Óscar
02-04-2004, 00:08
Por PEDRO STRECHT
Quinta-feira, 01 de Abril de 2004
Dados recentemente conhecidos falam de uma realidade que muitos sabem existir, mas se tarda em resolver, e que dizem respeito às dificuldades económicas e sociais que uma parte importante da nossa população continua a enfrentar: em Portugal, 1/5 da população vive abaixo do limiar de pobreza e existem cerca de 200 mil pessoas com fome.
Estes números traduzem desde logo a ideia de um longo caminho a percorrer, pois uma sociedade com tanta diferença e com tanta carência é necessariamente mais injusta porque profundamente assimétrica, logo, foco de movimentos individuais ou sociais de desilusão e revolta. É também a existência desta clara desvantagem de tantos e tantos como nós que, em algumas circunstâncias, favorece determinadas saídas patológicas para algumas organizações psíquicas de risco. Por exemplo, um rapaz que cresceu com sentimentos repetidos de perda, ausência ou desreferência encontrará na delinquência uma saída possível para o seu mal-estar, se no seu bairro for evidente a existência de uma cultura marginal, isto é, de quem está ou é posto sistematicamente à margem.
Esta realidade é tanto mais importante quanto mais sabemos que ela existe lado a lado, com outras facetas do dia-a-dia do cidadão comum. Mesmo nas grandes cidades, não é difícil encontrarmos estes contrastes e tomarmos contacto com esta evidência. Há anos atrás, pude participar num pequeno projecto de investigação sobre dificuldades de aprendizagem e abandono escolar numa escola de Lisboa, podendo privar de perto, durante algumas semanas, com crianças que vestiam a mesma roupa durante dias a fio, ou que não usavam meias durante os dias frios de Inverno. Depois, a experiência repetiu-se quando, durante três anos lectivos, participei numa equipa de intervenção psicossocial de uma escola primária que servia, essencialmente, a população do bairro do Casal Ventoso, então em fase de requalificação, que permitiu a transformação de tantas barracas e construções precárias em prédios e equipamento de realojamento mais digno. Aliás, foi nesse período que o então Gabinete de Reconversão introduziu um pequeno-almoço que serviria para outras funções de supressão de necessidades básicas, diminuindo logo a taxa de absentismo escolar matinal. "Gosto da escola porque gosto de cá brincar e aprender e porque a escola dá leite", ouvi então.
Hoje, esta é uma realidade que continua a ser importante para quem trabalha com crianças e adolescentes de meios sócio-familiares carenciados. E há aqueles que, quando lhes é servida uma sopa, a enchem de pão, não imaginando a existência de um prato que a seguiria. Os que pedem para escrever ao presidente do seu clube de futebol a pedir bilhetes para irem ver um jogo, um qualquer, na companhia do pai, porque o orçamento mensal não dá para esse excesso. Aqueles que, findo o trabalho escolar, têm ainda uma longa jornada de trabalho rural ou engrossam o número dos explorados em trabalho infantil intrafamiliar. Ou os que, ao entrarem numa casa de banho com banheira, exclamam: "Olha uma piscina pequenina!.." Ou ainda aqueles que, ao deitarem-se numa cama, o fazem logo debaixo do cobertor, pois não lhes é evidente a possibilidade de existência de dois lençóis. Aliás, ainda recentemente, a secretária de Estado da Habitação referia que existia um número importante de casas em Portugal que não tinham ainda assegurado um dos três serviços mínimos de água, luz ou esgoto.
Este tão intenso grau de privação física e social determina, "a priori", um maior grau de privação emocional. Sem o mínimo de condições básicas, a organização afectiva das crianças e dos adolescentes é, igualmente, básico, muitas vezes meramente fisiológico. Como se as pessoas se organizassem apenas para o cumprimento de tarefas de sobrevivência, não podendo desenvolver outras facetas de determinadas capacidades interiores. Aí, mesmo para quem é novo e tem imenso potencial evolutivo de base, existe a hipótese da estagnação ou mesmo da regressão evolutiva. São aqueles que conhecemos e que, facilmente, olhamos pensando que, se as circunstâncias fossem outras, poderiam ter ido muito mais longe. Ou, por exemplo, são os outros que em determinada fase demonstram capacidades muito fortes em algumas áreas e que, revisitados tempos depois, as perderam ou desperdiçaram por falta de amparo ou estimulação.
Por isso é que vários estudos demonstram que a pobreza familiar está claramente identificada como um factor de risco na organização de vida de crianças e adolescentes, ligando-se a maiores taxas de prematuridade, de mortalidade infantil (neo e perinatal), mal-nutrição, negligência, maus tratos e abusos, dificuldades escolares, evoluções marginais e delinquentes ou gravidez adolescente. Aliás, sabe-se também que a pobreza é, por si só, fonte de tensão emocional familiar, condicionando muitas vezes situações circulares de onde é difícil sair por manifesta ausência de oportunidades e expectativas positivas.
