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Terroristas

Mohandas
17-05-2004, 21:49
Por CARLOS VALE FERRAZ,
Público, segunda-feira, 17 de Maio de 2004

"O terrorismo com que o mundo se confronta actualmente deve ser encarado como a nossa principal ameaça."

Não li o último livro do general Loureiro dos Santos, mas a frase citada por Helena Pereira parece-me suficiente para concluir que até um especialista tão reputado como o autor nos arrasta, ou se deixa arrastar, para as areias movediças da confusões entre parte e todo, entre efeito e causa. Se o texto completo não confirmar esta primeira impressão, as minhas antecipadas desculpas.

Que mundo é ameaçado pelo terrorismo? Certamente não o Mundo, mas o nosso mundo, a parte do mundo do Ocidente, industrializado e de matriz cristã. Mesmo quando as acções terroristas ocorrem na Indonésia, em Marrocos, no Paquistão ou na Arábia Saudita, é contra o Ocidente, via aliados locais, que elas se dirigem.

Este terrorismo é pois a ameaça que uma parte do mundo faz a outra parte. Para o enfrentarmos com alguma hipótese de sucesso devemos analisá-lo com rigor.

Este terrorismo não tem, do ponto de vista dos seus métodos e técnicas, nada de novo. Resume-se a fazer detonar cargas explosivas sobre objectivos seleccionados. Uma viatura, ou mesmo um homem carregado de explosivos, não passa de uma munição idêntica à que é disparada por um obus, largada de um avião, enviada por um helicóptero ou transportada por um míssil. Tecnicamente é um acto de artilharia.

Pode argumentar-se que os objectivos escolhidos pelos terroristas são ignóbeis - actos indiscriminados, massacrando o maior número possível de inocentes. São, de facto ignóbeis, mas não são diferentes dos que têm sido praticados ao longo da História em qualquer conflito. A referência a vitimas inocentes dramatiza a frase, mas não adianta nenhum elemento novo, porque uma das características dos conflitos é mesmo o massacre de inocentes, pois os culpados, aqueles que os desencadeiam e conduzem, raramente foram e são punidos.

Pode dizer-se que os objectivos do terrorismo abrangem agora todo o planeta e que essa é uma característica nova. Talvez seja, mas depois de "nós" termos globalizado a economia, apropriando-nos das matérias-primas onde quer que elas se encontrem e transformado o mundo num mercado, depois de termos globalizado a cultura, impondo a nossa, depois de termos globalizado as formas de exercício do poder e a guerra, alguém pode honestamente admirar-se que a resposta, o terrorismo, surja também globalizado?

Sendo o terrorismo uma velha e conhecida modalidade de violência, não é pois a novidade dos métodos que causa a excitação que parece ter acometido os nossos analistas e políticos. Essa excitação não tem também origem nos seus efeitos, nem sequer na sua particular intensidade - há meia dúzia de anos convivíamos diariamente com os massacres da Sérvia -, mas sim nas suas causas. E são as causas deste terrorismo que todos procuram escamotear, uns respondendo-lhe com a pura violência armada, outros com afirmações vazias de sentido, do género de "negociar com terroristas seria legitimá-los"!

É que este terrorismo tem como causa as causas de todas as guerras: defesa de interesses económicos vitais - leia-se petróleo; defesa de identidades que se sentem ameaçadas, ou a tentativa de impor a própria - leia-se conflito de civilizações; tentativa de reparar humilhações - leia-se conflito israel-palestianiano e conflito entre as massas árabes e as corruptas classes dirigentes que lhes foram impostas.

Tendo este terrorismo como causa as causas de todas as guerras ele é, e não passa disso, uma modalidade de acção de uma batalha. Como modalidade de combate é tão legítima como todas as outras.

A novidade desta guerra, dita contra o terrorismo, não está, curiosamente, do lado dos terroristas. Infelizmente está do nosso lado, quando o declaramos ilegítimo. É que desde a Idade Média, desde as tréguas de Deus, desde a limitação do uso de certas armas particularmente cruéis, a besta, por exemplo, desde a Convenção de Genebra, o Ocidente tem procurado legitimar o inimigo. Agora voltamos a "ilegitimá-lo", isto é, a retirar-lhe a categoria de ser um Ser.

Não negociar para não legitimar tem como consequência lutar até à destruição final de uma das partes. É a escolha de Ariel Sharon: como o inimigo é terrorista, é abatido como um cão. Parece ser a escolha de alguns dos nossos bem pensantes que evitam esclarecer que, com a recusa da legitimação do inimigo, regredimos e voltamos à lei do olho por olho e, para sermos consequentes, à legitimação da tortura dos prisioneiros, da decepação dos ladrões, da chacina dos que se rendem, da fogueira para os infiéis.

A esta violência, responderão os inimigos com maior violência. Ambas as partes sem negociarem, sem lei, exibindo os cadáveres das vítimas e gritando: é a guerra! E arrastando com eles os que de ambos os lados poderiam negociar, isto é, procurar denominadores comuns de respeito.

