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Painted by Gatsby

gatsby
21-03-2003, 15:10
Mais que os teus olhos, desejo o teu olhar.
Mais que a luz, desejo a tua imagem.
Mais que o escuro da noite, desejo os confins dos brilhos.
Só tenho luz porque sei que tenho noite.
Só tenho o teu movimento porque fico estático.
Só por saber que existes é que eu respiro.
Só porque tu estás apenas e só é que eu quero existir.
Só porque as estrelas brilham é que eu sei o que é o teu olhar.
o resto ...
isso são só memórias perdidas como lágrimas na chuva.




http://www.artonline.it/img/large/233gcd01.jpg

gatsby
21-03-2003, 15:30
atrás dos tempos, tempos vêem
os relógios são maquinetas que não contam o eterno
e sempre que um existe, o eterno se manifesta

por isso, sabes meu velho ?
foste tu que pelos caminhos dos tempos
me mostrastes a passagem para o caminho seguinte,

e assim eu sei que há mais outro caminho,
e depois outro, mais duro ou mais longinquo,
mas sempre belo, porque está lá, ali, no proximo passo.

o tempo pergunta quanto mais tempo ?
e resposta é sempre o eterno, é sempre este momento.

seguimos o som de uma flauta encantada na voz de um companheiro
e ela leva-nos,
e vamos,
e eu vou contigo, e mais todos os outros.
e assim fazemos o mais belo : o nós !

gatsby
21-03-2003, 15:39
Nasceu num dia de final de taça. O Porto ganhou.

Era feriado, o ano corria para o Europeu de 1984.

Ao almoço avisou que não havia mais tempo, e prantou-se ao mundo às 5 em ponto. Era rapaz. Era o meu rapaz. Depois a história é pública, Zidanne na altura chamava-se Platini mas o resultado foi o mesmo, fomos borda fora no dia do seu baptizado. Lembro-me bem de ele ter esticado os bracitos para a televisão aos berros, tantos quantos os nossos todos naquele dia glorioso em que o Carlos ganhou o ouro e todos fomos portugueses, outra vez. Ano em grande aquele.

E depois veio o costume, fraldas e mais fraldas que foi há tão pouco tempo mas ainda eram de pano, que estas coisas descartaveis eram raras e caras. Milagres para a mais nova dez anos depois. O rapazito só conhecia o futuro, mal andava e Europa com ele, e connosco.

A memória dos anos é rápida. E pára repentinamente num Natal.

O filme da quadra "A Bela e o Monstro". Fomos todos com os míudos ao Batalha ( que se calhar já nem é cinema ), e tinha temperatura ... muita.

E continuou a temperatura, e as análises, e os virus que podem ser. E os médicos amigos a achar nada, "não é nada pá ... ". E logo, logo foi o baptizado da minha sobrinha e o sobrolho que vai que tem de inchar. Canseiras, preocupações, hospitais e mais hospitais ... e nada. E começa o medo.

E foi assim que a 19 de janeiro caiu o Mundo. Prontos! Acabou-se. O cachopo que era uma fonte de vida e rebelde como o raio que ilumina recebe de prenda uma leucemia. A 20 Clinton jura proteger a America e o Mundo, mas o meu parece que se tinha ido. E sai de chofre a primeira decisão : tratá-lo aqui ou no estrangeiro ? as médicas dividem-se ... eu estou onde não estou.

Decido começar o projecto mais duro da minha vida num hospital público do Porto, onde tinha entrado, de onde havia de saír. Na primeira noite, porque as noites eram só deles, isolados, defensivos, lutadores, levei uma ratinha de peluche (um brinquedo proíbido), e um papel para ele ler ... o primeiro de muitos e muitos.

É, o futuro tem muitas caminhadas. E marcos, e o marco da sua cura é a rua de novo, ao fundo.

E foi assim, o isolamento, os tratamentos, as partidas para o nunca de companheiros de guerra, a mais dura, a que vale a pena, a guerra por respirar mais uma vez. Mas firme, lágrimas não pode, cara lavada e olhar em frente. 8 meses a lutar.

Falar do que foi não interessa. Dos momentos de pânico (ainda se consegue dormir algumas noites, somos tão fracos), das alegrias das idas à janela e ver o mundo lá fora ... só lá fora ... só.

