o mar e o medo.

Medo? Muito.
Por estar só, por procurar o que sei sempre que não vou encontrar. O outro Eu.

Uma porta. O mundo por uma porta que me retire daqui e me leve a outros sons e outras caras.

Quero andar.
Quero ser.

Vejo-me da gaivota que no alto plana e sou um homúnculo num promontório com o verde e azul escuro dos altos planos das highlands. Vejo-me da gaivota que no alto plana a abrir os braços e a dar o passo, aquele final.

Sou mais uma gaivota, lanço-me contra Adamastor que ruje e amassa a terra, vou-me a ele, vôo picado direito ao seu coração. Com a mesma vontade que um homem lutou atado ao leme eu estou a entrar por esse mar dentro.

Sou mar agora.
Sou imenso.
Sou quem sou.
Agora sei.

gatsby
30-05-2003, 00:39
O mais longiquo longe é o longe de ti.
O longo tempo sem te ter,
A distancia do teu não ser.

Mais duro que a dor é saber que não estou,
Aì contigo, para onde sempre vou.
Em ti, onde sei que sou.

Perdido de ti, estou perdido de mim.
Assim procuro-me,
Nos esconsos das memórias que não existiram,
Nos tempos que eu sonho mas nunca houveram.

Megulho num futuro,
Num vazio onde não estás mas eu te quero.

Grito.
Corro.
Caio.

E assim fico, de rosto na terra que tu és.
E eu sou só vento que passou.

http://www.royalacademy.org.uk/files/picasso_olga1O1icY.jpg
Pablo Picaso / Olga.

gatsby
14-06-2003, 15:13
Tu não estás.
Eu sei, mas vejo-te.
Tu já não és.
Eu sei, mas sinto-te.

Eu nunca fui.
Tu sabes mas não te importas.
Eu nunca estive.
Tu sabes e me procuras.

Caminhos escuros de memórias diferentes.
Rotas claras de sonhos iguais.

Tu És. Eu, talvez.
Tu Existes. Eu, duvido.
Tu dizes Sim. Eu grito até sempre.

Sempre tu, sempre.
Sempre é agora, estás aì?

Linhas cortadas,
Vidas destroçadas,
Sorrisos de marfim,
Vai! Foge de mim.

Foge ao teu destino
Parte

Foste.



http://www.magnumphotos.com/c/htm/%2E%2E/%2E%2E/LowRes/par/TR3/HAP/Z6IPBCP/PAR38844.jpg

gatsby
25-06-2003, 23:02
ei solidão, vem-me fazer companhia.
o teu manto aquece,
o meu corpo morto.
só.
pouco para dizer, nada para sentir.
suave perda...



http://www.magnumphotos.com/c/htm/%2E%2E/%2E%2E/LowRes/nyc/TR3/MAC/SU6TZPG/NYC25230.jpg

gatsby
18-07-2003, 20:31
http://www.magnumphotos.com/c/htm/%2E%2E/%2E%2E/LowRes/par/TR3/BAB/IFLUSMZ/PAR98480.jpg

Eu não sei que te dizer. Olho a porta que vês agora e nada ou ninguém ou algo ou alguém ou mesmo tu a trespassa.
É assim que fica trespassado o meu interior pelo exterior tão nu quanto o frio que este calor que tu vês nesta fotografia não consegue degelar no meu ser.
Ter, ter-te, saber-te. Procuro por ti aqui, e ali e sempre sei que sou um solitário passeando pelo tempo e sem que um futuro o lembre e um passado o tenha de memória.
Tanto brinco com palavras porque não consigo o som do desespero nem o vagido da alegria. Apenas um som ao fundo me chega por estes corredores adivinhados, aqueles que tu não vês, mas que eu vou percorrer, correr, sempre, atrás do futuro que deverá começar agora.
Levanto-me.
Passei.
Tu só vês a porta.
Já nem sombra sou.
Até que a cor me coma, ao sol seja eu transparente, à noite e não luz seja o conselheiro e companheiro.
Depois?
Ah, depois haverá outra vez a aurora.

gatsby
03-09-2003, 22:36
Mais que os teus olhos, desejo o teu olhar.
Mais que a luz, desejo a tua imagem.
Mais que o escuro da noite, desejo os confins dos brilhos.
Só tenho luz porque sei que tenho noite.
Só tenho o teu movimento porque fico estático.
Só por saber que existes é que eu respiro.
Só porque tu estás apenas e só é que eu quero existir.
Só porque as estrelas brilham é que eu sei o que é o teu olhar.
o resto ...
isso são só memórias perdidas como lágrimas na chuva.




http://www.artonline.it/img/large/233gcd01.jpg

gatsby
13-09-2003, 21:03
Sei que foste.
E sei que te espero,
Aqui,
Só.
A olhar o sal deste mar
Tão imenso,
Quem sabe se de lágrimas feito

Mas sei que voltas
Para aqui, um dia.
Ou tu ou, quem sabe?, o teu sal.