As saídas continuam a passar pela consciencialização deste problema que, em cada momento, deveria ser tratado como nosso, pensado como tendo saídas possíveis através de cada um de nós, por uma mudança de atitude que torne mais amplas as noções de partilha, dádiva, justiça social, que deixe ao largo sentimentos de ciúme, inveja ou individualismo e favoreça um verdadeiro espírito de entreajuda e solidariedade.
Em Portugal, muito deste trabalho tem sido levado a cabo por organizações não-governamentais, como instituições privadas de solidariedade social ou outras. É a intervenção destas pessoas que devemos continuar a apoiar, pois são elas que quase sempre estão no terreno e, com espírito de luta e entrega diários, continuam a levar luz a muitas crianças e adolescentes, lá por onde existem estas vidas.
Recentemente, realizou-se em Lisboa um encontro da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, dedicado ao tema "Violência Escolar e Saúde Infantil". Entre outras coisas, foi a oportunidade para tomar contacto com o trabalho das equipas que constituem as duas ludotecas da Associação de Jardins Escolas João de Deus, que diariamente chegam aos bairros carenciados do Zambujal, 6 de Maio, Santa Filomena, Azinhaga dos Besouros, Cruz Vermelha e Armador. Abrangendo uma população de mais de duas centenas de crianças e adolescentes, levam-lhes um pouco de tudo: comida, jogos, livros, actividades lúdicas e, que mais não fosse, levam-lhes a sua presença, a dedicação, o amor. São exemplos como estes que ilustram o melhor que temos. São de mais intervenções como estas que nós precisamos. Acções que nos lembrem que estes problemas não estão longe de quem queira ajudar. Eles estão no meio de nós.
"Na minha vida imaginada, eu tinha uma boa casa onde vivia toda a minha família. Havia de ser uma boa casa, com espaço lá dentro e à volta e onde existisse aquilo que a gente precisa para comer e andar bem-disposto. Não era preciso muito não era preciso ser casa de rico, nem ter garagem para quatro carros e piscina, porque eu gostava mesmo que fosse uma vida onde toda a minha família vivesse melhor e todos andassem melhor."
(G., 14 anos)
in Público
Quinta-feira, 01 de Abril de 2004
Dados recentemente conhecidos falam de uma realidade que muitos sabem existir, mas se tarda em resolver, e que dizem respeito às dificuldades económicas e sociais que uma parte importante da nossa população continua a enfrentar: em Portugal, 1/5 da população vive abaixo do limiar de pobreza e existem cerca de 200 mil pessoas com fome.
Estes números traduzem desde logo a ideia de um longo caminho a percorrer, pois uma sociedade com tanta diferença e com tanta carência é necessariamente mais injusta porque profundamente assimétrica, logo, foco de movimentos individuais ou sociais de desilusão e revolta. É também a existência desta clara desvantagem de tantos e tantos como nós que, em algumas circunstâncias, favorece determinadas saídas patológicas para algumas organizações psíquicas de risco. Por exemplo, um rapaz que cresceu com sentimentos repetidos de perda, ausência ou desreferência encontrará na delinquência uma saída possível para o seu mal-estar, se no seu bairro for evidente a existência de uma cultura marginal, isto é, de quem está ou é posto sistematicamente à margem.
Esta realidade é tanto mais importante quanto mais sabemos que ela existe lado a lado, com outras facetas do dia-a-dia do cidadão comum. Mesmo nas grandes cidades, não é difícil encontrarmos estes contrastes e tomarmos contacto com esta evidência. Há anos atrás, pude participar num pequeno projecto de investigação sobre dificuldades de aprendizagem e abandono escolar numa escola de Lisboa, podendo privar de perto, durante algumas semanas, com crianças que vestiam a mesma roupa durante dias a fio, ou que não usavam meias durante os dias frios de Inverno. Depois, a experiência repetiu-se quando, durante três anos lectivos, participei numa equipa de intervenção psicossocial de uma escola primária que servia, essencialmente, a população do bairro do Casal Ventoso, então em fase de requalificação, que permitiu a transformação de tantas barracas e construções precárias em prédios e equipamento de realojamento mais digno. Aliás, foi nesse período que o então Gabinete de Reconversão introduziu um pequeno-almoço que serviria para outras funções de supressão de necessidades básicas, diminuindo logo a taxa de absentismo escolar matinal. "Gosto da escola porque gosto de cá brincar e aprender e porque a escola dá leite", ouvi então.