E hoje, dez anos depois ?

Porque acreditei, porque ele acreditou, porque devemos SEMPRE acreditar ... tem mais um palmo que eu, é um jovem rebelde como o raio. E a ratita ainda me olha todos os dias no seu quarto, porque a memória existe e é boa.

E está aqui, e por ele também eu.

Lições? Tantas que só tenho uma : ACREDITAR. ACREDITAR SEMPRE.

Sou feliz? Muito. Tenho vontade de viver? Muita. Viver hoje e saber que amanhã poderá ser. Também. E isso é bom.

Uma pequena história. A do meu filho. A minha.

gatsby
21-03-2003, 15:49
http://imagecache2.allposters.com/images/27/013_ST2371.jpg

cheguei três dias antes.
nesses tempos os tempos eram de borla ...
e os comboios e boleias davam horas de avanço e dias de atraso.

mas para este encontro não podia haver atraso.
e assim, cheguei mesmo três dias antes.
e o tempo lá estava parado.

ficamos em mestre, lembras ? porque a isola era cara para todos nós e ainda mais pelo que aì vinha.
e fomos todos até s.marcos.
uma bebida na esplanada sem música porque a música era de borla naquelas paredes brancas e nos ecos cavos de s.marcos... mas não era nas cadeiras da orquestra.

e choveu.
e choveu muito mesmo.
e nós dançamos à chuva de s.marcos, e connosco toda a fauna que chegava para o acontecimento.

veneza não era a mesma, o frisson estava no ar.
mas os dias serviram para ver tudo, mesmo o que não se vê mas sente-se.

e sempre s.marcos.
o escuro de ouro da catedral.
a catacumba plena.

e o cavalos e a vista... e aquilo que já faziam no canal que parece já mar aberto.

e veio o terceiro dia.
e veneza mudou.
e s.marcos vestiu-se de cores.
e o dia terminava.
aquele dia que não terminava mais.

fomos com todos os outros até às colunas.
no mar canal a barcaça tinha um arco gigante
e o nosso coração não cabia... era um coração de milhares.
nós sabiamos que estavamos ali e que toda a vida iríamos saber que estívemos ali.

e fez-se crepusculo.
e...
repentinamente uma luz na água... e outra... e mais.

e então: "ein, swai, trei"

o mundo parou, o tempo parou, só os olhos e os ouvidos e as mãos e o corpo não.
foi como se tivessemos nascido para "aquilo".

"mother, should i run for president..."

e foi,
"i wish you were here"

e terminou noite fora.
o canal mar vibrava.

vieram todos embora. eu não.
eu fiquei.
e ainda lá estou.
a ver a sentir a ouvir a viver a respirar.
e tu, que já não és na minha vida também és ali, aqui.

e se um dia, ò tu que lês e perdes assim o teu tempo passares no passeio dos doges frente ao mar imenso que ali adivinhas ... eu estou por ali, sentado, a olhar aquele aro de fogo ... "shine on your crazy diamonds"

tanti anno fa cuore, tanti anno para esse concerto dos floyd que se chamam pink... mas.. repara, está a ser agora,

olha
e todos em coro :

the lunatic is my head
the lunatic is my hea
the lunatic is my he
the lunatic is my h
the lunatic is my
the lunatic is m
the lunatic is
the lunatic is --------- me

gatsby
25-03-2003, 17:48
Toujours Paris.

É sítio onde estou em tantos sítios que poucos devem haver a povoar-me memórias e cheiros, sabores e olhares.

É em Paris que fica um dos meus santuários, um daqueles sítios onde me esqueço de mim e me lembro tantos dos outros ... que muitas vezes me volto na sua direcção, qual Caaba de uma minha religião privada. Falo da Saint Chapelle que com a sua luz azul e som de silencios feitos me faz ser melhor do que sou, acreditar que uns animais erectos que povoam esta coisa redonda também azul não podem ser maus com os pintam.

Foi na Chapelle que eu ouvi um coro tão explendido, tão puro, tão perfeito de um grupo de meninos ... que sempre estarei sentado a olhar para os vitrais iluminados com o Sol da tarde e a ouvi-los cantar "cette petite chanson si mignone". Assim, quem me quizer conhecer, um dia na Saint-Chapelle encontrará alguém sentado a olhar para os vitrais azuis e saberá que sou eu.

