Patacôncio
29-03-2004, 23:56
Contra as injustiças do mundo...
Relativismos (http://jornal.publico.pt/publico/2004/03/27/EspacoPublico/O02.html)
Relativismos
Por HELENA MATOS
Sábado, 27 de Março de 2004
"Um grande obstáculo à paz foi removido", afirmou Pepetela. "Penso que se deu uma alteração qualitativa na situação e que estão criadas as condições para que a paz chegue", disse Carlos Carvalhas. A alteração qualitativa referida por Carlos Carvalhas nesta sua declaração nascia do assassinato de um líder, mais precisamente do anúncio, em Fevereiro de 2002, de Jonas Savimbi pelas tropas do MPLA. O próprio secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, aconselhou todas as partes do conflito angolano a tirarem partido da situação criada com a morte de Savimbi e a avançarem com o processo de paz.
Dois anos depois, o assassinato dum outro líder, xeque Ahmed Yassin, causou uma enorme consternação mundial, levando alguns destes mesmos protagonistas a considerarem que, com este assassinato, se tinha comprometido a paz. O que distingue o assassinato de Savimbi do do xeque Ahmed Yassin? E isto para nem entrarmos noutro tipo de comparações que nos levariam ao perfil, sem dúvida diverso, destes dois líderes.
Esta gradação na forma de reagir ao assassínio torna-se ainda mais gritante quando não se fala de líderes mas sim de pessoas completamente alheias aos conflitos. Como os jornalistas, por exemplo. Há um ano, morreram dois jornalistas espanhóis no Iraque. Tudo indica que Júlio Parrado e José Couso, os jornalistas em questão, foram mortos por disparos efectuados por tropas norte-americanas. Em Espanha, foram inúmeras as homenagens póstumas aos dois jornalistas e quase mil manifestantes juntaram-se diante da embaixada dos EUA acusando o Governo daquele país do assassínio dos dois repórteres: "Bush, Sharon, terroristas son", "Esos de ahí enfrente matan a la gente" o "Esta embajada está contaminada" foram algumas das palavras de ordem pronunciadas nessa manifestação.
Já neste ano, outro jornalista espanhol morreu ao fazer a cobertura dum conflito. Tratava-se de Ricardo Ortega e não sobreviveu aos disparos que sofreu quando cobria uma manifestação no Haiti. Foram os partidários do ex-Presidente Aristide que dispararam sobre Ricardo Ortega e outros colegas. O cadáver de Ricardo Ortega foi recebido, em Espanha, com tristeza e comoção pelos seus familiares e colegas. Mas a sua morte é um caso definitivamente encerrado, pois não morreu no Iraque mas sim no Haiti.
De igual modo, os próprios factos são sujeitos a esta gradação emocional consoante se ajustam ou não àquelas que são tidas como as causas do momento: há dez anos, precisamente em Março de 1994, a Argélia era transformada num açougue pelos islamistas. Mulheres e crianças eram violadas e degoladas. Estima-se que 100 mil pessoas tenham morrido no conflito com os fundamentalistas. O assassínio de vários jornalistas argelinos pelos islamistas levou a que, como forma de protesto e grito de alerta internacional, as emissões da televisão argelina fossem substituídas pela mira técnica. A 22 de Março de 1994, as ruas de Argel encheram-se de milhares de pessoas numa manifestação anti-islamista convocada por movimentos feministas. Contudo, o eco de tudo isto foi quase nada, pois os grandes títulos da imprensa internacional iam então para a campanha eleitoral no México, a decorrer sob o signo da violência e à sombra do poderoso vizinho do Norte.
Algumas das feministas argelinas procuraram apoio na Europa, nessa mesma Europa cujas elites tidas como mais progressistas, anos antes, haviam apoiado a independência daquela ex-colónia francesa. Mas nos anos 90 ninguém as quis ouvir porque a história que elas tinham para contar não cabia na visão devidamente organizada em colonizadores e colonizados, capitalistas e solidários em que essas elites arrumam o mundo: "Durante dez anos, o meu povo lutou só, durante dez anos entristeceu-me a nossa solidão. (...) Não encontrei ouvidos atentos em Espanha e eu não vinha como representante de nenhum regime ou Governo, mas sim como um membro da sociedade civil que fora condenada à morte pelo GIA [Grupo Islâmico Armado]. Agora espero que o Ocidente tenha compreendido que a ameaça que julgava circunscrita à Argélia é uma ameaça planetária" - declarou em Setembro de 2002 ao jornal "El País", Jalida Toumi, líder nesses anos 80 e 90 da oposição laica e democrática.