Hoje, esta é uma realidade que continua a ser importante para quem trabalha com crianças e adolescentes de meios sócio-familiares carenciados. E há aqueles que, quando lhes é servida uma sopa, a enchem de pão, não imaginando a existência de um prato que a seguiria. Os que pedem para escrever ao presidente do seu clube de futebol a pedir bilhetes para irem ver um jogo, um qualquer, na companhia do pai, porque o orçamento mensal não dá para esse excesso. Aqueles que, findo o trabalho escolar, têm ainda uma longa jornada de trabalho rural ou engrossam o número dos explorados em trabalho infantil intrafamiliar. Ou os que, ao entrarem numa casa de banho com banheira, exclamam: "Olha uma piscina pequenina!.." Ou ainda aqueles que, ao deitarem-se numa cama, o fazem logo debaixo do cobertor, pois não lhes é evidente a possibilidade de existência de dois lençóis. Aliás, ainda recentemente, a secretária de Estado da Habitação referia que existia um número importante de casas em Portugal que não tinham ainda assegurado um dos três serviços mínimos de água, luz ou esgoto.
Este tão intenso grau de privação física e social determina, "a priori", um maior grau de privação emocional. Sem o mínimo de condições básicas, a organização afectiva das crianças e dos adolescentes é, igualmente, básico, muitas vezes meramente fisiológico. Como se as pessoas se organizassem apenas para o cumprimento de tarefas de sobrevivência, não podendo desenvolver outras facetas de determinadas capacidades interiores. Aí, mesmo para quem é novo e tem imenso potencial evolutivo de base, existe a hipótese da estagnação ou mesmo da regressão evolutiva. São aqueles que conhecemos e que, facilmente, olhamos pensando que, se as circunstâncias fossem outras, poderiam ter ido muito mais longe. Ou, por exemplo, são os outros que em determinada fase demonstram capacidades muito fortes em algumas áreas e que, revisitados tempos depois, as perderam ou desperdiçaram por falta de amparo ou estimulação.
Por isso é que vários estudos demonstram que a pobreza familiar está claramente identificada como um factor de risco na organização de vida de crianças e adolescentes, ligando-se a maiores taxas de prematuridade, de mortalidade infantil (neo e perinatal), mal-nutrição, negligência, maus tratos e abusos, dificuldades escolares, evoluções marginais e delinquentes ou gravidez adolescente. Aliás, sabe-se também que a pobreza é, por si só, fonte de tensão emocional familiar, condicionando muitas vezes situações circulares de onde é difícil sair por manifesta ausência de oportunidades e expectativas positivas.
As saídas continuam a passar pela consciencialização deste problema que, em cada momento, deveria ser tratado como nosso, pensado como tendo saídas possíveis através de cada um de nós, por uma mudança de atitude que torne mais amplas as noções de partilha, dádiva, justiça social, que deixe ao largo sentimentos de ciúme, inveja ou individualismo e favoreça um verdadeiro espírito de entreajuda e solidariedade.
Em Portugal, muito deste trabalho tem sido levado a cabo por organizações não-governamentais, como instituições privadas de solidariedade social ou outras. É a intervenção destas pessoas que devemos continuar a apoiar, pois são elas que quase sempre estão no terreno e, com espírito de luta e entrega diários, continuam a levar luz a muitas crianças e adolescentes, lá por onde existem estas vidas.
Recentemente, realizou-se em Lisboa um encontro da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, dedicado ao tema "Violência Escolar e Saúde Infantil". Entre outras coisas, foi a oportunidade para tomar contacto com o trabalho das equipas que constituem as duas ludotecas da Associação de Jardins Escolas João de Deus, que diariamente chegam aos bairros carenciados do Zambujal, 6 de Maio, Santa Filomena, Azinhaga dos Besouros, Cruz Vermelha e Armador. Abrangendo uma população de mais de duas centenas de crianças e adolescentes, levam-lhes um pouco de tudo: comida, jogos, livros, actividades lúdicas e, que mais não fosse, levam-lhes a sua presença, a dedicação, o amor. São exemplos como estes que ilustram o melhor que temos. São de mais intervenções como estas que nós precisamos. Acções que nos lembrem que estes problemas não estão longe de quem queira ajudar. Eles estão no meio de nós.
"Na minha vida imaginada, eu tinha uma boa casa onde vivia toda a minha família. Havia de ser uma boa casa, com espaço lá dentro e à volta e onde existisse aquilo que a gente precisa para comer e andar bem-disposto. Não era preciso muito não era preciso ser casa de rico, nem ter garagem para quatro carros e piscina, porque eu gostava mesmo que fosse uma vida onde toda a minha família vivesse melhor e todos andassem melhor."
(G., 14 anos)
in Público
