Óscar
28-01-2004, 02:19
A Caça ao Tesouro
Por EDUARDO PRADO COELHO
Terça-feira, 27 de Janeiro de 2004
David Kay era até há pouco responsável pelo Irak Survey Group, que tinha por missão encontrar as famosas armas de destruição maciça. Bush tinha provas de que elas existiam. Colin Powell foi encarregado de dizer que tinha essas provas e mostrou-se à altura da missão. Tony Blair sonhava todas as noites com as provas que tinha. Os seus colaboradores terão mesmo forçado a realidade para que as provas fossem ainda mais visíveis. David Kelly ter-se-á suicidado por causa disso. Durão Barroso acreditou piamente nos que diziam que tinham provas. E assim se arranjou uma hierarquia de boas razões que justificavam que os EUA e o mundo livre atacassem o Iraque: primeiro a ameaça para a paz por causa da existência de armas de destruição maciça; depois, a ligação à Al-Qaeda; por fim, tratar-se de uma feroz ditadura.
Ora, alguns meses depois, David Kay vem dizer que não se encontrou a menor prova da existência dessas armas, nem sequer de um programa para a produção de tais armas: um apontamento, um papelinho uma toalha de restaurante. Esforçaram-se imenso, mobilizaram 1400 homens, procurou-se por toda a parte e - arreliador contratempo - nada! Quanto há existência de ligações à Al-Qaeda, também nunca se encontrou nada, mas a verdade é que, depois da invasão, elas começaram a verificar-se. Isto é, acabou por se produzir o que se procurava evitar. O terceiro ponto não parecia contestado por ninguém: Saddam era um ditador sanguinário. Mas estarão os EUA certos de que não há mais ditaduras no mundo? Vão intervir em todas? E as condições dos detidos em Guantanamo correspondem aos princípios elementares dos direitos do homem?
Para infelicidade de Bush (nem tudo são rosas, Presidente), no seu recente discurso ele justificou mais uma vez a invasão do Iraque citando... o quê? Um relatório de David Kay. E disse: "O relatório Kay identificou dezenas de actividades ligadas a programas de destruição maciça e uma quantidade significativa de equipamentos que o Iraque dissimulava às Nações Unidas. Se não tivéssemos agido, os programas de armas de destruição maciça do ditador continuariam hoje." Azar! Que diz hoje Kay em relação às armas químicas e biológicas? "Não penso que tenham existido. Penso que houve 'stocks' no fim da Guerra do Golfo, e que a conjugação do trabalho dos inspectores da ONU e das acções unilaterais iraquianas fê-los desaparecer. Penso que temos a prova manifesta de que não relançaram de uma forma ampla a sua produção." Quanto ao programa nuclear, "terá havido o relançamento de certas actividades, mas elas eram rudimentares. O programa não estava inteiramente adormecido porque continuavam pequenas coisas, mas de modo algum foi relançado de forma significativa."
Entretanto, já morreram mais de 500 soldados americanos no Iraque depois do fim da guerra. Todos estes dados podem não ser decisivos, mas aconselhariam a um pouco mais de modéstia nos partidários de Bush (os verdadeiros "antiamericanos", aliás).
http://jornal.publico.pt/2004/01/27/EspacoPublico/O02.html
Por EDUARDO PRADO COELHO
Terça-feira, 27 de Janeiro de 2004
David Kay era até há pouco responsável pelo Irak Survey Group, que tinha por missão encontrar as famosas armas de destruição maciça. Bush tinha provas de que elas existiam. Colin Powell foi encarregado de dizer que tinha essas provas e mostrou-se à altura da missão. Tony Blair sonhava todas as noites com as provas que tinha. Os seus colaboradores terão mesmo forçado a realidade para que as provas fossem ainda mais visíveis. David Kelly ter-se-á suicidado por causa disso. Durão Barroso acreditou piamente nos que diziam que tinham provas. E assim se arranjou uma hierarquia de boas razões que justificavam que os EUA e o mundo livre atacassem o Iraque: primeiro a ameaça para a paz por causa da existência de armas de destruição maciça; depois, a ligação à Al-Qaeda; por fim, tratar-se de uma feroz ditadura.
Ora, alguns meses depois, David Kay vem dizer que não se encontrou a menor prova da existência dessas armas, nem sequer de um programa para a produção de tais armas: um apontamento, um papelinho uma toalha de restaurante. Esforçaram-se imenso, mobilizaram 1400 homens, procurou-se por toda a parte e - arreliador contratempo - nada! Quanto há existência de ligações à Al-Qaeda, também nunca se encontrou nada, mas a verdade é que, depois da invasão, elas começaram a verificar-se. Isto é, acabou por se produzir o que se procurava evitar. O terceiro ponto não parecia contestado por ninguém: Saddam era um ditador sanguinário. Mas estarão os EUA certos de que não há mais ditaduras no mundo? Vão intervir em todas? E as condições dos detidos em Guantanamo correspondem aos princípios elementares dos direitos do homem?
Para infelicidade de Bush (nem tudo são rosas, Presidente), no seu recente discurso ele justificou mais uma vez a invasão do Iraque citando... o quê? Um relatório de David Kay. E disse: "O relatório Kay identificou dezenas de actividades ligadas a programas de destruição maciça e uma quantidade significativa de equipamentos que o Iraque dissimulava às Nações Unidas. Se não tivéssemos agido, os programas de armas de destruição maciça do ditador continuariam hoje." Azar! Que diz hoje Kay em relação às armas químicas e biológicas? "Não penso que tenham existido. Penso que houve 'stocks' no fim da Guerra do Golfo, e que a conjugação do trabalho dos inspectores da ONU e das acções unilaterais iraquianas fê-los desaparecer. Penso que temos a prova manifesta de que não relançaram de uma forma ampla a sua produção." Quanto ao programa nuclear, "terá havido o relançamento de certas actividades, mas elas eram rudimentares. O programa não estava inteiramente adormecido porque continuavam pequenas coisas, mas de modo algum foi relançado de forma significativa."
Entretanto, já morreram mais de 500 soldados americanos no Iraque depois do fim da guerra. Todos estes dados podem não ser decisivos, mas aconselhariam a um pouco mais de modéstia nos partidários de Bush (os verdadeiros "antiamericanos", aliás).
http://jornal.publico.pt/2004/01/27/EspacoPublico/O02.html