Infelizmente, o Ocidente não percebeu nada do que aconteceu na Argélia. E não falta quem prefira acreditar que o terrorismo islâmico é uma consequência do conflito israelo-palestiniano. (Para quem tiver má memória, recorda-se também que neste mesmo ano de 1994 em que o GIA e a FIS [Frente Islâmica de Salvação] semeavam o terror entre os argelinos, israelitas e palestinianos desenvolviam negociações em Tunes e usufruíam duma certa distensão mercê da mediação norueguesa.) Tal como houve quem não quisesse perceber o que aconteceu em Nova Iorque e menos ainda perceber o que aconteceu em Madrid. Porque sobretudo não percebem o mundo em que vivem desde que, em Berlim, o muro caiu.
O ódio aos EUA tornou-se desde então no denominador comum dos desiludidos do comunismo e duma esquerda que, sem acreditar de facto no socialismo como alternativa, não propõe mais nada que medidas tipo "Compensan" aos exageros da economia de mercado. Tornaram-se reactivos, reaccionários no sentido em que se limitam a dizer o que não querem. E o resto é um imenso vazio preenchido com declarações que oscilam entre a Madre Teresa de Calcutá e o rap, à luz das quais a África e o Médio Oriente são transformados numa multidão de desvalidos, a acudir com muitos concertos. Já não se exportam ideologias. Mandam-se ONG. Pelo caminho, fazem-se declarações de fé na paz e lastimam-se as mortes. Embora, claro, existam umas mortes que são mais lamentadas que as outras.
P.S. - "Na Ordem, disseram-me que não podiam fazer nada, porque ele não estava inscrito e mandaram-me ir à polícia. Na polícia disseram que eu não podia apresentar queixa porque não era a doente..." - declarou ao PÚBLICO a filha de uma das pessoas que foram tratadas pelo falso médico Carlos Castro e Silva. Desculpar-me-ão a pergunta, mas se Carlos Castro e Silva não estava inscrito na Ordem podia exercer medicina? Por outro lado, é de esperar que só os próprios possam apresentar queixa na PJ? E como é possível que só os próprios possam apresentar queixa na PJ, ainda para mais estando a falar de Psiquiatria? Em resumo, como podemos ter a certeza de que o médico que nos atende é mesmo médico?
http://www.judea.ru/data/images/articles/1050432794/arafat-saddam.jpg
Relativismos (http://jornal.publico.pt/publico/2004/03/27/EspacoPublico/O02.html)
Relativismos
Por HELENA MATOS
Sábado, 27 de Março de 2004
"Um grande obstáculo à paz foi removido", afirmou Pepetela. "Penso que se deu uma alteração qualitativa na situação e que estão criadas as condições para que a paz chegue", disse Carlos Carvalhas. A alteração qualitativa referida por Carlos Carvalhas nesta sua declaração nascia do assassinato de um líder, mais precisamente do anúncio, em Fevereiro de 2002, de Jonas Savimbi pelas tropas do MPLA. O próprio secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, aconselhou todas as partes do conflito angolano a tirarem partido da situação criada com a morte de Savimbi e a avançarem com o processo de paz.
Dois anos depois, o assassinato dum outro líder, xeque Ahmed Yassin, causou uma enorme consternação mundial, levando alguns destes mesmos protagonistas a considerarem que, com este assassinato, se tinha comprometido a paz. O que distingue o assassinato de Savimbi do do xeque Ahmed Yassin? E isto para nem entrarmos noutro tipo de comparações que nos levariam ao perfil, sem dúvida diverso, destes dois líderes.
Esta gradação na forma de reagir ao assassínio torna-se ainda mais gritante quando não se fala de líderes mas sim de pessoas completamente alheias aos conflitos. Como os jornalistas, por exemplo. Há um ano, morreram dois jornalistas espanhóis no Iraque. Tudo indica que Júlio Parrado e José Couso, os jornalistas em questão, foram mortos por disparos efectuados por tropas norte-americanas. Em Espanha, foram inúmeras as homenagens póstumas aos dois jornalistas e quase mil manifestantes juntaram-se diante da embaixada dos EUA acusando o Governo daquele país do assassínio dos dois repórteres: "Bush, Sharon, terroristas son", "Esos de ahí enfrente matan a la gente" o "Esta embajada está contaminada" foram algumas das palavras de ordem pronunciadas nessa manifestação.