Mas como sempre volto lá, também dessa vez há anos já, fui passear para os quadros da Ille de St. Louis. Por essas ruelas, poucas que a ilha também é apoucada, existe um número não grande mas suficiente de antiquários que me permitem visitar todos os museus em pequenas salas tão privadas que se tornam num útero criador de almas.

Mas não é nada disto que me leva a Paris hoje por escrito, porque por memória nunca saio, é uma história linda de morrer da minha querida companheira de vida Teresa.

A gente era muito jovem como soe dizer-se, e além de jovem era muito parca de tostões, ou seja estávamos tesos. Mas a Teresa e eu tomavamos o café nos "cafés" que para mais dislates dinheiro não havia ... e o café por vezes escolhido ficava próximo de um belíssimo restaurante que fascinava a sua imaginação e prazer por uma loucura a que chamavam "Mousse Royalle" servida àqueles seres eleitos que, lá sentados na esplanada, recebiam um frappê de cristal cheio literalmente de uma mousse tão cremosa e escura que trazia ainda os chocolates rituais dos Maias. O som dos violinos chegavam até nós, os olhares de deleite também, o cheiro adivinhava-se. Mas não podia ser.

Até que próximo do fim dos tempos por lá disse à Teresa : Põe-te mais linda do que linda és ! E ficou mais estonteante do que sempre foi e é.

E assim íamos pelo Boulevard, mãos entrelaçadas, a noite convidando ... mas ainda não, Lua, a tua hora chegará. O caminho levava-me directo ao "inferno" do gosto e ao proibido da carteira. E assim, ela Teresa qual cordeiro levado por mão ímpia ia sossegada e no seu andar desassossegava todos os que a ollhavam. Os violinos já se ouviam ... e páro ! "monsieur, une table pour deux !". Aqui é que começou a abanar o barco. O socialismo puro da nossa relação não compreendia o gasto impossivel de tal repasto, mas era tarde, já sentados estava-me o seu olhar a dizer milhões de coisas que o meu sorriso não ouvia.

E chega o momento da verdade ! Era a carta para o jantar ... mas aì entro eu e sem mais e a frio ... é uma mousse royalle ! !!! !!! Poucas vezes vi um "tio" mais abanado, o homem via dois miúdos a fazer dele parvo, e o local tão grã-fino a não permitir uma cena.
- Quelque chose de plus ?
- Oui. Deux Evians.

E assim foi, a fragância doce mais perfeita da minha vida, o som dos violinos à nossa volta e a paga de um olhar que tudo compreendia e mais prometia. O restaurante apaixonou-se por nós que estávamos apaixonados e sós mas tanto olhados e aplaudidos em silencio por todos os que estavam e compreendiam o que amor queria dizer. E repentinamente um jovem casal louro olhava para nós, da rua, imaginando o prazer que seria estar ali, no meio dos eleitos, ... , foi rápido explicar o truque, um salto meu à rua e a paga cúmplice dos que sabem o significado da paixão.

Ficámos, sorriram-nos os eleitos regulares, fotos foram tiradas de mesas nunca lembradas àqueles dois que tinham saltado as barreiras e que seriam a mesa nunca esquecida.

Já lá voltei ? Nunca. Mas passámos mais que uma vez à sua entrada, com os filhos, a quem contámos esta historieta. Valeu a pena pelo sorriso deles. Se pelo resto tinha sido um momento único sei agora que é um momento eterno.

É por isso que Paris é uma festa.
Por isso e pela minha Teresa

http://www.magnumphotos.com/c/htm/%2E%2E/%2E%2E/LowRes/par/TR3/HCB/CFB8WL8/PAR19117.jpg

gatsby
25-03-2003, 18:01
Pedir para eu escrever, de novo, é qq. coisa.Nasci profissionalmente com os computadores e sempre escrevi com facilidade neles mas o ódio do texto não manuscrito afastou-me do "escrever". Passei assim a fazer toda a minha obrigação da palavra mas não mais escrevi.

Escrever significa existir. Significa que juntamos dois actos intelectuais, um emocional e fisico tendo como resultado uma obra : intelectuais ligados ao raciocinio gramatical e ao raciocinio da ideia, o emocional ligado ao prazer do acto e da eventual história, e o fisico ... o de mexer a mão e segurar a caneta.