Que esta "firmeza" e esta "justificação" façam de nós terroristas, pois iguais a eles, parece não lembrar a ninguém. Ou, pelo menos, parece não incomodar ninguém. A mim, incomoda-me.

Mohandas
18-05-2004, 19:16
Gostava que alguém tivesse comentado este artigo... :(

Massarico
19-05-2004, 23:25
Foi impressão minha, ou este rapaz está a legitimar o terrorismo. está a legitimar que um maluco qualquer, para espalhar o Islão, vingar-se de Israel ou qualquer outra sorte de disparate estoire com prédios e com combóios cheios de gente?

Pode legitimar-se este tipo de massacre? Em que o objectivo é a eliminação do maior número de gente possível? Gente que está ou vai trabalhar normalmente?

Eu acho que o mundo está completamente do avesso. Saber que há malucos para dizer estas asneiradas e atrasados mentais a dirigir jornais de referência que permitem a publicação deste tipo de imbecilidades é algo que me deixa estarrecido.

Bom, mas como ainda estou a ser explorado pelo grande capital a esta hora (e um capital dos piores, sócio da Carlyle, vejam bem), nem me apetece dizer mais nada.

Boas noites

Óscar
20-05-2004, 01:54
Pois, Massarico... deixa lá que o que o homem (não é rapaz, não...) escreve é capaz de ser demasiado complicado para a tua cabecinha... não gostaste e/ou não percebeste nada do que o homem escreveu e, como tal, numa reacção típicamente pavloviana, desataste a insultá-lo... é o costume... a ignorância sempre foi inimiga do livre pensamento e, agora, com as novas (velhas) teorias bushianas (ou se está por mim ou contra mim), regredimos mais uns passos largos na evolução de uma sociedade verdadeiramente democrática, que permita a livre expressão das idéias, sem que, quem ouse dizer algo que nós não gostemos, seja de imediato catalogado, insultado e denegrido, segundo a nossa bitola ideológica e/ou os nossos interesses económicos.

Repara que não rebateste nenhuma das idéias expressas no artigo de opinião... apenas o insultaste, chamando-de "rapaz", "maluco" e como dizendo "asneiradas" e "imbecilidades". Esclarecedor, ainda, é o insulto de "atrasados mentais" aos que permitiram a publicação de tal artigo... serão saudades do "lápis azul" e da tesoura utilizadas pelas censura antes do 25 de Abril?

Para findar e para te esclarecer, posso dizer-te que Carlos Vale Ferraz, é o pseudónimo literário de um ex-oficial dos comandos, que estando mobilizado em Moçambique, participou na famigerada operação "Nó Górdio", planificada e dirigida por Kaúlza de Arriaga. É uma pessoa que conhece bem a guerra por dentro e um dos livros que publicou, o Nó Cego, referente á operação acima descrita, é um dos meus livros de cabeceira...

Boas noites

zegino
20-05-2004, 09:59
S¿O bons rapazinhos e bem pensantes, gostaria de vos conhecer se de facto s¿O como aqui deixaram transparecer.
Pe܈ muito bem escrita, excelentes argumentos e provavelmente apenas faltou dizer claramente que t¿O terrorista ¨¦ o que lan܈ uma bomba contra inocentes (inaceitðåel) como o avi¿O que cegamente despeja toneladas de explosivos sobre inocentes.
Lamento n¿O haver muitos mais a escrever estas coisas, a ler estas coisas ou a ler coisas de gente como o Chomsky.


Quinta-feira, 20 de Maio de 2004
A Pena Máxia para o Soldado Sivits Foi Um Ano de Prisão
Por SOFIA LORENA

No dia em que o soldado Jeremy Sivits foi condenado a um ano de prisão em Bagdad - a pena máxima prevista pelo tribunal marcial especial que o julgou, responsáveis iraquianos denunciaram a morte de mais de 40 pessoas que celebravam um casamento e terão sido atingidas por aviões americanos.

Massarico
20-05-2004, 20:47
Alguns pontos preliminares:

1) Não sei, de facto, quem é Carlos Vale Ferraz. E para o caso, não tem qualquer espécie de interesse.

2) Insultei-o, porque fui insultado ou, de acordo com o Oscar, sofro desse mal nacional que é a iliteracia, e julguei ter sido insultado.

3) Quanto ao lápis azul, não pega - tal como não não me parece aceitável que se publique um artigo em que se apele ao extremínio de ciganos, por exemplo. Não é lápis azul, é só bom senso.

Quanto ao texto em si:

"Que mundo é ameaçado pelo terrorismo? Certamente não o Mundo, mas o nosso mundo, a parte do mundo do Ocidente, industrializado e de matriz cristã. Mesmo quando as acções terroristas ocorrem na Indonésia, em Marrocos, no Paquistão ou na Arábia Saudita, é contra o Ocidente, via aliados locais, que elas se dirigem."

Não podia estar mais de acordo: é uma ameaça ao mundo livre, ao mundo onde se vota, onde as mulheres se vestem como entendem e não são mortas pelo pai por terem sido violadas, onde cada um pode ser católico, muçulmano, maná, hindu, etc, sem medo de ser linchado. E rigor por rigor, é bom que se diga tudo: que parte do mundo está contra que parte.

