Helena
31-03-2004, 23:04
Texto de José Eduardo Agualusa
Luanda corre. Ninguém sabe para onde. Não se sabe se foge, ou pelo
contrário, se persegue algo - talvez o futuro? Às vezes parece correr atrás
do passado. Os novos capitalistas, na sua maioria ainda muito dependentes do
aparelho de saque, a que só por troça de pode chamar Estado, procuram
reconstruir a única normalidade que conheceram - a da sociedade colonial.
Nelson Ned continua a ser recebido em Luanda por um público fiel. Para ouvir
Roberto Carlos, ou Júlio Iglesias, paga-se até 500 Dólares por bilhete. Os
bilhetes esgotam sempre. Os concursos de misses ocupam as primeiras páginas
dos jornais. Já se organizaram concursos de misses em todos os espaços
possíveis e inclusivé nalguns impossíveis, como, por exemplo, nas prisões.
Os concursos de misses, aliás, são uma das raras actividades, vamos dizer
culturais, na cidade, para além dos concertos nostálgicos com velhos
cantores da década de 70, nos quais é possível encontrar o Presidente José
Eduardo dos Santos. Júlio Iglesias beijou lhe a mão.
Luanda corre. Nos restaurantes mais caros da capital angolana, ou nos bares
da Ilha, debruçados sobre um mar que, em contraste com o areal, parece
assombrosamente límpido, debate-se aos gritos, às gargalhadas, o futuro do
País. Toda a gente condena o Governo. Muitos dos que condenam o Governo são
membros do Governo. Ou já foram. A oposição também não é poupada. Se houver
eleições - diz-se - o MPLA volta a ganhar; e se isso não fosse algo
absolutamente certo seria melhor nem pensar em eleições.
Luanda corre. O Jornal de Angola revela que o Governo pretende avançar com a
construção de 2 ilhas artificiais, em frente a Luanda, onde se situarão um
conjunto de amplas áreas verdes e condomínios privados. O projecto está
avaliado em 600 milhões de Dólares. Algumas vozes críticas objectaram que
seria preferível aplicar esse dinheiro na construção de escolas primárias e
de hospitais. Ao invés de erguer 2 ilhas artificiais, num país que dispõe de
tanta terra, tão mal aproveitada, seria mais sensato reconstruir os nobres
casarões coloniais e recuperar os velhos monumentos, como a Fortaleza de S.
Miguel, o Palácio de Ferro ou a casa do escritor novecentista Alfredo Troni,
todos em péssimo estado de conservação. Pouca gente escuta estas críticas.
Muitos angolanos ricos estão entusiasmados com a possibilidade de
construirem as suas vivendas num espaço onde se possam sentir ao mesmo tempo
protegidos e invejados, isto é, longe das mãos cobiçosas dos pobres, mas não
do seu olhar.
"E não existe o risco de uma revolta?"
Quem me pergunta isto é um diplomata estrangeiro. Receio que não. Muitos
pobres mostram mesmo um inusitado orgulho pela opulência da burguesia
predadora.
"Somos ricos!", asseguram, mostrando a riqueza que lhes foi roubada, e riem.
O riso não faz esquecer a miséria, mas serve de sustento a quem não tem
outro.
Luanda nunca se ajoelhou. Luanda resiste. Luanda corre. Não sei para onde.
Ninguém sabe. Não sei se avança em direcção à luz, não sei se foge. Os
luandenses tratam a sua cidade por um diminutivo carinhoso - Lua: "E aí
kota, voltaste à Lua?". Voltei. A poeira confirma-o. Nem é preciso muito
para descobrir a bandeira que Armstrong aqui deixou , com as riscas e as
estrelas. Estou pois de regresso à Lua. À Lua em quarto crescente.
Mudam-se os tempos.....mudam-se as vontades.........
Luanda corre. Ninguém sabe para onde. Não se sabe se foge, ou pelo
contrário, se persegue algo - talvez o futuro? Às vezes parece correr atrás
do passado. Os novos capitalistas, na sua maioria ainda muito dependentes do
aparelho de saque, a que só por troça de pode chamar Estado, procuram
reconstruir a única normalidade que conheceram - a da sociedade colonial.
Nelson Ned continua a ser recebido em Luanda por um público fiel. Para ouvir
Roberto Carlos, ou Júlio Iglesias, paga-se até 500 Dólares por bilhete. Os
bilhetes esgotam sempre. Os concursos de misses ocupam as primeiras páginas
dos jornais. Já se organizaram concursos de misses em todos os espaços
possíveis e inclusivé nalguns impossíveis, como, por exemplo, nas prisões.
Os concursos de misses, aliás, são uma das raras actividades, vamos dizer
culturais, na cidade, para além dos concertos nostálgicos com velhos
cantores da década de 70, nos quais é possível encontrar o Presidente José
Eduardo dos Santos. Júlio Iglesias beijou lhe a mão.
Luanda corre. Nos restaurantes mais caros da capital angolana, ou nos bares
da Ilha, debruçados sobre um mar que, em contraste com o areal, parece
assombrosamente límpido, debate-se aos gritos, às gargalhadas, o futuro do
País. Toda a gente condena o Governo. Muitos dos que condenam o Governo são
membros do Governo. Ou já foram. A oposição também não é poupada. Se houver
eleições - diz-se - o MPLA volta a ganhar; e se isso não fosse algo
absolutamente certo seria melhor nem pensar em eleições.
Luanda corre. O Jornal de Angola revela que o Governo pretende avançar com a
construção de 2 ilhas artificiais, em frente a Luanda, onde se situarão um
conjunto de amplas áreas verdes e condomínios privados. O projecto está
avaliado em 600 milhões de Dólares. Algumas vozes críticas objectaram que
seria preferível aplicar esse dinheiro na construção de escolas primárias e
de hospitais. Ao invés de erguer 2 ilhas artificiais, num país que dispõe de
tanta terra, tão mal aproveitada, seria mais sensato reconstruir os nobres
casarões coloniais e recuperar os velhos monumentos, como a Fortaleza de S.
Miguel, o Palácio de Ferro ou a casa do escritor novecentista Alfredo Troni,
todos em péssimo estado de conservação. Pouca gente escuta estas críticas.
Muitos angolanos ricos estão entusiasmados com a possibilidade de
construirem as suas vivendas num espaço onde se possam sentir ao mesmo tempo
protegidos e invejados, isto é, longe das mãos cobiçosas dos pobres, mas não
do seu olhar.
"E não existe o risco de uma revolta?"
Quem me pergunta isto é um diplomata estrangeiro. Receio que não. Muitos
pobres mostram mesmo um inusitado orgulho pela opulência da burguesia
predadora.
"Somos ricos!", asseguram, mostrando a riqueza que lhes foi roubada, e riem.
O riso não faz esquecer a miséria, mas serve de sustento a quem não tem
outro.
Luanda nunca se ajoelhou. Luanda resiste. Luanda corre. Não sei para onde.
Ninguém sabe. Não sei se avança em direcção à luz, não sei se foge. Os
luandenses tratam a sua cidade por um diminutivo carinhoso - Lua: "E aí
kota, voltaste à Lua?". Voltei. A poeira confirma-o. Nem é preciso muito
para descobrir a bandeira que Armstrong aqui deixou , com as riscas e as
estrelas. Estou pois de regresso à Lua. À Lua em quarto crescente.
Mudam-se os tempos.....mudam-se as vontades.........