E por isso sei que há futuro.
E assim porque existe,
Viro costas.
Olho a encosta.
Volto a casa.

É nela que encaixas
É nela que respiro.
E assim vivo,
Porque verdade, verdade,
Só vivo para aquilo que quero ser: TEU!



Olhava o mar quando reparei nesta inscrição incompleta em latim de muitos séculos.
O sol declinante tornava o amarelo em ouro e toda a antiga existencia onde estava quase viva.
Olhava eu o mar em Óstia, velho porto de mar da Roma Imperial. Ao levantar-me para vislumbrar as tais encostas fiquei com Roma ao longe, ainda tão longe mas sempre lá.
Percebi que os tempos são sempre iguais para os que ficam, e as aventuras iguais para os que partem.

Uma estela antiga, que apenas consigo entreler e que agora vos transmito, diz-me que afinal a espera é igual, o sal com o mesmo sabor, a saudade é coisa velha...

Olhei de novo o mar, quase escuro, e nada trazia.
Então era tempo de partir e procurar o futuro desta estela, já tão enterrada no passado dos tempos.

gatsby
24-09-2003, 19:35
O dia estava quente, o sol abrasava, mas a brisa vinda do mar que não se via tornava o ar límpido na tarde que caía suave.
Sentado numa pedra velha de um sítio velho de uma cidade velha, olhava para quem pouco passava por ali.
Fixo os meus olhos em alguém que pára no centro do terreiro, palco do meu olhar. É de uma pele cor da rosa quase branca quase perfeita e que em perfeita harmonia tinha a seu colo um bébé cor do ébano.
Que bela visão, a que eu não conseguia dar nome embora o mesmo soubesse eu de cor. Neste meu espanto por tal beleza dou por mim olhando o homem que abre os braços a um olhar amendoado, sinal do sagrado Ganges que corre para ele. Com o Ganges vem um outro olhar feminino mais rasgado, mais longinquo, o sorriso perfeito diz-me que é duma Mongólia sempre eterna.
Fico a olhar o grupo que papagueia feliz, naquele chilrear que apenas uma familia que existe consegue cantar.
Olham todos para mim e sinto-me envergonhado da minha avara solidão.
Mas os deditos que apontam passam através de mim, directos ao tropel que me ultrapassa. São dois míudos quase iguais, tão semelhantes que um só poderiam ser. Passam por mim, de cada lado de mim, como se eu fosse apenas uma rocha de brincadeira, apenas uma travessura.
A estes olho já com mais que curiosidade e sim com inquirição. Quem seriam?
Abraçados, braço por cima do outro ombro, como só duas crianças conseguem, formam um arco triunfal através do qual vejo a familia agora já reunida: chilreio, cor, luz.
Estes dois, intuo de dentro de um sítio de mim que nem me lembrava já, têm na verdade o mesmo sangue a que tempos antigos deram nomes diferentes: judeu e árabe.
Todos agora se vão, viram costas à rocha - eu - de mãos dadas e no bailado de crianças que existem.
Fico a olhar: do colo da rosa perfumada, ébano olha-me por cima do ombro da mãe, sorri e levanta a mãozita.

Ah, agora me lembro do que no inicio me falhava: estava a ver 'A Sagração da Vida'.

gatsby
22-10-2003, 18:46
Na esplanada do Deux Magots, escondo os meus olhos num livro, e espio as mesas à minha volta, plenas de cores, idades, estilos e tudo procurando o que não existe: l'ambience. Em linguas diferentes todos se debruçam numa mesma biblia ilustrada que indica que ali - aqui mesmo - é que é o local boémio. E eu escondo-me no meu livro e espio os olhares que me espiam desconfiados pelo meu livro ser diferente. Não ser uma biblia de roteiro da alegria em pacote.
Tomo o meu café e a minha grappa (tão distante do absinto boémio) fecho os meus olhos com força para desaparecer,

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s`oublier
Qui s`enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
A savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
A coups de pourquoi
Le coeur du bonheur

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Abro um e depois outro, e abrem-se mais e mais, e mais até à dor do que vejo e não creio.
A esplanada está repleta, é fim de tarde, a fauna mudou, camisas brancas e gravatas finas como um chicote palream. Ao fundo um rosto magro continua com voz de abandono,