Desta confusão sai uma criação, um desenho, uma pintura mono ou policromática cuja interpretação nos é dada pelo reconhecimento dos elementos que fazem essa obra e que separados ou em conjunto são interpretados por nós com um determinado sentido ... tal como um quadro figurativo cuja leitura se torna possivel, a senhora com o menino por exemplo é legivel por nós como uma senhora com um menino.
Até aqui provei que existo porque escrevo.
Então qual o beneficio de andar ?

Ah.

Eu ando porque só no meu movimento eu vou conseguir interiorizar os momentos que quero mais tarde exteriorizar na escrita. E assim andando existo e existindo ando. Complicado ?

Nada. Parado a minha visão é sempra a mesma e não tendo um olhar superior, inferior, em suma diferente do quadro que é a vida eu apenas farei um único desenho, sempre igual, a mesma palavra, a inicial que eu escrevi ... pois sem me mover nada aprendo e nada de diferente posso escrever.

(E aqui estou a andar em circulos).

Mas será que a pintura que eu agora faço e tu vês e lês diz o que está na minha mente, no meu intimo ?será ?

Dali, a quem chamamos Salvador pintou uma vez um quadro explendido que ao longe parece ( e é) um retrato de Lincoln mas que olhando e andando se torna no nú de Gala, a sua amada eterna. Então o que está no quadro ? a barba ou a púbis ? o raciocinio visivel ou o instinto sempre presente e nunca escrito?

Então porque estou agora a escrever ? não sei, porque pediste, porque existes ... mas ainda só sei escrever sobre o porquê de eu não escrever.
Assim todo este texto é sobre a minha não escrita ... é para te dizer porque não escrevo.

gatsby
02-04-2003, 18:29
Mr. Joe Gideon

Acabei de rever "All That Jazz" depois de muitos anos.
É claro que tinha a banda sonora e isso tudo e que me lembrava de uma ou outra cena, mas foi um murro no estomago. FOI UM MURRO NO ESTOMAGO.
Desculpem lá pázinhos mas escrevo aqui para mim agora, às vezes dá para isso. E escrevo aqui porque é o sítio que me apetece.

Porra meu, mas tu não aprendes nunca?
mas tu, rais te f..., não vês o que andas a fazer da tua vida ? Como é que quando viste isto há tantos anos não entendeste sheet do que estavas a ver?
Dasse meu, tu só corres, que vida doida que tu levas ...

Work, work, work, pois tem que ser e blá, blá, blá. Ei, meu, viste o Gideon?
Fez-te mal aos neurónios ? Foi espelho ? Aprendeste ?

Dasse meu, tu que não comes para teres dois terminais em frente a ti ... e um ainda para comunicares com alguém senão enlouqueces ... números, empresas, dinheiro, yeah vais longe... é as dores que sentes de vez em qd. é só gazes... não é nada, não vai ser...

Pois é meu, pode ser um dia... e depois... yeah meu, as empresas continuam sabe-se lá como mas continuam, o mundo anda à roda na mesma...

who's sorry now? Tu? Vale largete...

Dasse meu, para quê? para curtires uma vida mais fixe? 10 horas de trabalho continuo?
E tempo no meio do tempo para bitaites e amigos que ligam e confusões que armam?
E tu ? hello ? Estás aì ? Por quanto mais, meu ?

Exercício, pois é... não se compra... andar um bocado mais... pois e os números e quem está a decidir e isto e aquilo e...

Ei meu, apaga este texto, tem vergonha.

Faz-te à vida, mas para a tua vida... ou é mesmo

bye bye life, bye bye hapiness, hello lonelyness, i think i gonna die...

Leste o escreveste? ná... ,é só show off, o tipo até sabe umas merdas e filmes e coisa e lê... pois meu... tu abafas...

Tás a ver que nem uma ideia te sai, nem escrever sabes ... mister show tudo e mais alguma coisa...

Mr. Gideon ? É o teu nome ? É o queres ser ?
Então vai, mas não chateies,

12-07-2002



http://images.amazon.com/images/P/6303394000.01.LZZZZZZZ.jpg

lfrias
11-07-2003, 20:59
x

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