"Uma viatura, ou mesmo um homem carregado de explosivos, não passa de uma munição idêntica à que é disparada por um obus, largada de um avião, enviada por um helicóptero ou transportada por um míssil. Tecnicamente é um acto de artilharia."

Não podia estar mais em desacordo: pagar a uma pessoa (ou à sua família), prometer-lhe graças divinas e eternas, em meios iliteratos e pobres, para se suicidar em nome de uma causa, arrastando consigo uma série de gente que está a tomar a bica na esplanada é completamente diferente de lançar um obuz numa situação de guerra, em que há gente que sabe que o inimigo está ali, é aquele e está à espera que lhe enviem um obuz.

Não sei se tecnicamente é artilharia ou não - moralmente, é muitíssimo diferente.

"A referência a vitimas inocentes dramatiza a frase, mas não adianta nenhum elemento novo, porque uma das características dos conflitos é mesmo o massacre de inocentes, pois os culpados, aqueles que os desencadeiam e conduzem, raramente foram e são punidos."

A questão não se se punem realmente os verdadeiros culpados ou não. A questão é puramente de intenção. Enquanto numa situação de guerra clássica há uma intenção de abater os soldados inimigos, podendo eventualmente matar alguns inocentes (os chamados danos colaterais), num ataque terrorista pretende-se o horror puro: matar indiscriminadamente o maior número possível de pessoas, sejam quem forem. O que interessa é o número de mortes.

É aqui que reside a grande questão: quem procede assim, não pode ser legitimado. É um insulto aos inocentes que morreram e uma absoluta inversão de valores, em que uma sociedade inteira, livre e democrática, cede a um bando de criminosos que quer impor a sua religião, os seus hábitos e os seus modos. No nosso território, contra os nossos valores mais prezados.

Legitimar esta gente, é deitar por terra tudo aquilo que de bom foi conseguido no Ocidente. E foi conseguido com muito esforço e com muito sangue.

"Talvez seja, mas depois de "nós" termos globalizado a economia, apropriando-nos das matérias-primas onde quer que elas se encontrem e transformado o mundo num mercado, depois de termos globalizado a cultura, impondo a nossa, depois de termos globalizado as formas de exercício do poder e a guerra, alguém pode honestamente admirar-se que a resposta, o terrorismo, surja também globalizado?"

Poderia teorizar aqui longamente sobre a globalização da economia e a "apropriação" das matérias primas mas, como considero que este é outro assunto, não vou discutir.

O que me parece pouco razoável é que seja normal que a resposta à globalização seja uma orientalização à bomba. eu acho que é de admirar. Tal como é de admirar que eu decida espancar o empregado de um restaurante só porque a conta foi muito alta. Não me parece razoável esperar que isso aconteça.

"Tendo este terrorismo como causa as causas de todas as guerras ele é, e não passa disso, uma modalidade de acção de uma batalha. Como modalidade de combate é tão legítima como todas as outras."

Havia muito para dizer sobre os parágrafos anteriores a este, mas não posso ficar aqui a noite toda a escrever.

Foi esta expressão que ontem me pôs bastante irritado. E sinceramente, não sei como se rebate uma frase destas. Como é que se diz que não é legítimo, seja de que ponto de vista for, que arrasar combóios cheio de gente vulgar, ou prédios onde funcionam empresas como aquela em que trabalho, onde trabalhavam pessoas vulgares, como eu, possivelmente iliteratos como eu é ilegítimo? Como é que contra-argumenta isto? Alguém mais literato, com mais cabecinha me pode explicar?

"Que esta "firmeza" e esta "justificação" façam de nós terroristas, pois iguais a eles, parece não lembrar a ninguém. Ou, pelo menos, parece não incomodar ninguém. A mim, incomoda-me."

Aqui está a prova de que fui o primeiro a ser insultado. Eu não admito negociar com terroristas. E não sou igual a nenhum Bin-Laden. E não sou igual porque não quero aviar umas centenas de muçulmanos fazendo rebentar um combóio no Paquistão, nem matar uns milhares de budistas atirando aviões comerciais contra prédios em Tóquio ou eliminar judeus em autocarros ou esplanadas ou fazer explodir a praça de S. Pedro, no Vaticano num Domingo de Sol.

A grande diferença entre mim e Bin-Laden é que eu não quero determinar nada da vida dele, e ele quer, à bomba, condicionar todas as minhas opções. Essa é a nossa maior distinção e é aquilo que, desculpem a presunção, me dá uma imensa superioridade moral sobre um terrorista.

Óscar
21-05-2004, 01:45
Israel - Mais um "terrorista" morto...

«Um civil não armado foi morto na rua quando saiu de casa para exigir água aos soldados israelitas, segundo relatos dos vizinhos. O Exército, por seu lado, explica que disparou sobre um homem que se dirigiu aos soldados, "violando o cessar-fogo".»

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