Moi je t`offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu`après ma mort
Pour couvrir ton corps
D`or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l`amour sera roi
Où l`amour sera loi
Où tu seras reine

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

E fico por ali, seguindo a voz que segue o rio, que segue o passado, que segue o eterno amor perdido,

Je t`inventerai
Des mots insensé
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-là
Qui ont vu deux fois
Leur coeur s`embraser
Je te raconterai
L`histoire de ce roi
Mort de n`avoir pas
Pu te rencontrer

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte Pas
Ne me quitte pas

Olho de novo o meu livro, fecho de novo os meus olhos assustados e maravilhados, desapareço uma e outra vez, e no meu não momento sou apenas uma voz que ecoa por mim

On a vu souvent
Rejaillir le feu
D`un ancien volcan
Qu`on croyait trop vieux
Il est parait-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu`un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu`un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s`épousent-ils pas

Ne me quitte pas
Ne me quitte Pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

De novo detrás do meu livro, com a companhia de missionários de
um mundo que nem imaginam, ouço o som vindo de um carro parado,

Je ne vais plus pleurer
Je ne vais Plus parler
Je me cacherai là
A te regarder
Danser et sourire
Et t`écoutre
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L`ombre de ta main
L`ombre de ton chien

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Ele está a olhar para mim, da janela da velha viatura roufenha, que arranca e desaparece no transito perdido da passado. Corro, fujo e peço,

Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

mas é trop tard, fico apenas no passeio a olhar o horizonte, e pedindo para ser a tua sombra, a sombra da tua mão, a sombra do teu cão, mas ne me quites pas, ne me quites pas!

gatsby
29-10-2003, 19:14
É manhã bem cedo e parto de um qq. sítio da Índia. Sei que é duma cidade, mas nada me interessa porque vou ver o lago, vou ver o banco no lago, vou ver o mármore. Claro que vou de comboio, claro que a confusão é total, claro que mesmo em 1ª classe o cheiro é estranho, mas a cabeça mais próxima (aliás muito próxima para os nossos hábitos e espaços de privacidade europeus) sorri e abana naquele jeito tão estranho e belo que a simplicidade indiana tem, com aquela profundidade no olhar que parece ter já milénios de vidas revividas e depois com o sorriso de um recém-nascido.
Corro mundos que não conheço e que não têm qualquer ideia de mim. Ao fundo um rio, búfalos num rio, crianças num rio, vida num rio, um rio de vida.
Mas a viagem nem importa desta vez, porque eu apenas sinto a necessidade de chegar lá. Apenas retenho as mudanças tão radicais de luminosidades, qual festival wartholiano de cores e os sons em cacafonia e contraditoriamente harmónicos, como se me sentisse dentro do som em si e não ele entrando em mim.
Foi ao fim da tarde, dizem que é a hora perfeita - não sei, mas agora estou calado a olhar o que sempre existiu em mim, a admiração por ele, por quem disse um dia que a sua amada era tal que deveria existir algo tão belo quanto ela. Mas não há, há apenas a perfeição feita humana:
O Taj Mahal.
Não é branco, é mais que isso, é alvo. Não é belo, é além disso, é talvez perfeito.
E assim sento-me no banco ao longo do lago que é rio e olho apenas, porque explicar seria diminuir. Ele está ali. Eu também.
Não saio mais.





http://www.photoeye.com/_cache/9ecf50a27e398ecf8f97aec96a9e9ddb.jpg

gatsby
08-12-2003, 14:07
encontrei-o por mero acaso. Ou será que nunca Corto é um acaso?.
Ele no seu pensamento convidou-me.
E eu aproveito a porta que ele abre algures numa praça velha da Veneza que não existe, e entro num outro mundo.
Um qualquer que não seja este.


http://perso.wanadoo.fr/web.on-line/imagdautre/nuages.jpg

até que encontre o caminho de volta... até lá, que agora vou...

gatsby
25-12-2003, 23:37
lost my time lost my place in
sky blue
those two blue eyes light your face in
sky blue
i know how to fly, i know how to drown in
sky blue

warm wind blowing over the earth
sky blue
i sing through the land, the land sings through me
sky blue
reaching into the deepest shade of
sky blue

sky blue
so tired of all this travelling
so many miles away from home
i keep moving to be stable
free to wander, free to roam

train pulled out said my goodbyes
sky blue
back on the road alone with the sky
sky blue
there’s a presence here no one denies
sky blue

sky blue

sky blue
so tired of all this travelling
so many miles away from home
i keep moving to be stable
free to wander, free to roam

i can hear the same voice calling
crying out, from my heart
and that cry, what a cry
what a cry, it’s going to be
if i can stop to let it out, oh