Já neste ano, outro jornalista espanhol morreu ao fazer a cobertura dum conflito. Tratava-se de Ricardo Ortega e não sobreviveu aos disparos que sofreu quando cobria uma manifestação no Haiti. Foram os partidários do ex-Presidente Aristide que dispararam sobre Ricardo Ortega e outros colegas. O cadáver de Ricardo Ortega foi recebido, em Espanha, com tristeza e comoção pelos seus familiares e colegas. Mas a sua morte é um caso definitivamente encerrado, pois não morreu no Iraque mas sim no Haiti.
De igual modo, os próprios factos são sujeitos a esta gradação emocional consoante se ajustam ou não àquelas que são tidas como as causas do momento: há dez anos, precisamente em Março de 1994, a Argélia era transformada num açougue pelos islamistas. Mulheres e crianças eram violadas e degoladas. Estima-se que 100 mil pessoas tenham morrido no conflito com os fundamentalistas. O assassínio de vários jornalistas argelinos pelos islamistas levou a que, como forma de protesto e grito de alerta internacional, as emissões da televisão argelina fossem substituídas pela mira técnica. A 22 de Março de 1994, as ruas de Argel encheram-se de milhares de pessoas numa manifestação anti-islamista convocada por movimentos feministas. Contudo, o eco de tudo isto foi quase nada, pois os grandes títulos da imprensa internacional iam então para a campanha eleitoral no México, a decorrer sob o signo da violência e à sombra do poderoso vizinho do Norte.
Algumas das feministas argelinas procuraram apoio na Europa, nessa mesma Europa cujas elites tidas como mais progressistas, anos antes, haviam apoiado a independência daquela ex-colónia francesa. Mas nos anos 90 ninguém as quis ouvir porque a história que elas tinham para contar não cabia na visão devidamente organizada em colonizadores e colonizados, capitalistas e solidários em que essas elites arrumam o mundo: "Durante dez anos, o meu povo lutou só, durante dez anos entristeceu-me a nossa solidão. (...) Não encontrei ouvidos atentos em Espanha e eu não vinha como representante de nenhum regime ou Governo, mas sim como um membro da sociedade civil que fora condenada à morte pelo GIA [Grupo Islâmico Armado]. Agora espero que o Ocidente tenha compreendido que a ameaça que julgava circunscrita à Argélia é uma ameaça planetária" - declarou em Setembro de 2002 ao jornal "El País", Jalida Toumi, líder nesses anos 80 e 90 da oposição laica e democrática.
Infelizmente, o Ocidente não percebeu nada do que aconteceu na Argélia. E não falta quem prefira acreditar que o terrorismo islâmico é uma consequência do conflito israelo-palestiniano. (Para quem tiver má memória, recorda-se também que neste mesmo ano de 1994 em que o GIA e a FIS [Frente Islâmica de Salvação] semeavam o terror entre os argelinos, israelitas e palestinianos desenvolviam negociações em Tunes e usufruíam duma certa distensão mercê da mediação norueguesa.) Tal como houve quem não quisesse perceber o que aconteceu em Nova Iorque e menos ainda perceber o que aconteceu em Madrid. Porque sobretudo não percebem o mundo em que vivem desde que, em Berlim, o muro caiu.
O ódio aos EUA tornou-se desde então no denominador comum dos desiludidos do comunismo e duma esquerda que, sem acreditar de facto no socialismo como alternativa, não propõe mais nada que medidas tipo "Compensan" aos exageros da economia de mercado. Tornaram-se reactivos, reaccionários no sentido em que se limitam a dizer o que não querem. E o resto é um imenso vazio preenchido com declarações que oscilam entre a Madre Teresa de Calcutá e o rap, à luz das quais a África e o Médio Oriente são transformados numa multidão de desvalidos, a acudir com muitos concertos. Já não se exportam ideologias. Mandam-se ONG. Pelo caminho, fazem-se declarações de fé na paz e lastimam-se as mortes. Embora, claro, existam umas mortes que são mais lamentadas que as outras.
P.S. - "Na Ordem, disseram-me que não podiam fazer nada, porque ele não estava inscrito e mandaram-me ir à polícia. Na polícia disseram que eu não podia apresentar queixa porque não era a doente..." - declarou ao PÚBLICO a filha de uma das pessoas que foram tratadas pelo falso médico Carlos Castro e Silva. Desculpar-me-ão a pergunta, mas se Carlos Castro e Silva não estava inscrito na Ordem podia exercer medicina? Por outro lado, é de esperar que só os próprios possam apresentar queixa na PJ? E como é possível que só os próprios possam apresentar queixa na PJ, ainda para mais estando a falar de Psiquiatria? Em resumo, como podemos ter a certeza de que o médico que nos atende é mesmo médico?
http://www.judea.ru/data/images/articles/1050432794/arafat-saddam.jpg
