Óscar
08-04-2004, 14:27
A Segunda Guerra Iraquiana
Por EDUARDO DÂMASO
Quinta-feira, 08 de Abril de 2004
Os combates que se travam no Iraque entre as forças da coligação e grupos armados sunitas e xiitas, fiéis ao líder religioso Moqtada al-Sadr, demonstram a cada dia o erro norte-americano de ter instrumentalizado a luta global contra o terrorismo na diabolização de Saddan Hussein, tendo em vista o seu derrube e a ocupação do Iraque num contexto de reconstrução assente quase exclusivamente nos interesses económicos norte-americanos.
A queda de Saddan Hussein é um bem indiscutível para a humanidade mas todas as consequências que derivam do conflito militar aberto para esse fim invertem por completo a regra da proporcionalidade e adequação entre os meios utilizados na aplicação da violência e os resultados obtidos. A violência militar usada resolveu um problema - a permanência de Saddan no poder - mas criou muitos outros. Saddan caiu mas o Iraque não ficou melhor, a Al Qaeda alarga todos os dias o campo de recrutamento e de acção no ódio e no antiamericanismo que floresce, o terrorismo afirma-se à escala planetária, não se vislumbra uma transição rápida num Iraque mergulhado no caos mais absoluto.
Neste momento, há cada vez menos uma situação de transição de poderes e de reconstrução de uma nova soberania e legitimidade democráticas e cada vez mais uma segunda guerra em Bagdad. O número de mortos entre iraquianos e soldados da coligação nesta semana, os meios militares utilizados, são muito ilustrativos do inferno que se vive no Iraque.
A resistência à ocupação não se confina já ao chamado triângulo sunita e aos saudosos do ditador iraquiano. Nos últimos dias instalou-se uma lógica não de resistência mas de guerra civil que alastra pelo país com xiitas e sunitas contra a coligação, facções xiitas em conflito entre si e sunitas contra todos.
Para uma coligação que ia levar a paz e a democracia ao Iraque, que visava obter um efeito de dominó à escala regional no derrube de regimes tirânicos e corruptos, que contava com a vasta e perseguida comunidade xiita para a transição pacífica, o balanço não podia ser pior.
A coligação não tem agora uma mas duas frentes de guerra, ainda que o íman Moqtada al-Sadr não represente, longe disso, o todo dos xiitas. De qualquer modo, a sua simples existência nos termos em que se concretizou nos últimos dias, confronta os americanos com uma de duas más opções: a imprudente eliminação física ou a negociação de uma paz podre.
Liderando rebeldes armados, incitando à violência, arrastando uns milhares atrás de si, al-Sadr obrigou as forças ocupantes a pedirem ajuda ao ayatollah Sistani e a pagarem, por isso, um elevado preço, numa altura em que também é evidente o descontentamento dos xiitas moderados com alguns elementos basilares da transição, como a Constituição.
Por fim, a situação iraquiana todos os dias demonstra que o terrorismo não se combate exclusivamente pela via militar, que a espiral terrorista não só não foi travada como se agravou pelo mundo e que essa opção bélica pode impedir por décadas uma solução política para o Médio Oriente. O Iraque transformou o próprio mundo num vespeiro imprevisível.
http://jornal.publico.pt/2004/04/08/EspacoPublico/OEDIT.html
Por EDUARDO DÂMASO
Quinta-feira, 08 de Abril de 2004
Os combates que se travam no Iraque entre as forças da coligação e grupos armados sunitas e xiitas, fiéis ao líder religioso Moqtada al-Sadr, demonstram a cada dia o erro norte-americano de ter instrumentalizado a luta global contra o terrorismo na diabolização de Saddan Hussein, tendo em vista o seu derrube e a ocupação do Iraque num contexto de reconstrução assente quase exclusivamente nos interesses económicos norte-americanos.
A queda de Saddan Hussein é um bem indiscutível para a humanidade mas todas as consequências que derivam do conflito militar aberto para esse fim invertem por completo a regra da proporcionalidade e adequação entre os meios utilizados na aplicação da violência e os resultados obtidos. A violência militar usada resolveu um problema - a permanência de Saddan no poder - mas criou muitos outros. Saddan caiu mas o Iraque não ficou melhor, a Al Qaeda alarga todos os dias o campo de recrutamento e de acção no ódio e no antiamericanismo que floresce, o terrorismo afirma-se à escala planetária, não se vislumbra uma transição rápida num Iraque mergulhado no caos mais absoluto.
Neste momento, há cada vez menos uma situação de transição de poderes e de reconstrução de uma nova soberania e legitimidade democráticas e cada vez mais uma segunda guerra em Bagdad. O número de mortos entre iraquianos e soldados da coligação nesta semana, os meios militares utilizados, são muito ilustrativos do inferno que se vive no Iraque.
A resistência à ocupação não se confina já ao chamado triângulo sunita e aos saudosos do ditador iraquiano. Nos últimos dias instalou-se uma lógica não de resistência mas de guerra civil que alastra pelo país com xiitas e sunitas contra a coligação, facções xiitas em conflito entre si e sunitas contra todos.
Para uma coligação que ia levar a paz e a democracia ao Iraque, que visava obter um efeito de dominó à escala regional no derrube de regimes tirânicos e corruptos, que contava com a vasta e perseguida comunidade xiita para a transição pacífica, o balanço não podia ser pior.
A coligação não tem agora uma mas duas frentes de guerra, ainda que o íman Moqtada al-Sadr não represente, longe disso, o todo dos xiitas. De qualquer modo, a sua simples existência nos termos em que se concretizou nos últimos dias, confronta os americanos com uma de duas más opções: a imprudente eliminação física ou a negociação de uma paz podre.
Liderando rebeldes armados, incitando à violência, arrastando uns milhares atrás de si, al-Sadr obrigou as forças ocupantes a pedirem ajuda ao ayatollah Sistani e a pagarem, por isso, um elevado preço, numa altura em que também é evidente o descontentamento dos xiitas moderados com alguns elementos basilares da transição, como a Constituição.
Por fim, a situação iraquiana todos os dias demonstra que o terrorismo não se combate exclusivamente pela via militar, que a espiral terrorista não só não foi travada como se agravou pelo mundo e que essa opção bélica pode impedir por décadas uma solução política para o Médio Oriente. O Iraque transformou o próprio mundo num vespeiro imprevisível.
http://jornal.publico.pt/2004/04/08/EspacoPublico/OEDIT.html