http://www.petergabriel.com/biog/left/images/applead.jpg

gatsby
05-02-2004, 19:00
Vou passando pela porta do Hotel Moscovo, deixando para trás a Praça Vermelha e as torres de açucar da Catedral. Sigo o meu olhar, e este procura um uniforme. Uniformes que tantos havia do Império que já não é.
Decido voltar até à praça. Procuro de novo os uniformes, e os tótós de papel da meninas que vinham de toda a imensidão da terra russa para ver a Praça e saudar os seus heróis.
Já não há meninas e já não há herois.
Procuro a voz. Desde que estou em Moscovo procuro a voz perdida que um dia encontrei no Teatro Tchaikowsky. A voz pura de um uniforme do exército soviético. Do seu coro.
Foi na penumbra desse teatro moscovita que ouvi essa voz, com mais, muitas mais vozes, chorar a alma russa. Os homens do Don sê-lo-ão sempre. Cossacos. Com vozes tristes de melodias espantosas que mostram a neve, a planicie do tamanho de um continente, as agruras de uma vida sem futuro.
Velhas vozes em corpos jovens.
Já não encontro. Nem o uniforme nem a voz numa Moscovo que continua igual na sua fantasmagoria mas diferente no seu sentir.
A moscovo vermelha de estrela de cinco pontas apontada a cada um dos 'estrangeiros' como um dedo acusador: Tu és diferente, tu não podes ser real.
Irreal numa Moscovo rubra de edificios que assutavam na noite branca do Verão.
Mas hoje? Já não vejo os jovens a procurarem a vida como se esta fosse um bem não distribuido nas lojas de estado. Também não encontro Arbat. Já não está lá a rua Arbat com a sua gente, apenas mais uma rua de anúncios.
Já não encontro as flores e os herois da guerra patriotica.
Foram embora. E deixaram Moscovo orfã.
Falta-me a voz.
Falta-me.
Vladimir Illitch, já não te cantam. Podes assim partir em paz, mas a dor que deixam é que nada cantam.
Dasvidanya povo enorme, maravilhoso povo russo.
Perco-me pelos caminhos que me levam a um outro lugar. Vou silencioso, vou só.

gatsby
04-03-2004, 18:45
- Foi aqui.
- Aliás, melhor será dizer que foi daqui, desta rocha, esta aqui, a terceira a contar da minha direita.
Ouço distraído o guia que me encontrou perdido. Afinal foi daqui, e foi há tanto tempo já que o tempo em que foi se perdeu.
Apenas sabemos que o livro que descrevia este 'aqui' se perdeu também em França na Idade Média, num convento de copistas.
Mas temos a cópia, aliás temos várias cópias.
Foi há tanto tempo mas ainda hoje do caminho logo abaixo os olhares dos passantes são receosos, ou iluminados, como se ainda fosse agora o tal tempo que já não se sabe quando.

Foi-se agora o guia e fico eu. Ah, e claro a rocha, a tal, a terceira a contar da direita, donde foi que...

Ao fundo vejo o mar, no caminho um grupo de idosas persigna-se à passagem, Por mim? Nã, claro que é por ele, por foi daqui que há tanto já que já não se sabe quando, ele se foi daqui, desta rocha. Iço-me, em cima da rocha abro os braços como está escrito que ele o fez. Não estou de branco mas também me atiro da altura para tocar o Sol. Ícaro pelo menos aproximou-se antes da queda, eu nem isso.
Será que o local onde me desfaço também é o mesmo? Não sei, porque já não existo.
Foi dali que ele se tornou eterno, e foi dali que eu apenas me despedacei.

gatsby
17-03-2004, 19:39
http://www.photomadrid.com/fotos%20grandes/Atocha%20estacion%20jardin%201.jpg

As árvores são estáticas,
como parado estou eu a olhar a tua falta.
As árvores são coleantes,
como a minha miséria ansiosa na tua perda
As árvores morrem de pé,
como tu desapareceste numa manhã.

As árvores ficaram,
e eu e o nada.

E porque estão lá em Attocha,
estou eu aqui sem ti, só,
sem ser.

Deixei de ser,
Deixei de querer,
Deixei apenas de te ter!
As arvores continuam,
mas jamais serão belas, apenas serão isso: arvores.

Unregistered
27-07-2004, 19:02
que lhe aconteceu ?

Ventor
17-09-2004, 22:01
Ter-se-á perdido pelas sete partidas do Mundo? Não acredito! Não acredito que se esqueça de caminhar em mais uma partida. Porque não a OITAVA?!

Homens como o Gatsby nunca partem ou eu vou ter de reaprender tudo?

Vamos lá amigo refazer a nossa caminhada. Ou não vale a pena?

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